Lucros da banca sobem 133% em 29 anos, já o crédito a clientes subiu 862%

Desde 1990, verificou-se um aumento de concentração do sistema bancário português. Ao longo do período para o qual existe informação comparável, Portugal apresenta um nível de concentração superior ao da área do euro, o que poderá ser explicado pelo facto dos países mais pequenos tenderem a ter níveis de concentração mais elevados, explica o BdP.

O resultado líquido atribuído aos detentores maioritários dos bancos portugueses passou de 490 milhões de euros em 1990 para 1.144 milhões em abril de 2018 (dado mais recente analisado pelo Banco de Portugal). Isto significa uma subida de 133,5%.

Em 2011 começaram a surgir os prejuízos na banca. Em abril desse ano o resultado é de -1.546 milhões. Em abril de 2014 atinge um pico de prejuízos, -5.535 milhões. Depois começam a melhorar os resultados, mas em abril de 2016 ainda somam -1.736 milhões de perdas. A viragem sustentada para lucros dá-se em janeiro de 2018, altura em que o setor bancário regista 663 milhões de lucros.

O crédito a clientes (bruto) em 1990, era 24.807 milhões de euros. Em abril de 2018, esse crédito era de 238.739 milhões de euros (+862,4%).

O período considerado na base de dados do Banco de Portugal cobre um período de 29 anos compreendido entre 1990 e 2018.  A frequência das séries é, de uma forma geral, anual. No entanto, para um período mais recente a periodicidade é trimestral num conjunto alargado de informação.

Desde 1990, verificou-se um aumento de concentração do sistema bancário português. Esta evolução foi particularmente evidente na década de 90, tendo sido reforçada em dois períodos em que se verificaram importantes operações de fusão e aquisição – 1995 e 2000. Ao longo do período para o qual existe informação comparável, Portugal apresenta um nível de concentração superior ao da área do euro, o que poderá ser explicado pelo facto dos países mais pequenos tenderem a ter níveis de concentração mais elevados, explica o Banco de Portugal.

De uma forma geral, estes indicadores registaram um aumento durante a década de 90. Os anos de 1995 e 2000 são identificados como dois momentos em que se verificou uma expressiva subida da concentração. Recorde-se que, por um lado, em 1995, verificou-se a aquisição do Banco Português do Atlântico (BPA) pelo Banco Comercial Português (BCP), os quais passaram a consolidar, apesar do BPA só ter sido extinto em 2000. Por outro lado, em 2000, verificaram-se várias aquisições relevantes no setor, nomeadamente: do Banco Pinto & Sotto Mayor (BPSM) e do Banco Mello pelo BCP; do Banco Totta & Açores (BTA) e do Crédito Predial Português (CPP) pelo Santander; do Banco Chemical pela Caixa Geral de Depósitos (CGD). “Refira-se que nos anos seguintes a 1995 e 2000, esses aumentos foram parcialmente revertidos”, explica o banco central.

“Para medir a concentração do setor bancário utilizou-se o índice de Herfindahl-Hirschman
normalizado (HH)”, refere o estudo. A existência de diversas fusões e aquisições chama a atenção para o facto das séries estatísticas terem quebras de estrutura que terão de ser levadas em consideração em algumas análises efetuadas.

Ainda que as operações ocorridas em 1995 e 2000 sejam as únicas que pareçam ter consequências mais significativas a nível agregado, os dados mais desagregados estão influenciados por outros episódios de fusões e aquisições.

Depois de um expressivo crescimento desde 1990, o setor está num processo de ajustamento da respetiva dimensão desde 2010, diz o Banco de Portugal. Esta conclusão é comum olhando para três indicadores distintos: ativo total, número de balcões e de trabalhadores. Mas tomando como referência os países da área do euro, esses indicadores situam-se em níveis diferenciados. Os ativos em percentagem do PIB situaram-se sempre abaixo da média dos países da área do euro. Pelo contrário, no que respeita aos balcões e empregados e atendendo à dimensão do setor, Portugal situa-se acima dos valores médios e medianos da área do euro.

Desde 2010, o número de balcões bancários em Portugal registou uma significativa redução, tendo fechado cerca de duas mil agências. Mas apesar desta redução continua a estar acima da zona euro.

No que diz respeito ao peso dos balcões em função do total de ativos, existem apenas três países com um número de balcões acima de Portugal: Eslovénia, Lituânia e Eslováquia.

O Banco de Portugal reportou ainda que, nos últimos dez anos, mais de duas mil caixas multibanco desapareceram em Portugal. Atualmente, existem no país, um total de 11.569 caixas automáticas. Já os terminais de pagamento automático que têm registado um aumento significativo.

Em relação às caixas multibanco, em 2008, havia 13.637 caixas automáticas, que passaram para 11.569 em 2018, ou seja, menos 2.068 em 10 anos. O ano em que houve mais caixas multibanco foi em 2010, quando havia 14.614. Se as contas forem feitas face a esse ano, a queda até 2018 foi superior a 3.000 caixas de levantamento automático (ATM).

Em sentido contrário à queda das caixas multibanco, tem aumentado o número de terminais de pagamento automático (POS), que eram 322.336 em 2018, mais 40 mil do que em 2010. Já face a 2000, o número de terminais de pagamento automáticos (que existem habitualmente nas lojas, que permitem pagar bens e serviços com cartão bancário) triplicou, já que nesse ano eram poucos mais do que 106 mil.

A exceção foram os anos de 2011, 2012 e 2013, em que estes terminais diminuíram, o que o Banco de Portugal relaciona com “os efeitos da crise [que] se poderão ter feito sentir no número de estabelecimentos comerciais”.

Segundo o banco central, Portugal continua acima da média da zona euro tanto no número de terminais de pagamento automático como no número de caixas multibanco, na comparação face a um milhão de habitantes.

O Banco de Portugal divulgou esta terça-feira as Séries Longas – Setor Bancário Português 1990-2018, uma base de dados com informação histórica sobre o sistema bancário português, que inclui dados sobre indicadores financeiros, empréstimos a clientes e taxas de juro, recursos humanos, distribuição de agências e sistemas de pagamentos.

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Outra das conclusões é que ao longo de todo o período em análise assistiu-se a uma redução muito acentuada da margem financeira (diferença entre juros recebidos e pagos). Em percentagem do ativo médio, a margem financeira passou de cerca de 4,5% em 1990 para valores em torno de 1,5% nos anos mais recentes.
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