Madeira, o Seu Destino Natural

O modelo de negócio do turismo não vai voltar ao que era. Precisa-se, urgente, de uma estratégia e conhecimento. É tempo para soluções inovadoras, onde risco, rendimento e impacto estejam presentes na avaliação de qualquer intervenção.

Madeira, Your Natural Destination (MYND)

A cadeia de valor do Turismo, a nível global, está a ser uma das atividades mais afetada pela pandemia, desencadeada pelo Covid-19, desde o fim do ano de 2019. Agências de viagens, cruzeiros, companhias de aviação, hotelaria e restauração estão na primeira linha de retração, mas reflete-se em toda a fileira turística sem precedentes, derivada da quebra abrupta na procura. O mundo parece assistir impotente ao colapso de uma das suas mais importantes indústrias.

Os dados globais mais recentes continuam a expressar essa tendência, sem fim à vista. Ilustrando. O grupo alemão Tui, a maior operadora de viagens na Europa, informou recentemente os mercados que o valor da receita em junho acumulada dos últimos três meses foi de €75 milhões, o que traduz uma queda de 98 por cento em comparação com o mesmo período do ano passado – uma redução superior à prevista pelos analistas. Adicionalmente, comunicou que as reservas para o pacote de férias do próximo verão registaram um aumento de 145 por cento (em relação ao período homólogo do ano passado). Contudo, admitiu que tal facto se deveu em parte à remarcação pelos clientes das viagens canceladas neste verão. Outro fator relevante, é que a operadora Tui havia anunciado que ia cortar a capacidade para o verão de 2021 em 20 por cento, mas também o programa de férias de inverno de 2020 em 40 por cento, alinhadas com a expectativa de uma procura inferior[1]. Em pouco tempo, o cenário mudou, nada do que previam é atualmente válido.

Na Madeira as estatísticas mais recentes, reportando a junho, apontam para quebras nas dormidas de 97,7% e no volume de negócio de 98,5%, em relação ao mesmo mês em 2019 (variação homóloga). Um cenário mais drástico do que aquele que obtemos da análise do 1º semestre deste ano em relação ao ano passado, que apontava para quebras nas dormidas de 16,1% e nos proveitos de 16,6%. Aliás, em linha com outros indicadores da região. A cultura com uma quebra média de aproximadamente 63% (60,2 no número de sessões, 64,7 no número de espectadores e 64,1% nas receitas). As vendas de produtos regionais de excelência (valores para o 1º trimestre) como o vinho Madeira, menos 1,7% nas vendas em quantidade e até mais 12,5% das vendas em valor, e os bordados, menos 7,9% em quantidade (kg) e “apenas” menos 4,7% em valor, ainda apresentavam desempenhos menos sombrios. De resto, no final do 1º trimestre de 2020, as dificuldades já se faziam sentir, 7,5% de créditos vencidos, portanto não regularizados, contra 4,4% a nível nacional, essencialmente pelas empresas locais com um valor de 21%, contra 9% nas famílias. A mesma tendência era sentia no emprego, apresentando uma retração, menos 1,5% em relação ao 1º trimestre de 2019. O indicador regional de atividade económica atingiu em abril o anterior mínimo histórico (de junho, 2012) – 5,6 e em maio teve uma quebra de 78% para o novo mínimo de -9,8. Tudo isto foi elaborado a partir de uma média móvel a 3 meses, pelo que de acordo com os dados disponíveis, junho irá, certamente, quebrar, para pior, este valor histórico[2].

Não obstante o desalento dos números, importa salientar aspetos de esperança: i) A Madeira geriu, com sucesso a crise sanitária, não registando qualquer morte por covid-19. ii) a Madeira está nas rotas livres de quarentena, designadamente de voos do Reino Unido e outros países Europeus, apresentando-se como destino seguro.

Estes aspetos podem revelar-se uma vantagem competitiva, quando comparado com o resto do mundo, podendo ser usados como argumento para uma retoma da atividade turística, da qual a Região, ainda, depende significativamente.

Com efeito, através de um modelo econométrico simples[3] que relacione a riqueza por habitante gerada anualmente na região e as receitas do turismo, num período recente (2009-18, pós crise financeira mundial portanto), confirma-se uma estreita relação (0,84, o valor máximo de 1) e obtemos uma elasticidade entre ambas. Ou seja, quantifica-se o impacto das receitas de turismo na criação de riqueza por habitante. De acordo com os cálculos, por cada decréscimo de 1% das receitas do turismo verifica-se uma quebra de 0,26% no produto interno per capita. Isto equivale a dizer, que caso se confirme o valor acumulado em junho (1º semestre de 2020), -64,2%, em termos anuais, a riqueza gerada por habitante reduzirá 16,7%. As receitas no turismo têm uma carácter muito sazonal (julho, agosto e setembro são os meses mais relevantes), portanto teremos de esperar pelos dados no final de setembro para termos bases mais sólidas, para realizar uma previsão mais fiável, principalmente este ano. Todavia, o leitor pode antecipar o impacto, bastando multiplicar por 0,26 o valor, estimando a quebra nas receitas de turismo em 2020.

Neste quadro, embora se possa e deva equacionar uma diminuição da dependência do turismo na Região a médio prazo, no curso prazo há que encontrar soluções de contingência.

Temos pela frente a passagem de ano de 2020. Trata-se de um evento internacional, uma imagem de marca. Além de estatisticamente ao nível da receita o mês de dezembro aparecer em 9º lugar (só ultrapassando janeiro, fevereiro e novembro), constitui, mesmo assim, uma “almofada” importante no ciclo de tesouraria das empresas, para transpor as quebras inevitáveis de janeiro e fevereiro e permitir o relançamento em março e abril. Se nos permitem as modestas contribuições, há que começar a pensar em soluções, numa parceria entre o governo regional, universidade e as empresas do sector. Nunca as parcerias público-privadas tiveram tanta razão de ser. Uma promoção externa muito agressiva, pacotes especiais (promoção em termos de preços mínimos, contributo empresarial) e a possibilidade de “vouchers” para os locais, entre outras estratégias, seriam uma panóplia de instrumentos que urgem aplicar, em paralelo com as medidas sanitárias, de forma a reforçar a confiança dos diferentes públicos-alvo. De salientar que já há cidades a colocar os enfeites de natal nas ruas (exemplo Vigo, na Galiza, em Espanha). Importa mudar a frequência e quebrar a resistência atual dos consumidores, apresentando soluções inovadoras, beneficiando da atratividade e segurança da Região, um ponto de partida que nos parece muito sólido.

A longo prazo, estaremos todos mortos diria o economista John Maynard Keynes, o que reforça a necessidade urgente de resolver os problemas iminentes e estudar modelos de desenvolvimento para o médio prazo. Para isso, há que re3- repensar, reestruturar e reposicionar, tendo por base uma revolução tecnológica dominada pelo digital, que, em paralelo, com a sustentabilidade e a economia circular constituirão a pedra angular das grandes tendências da economia mundial e o Turismo precisa de se adaptar a estes ventos da mudança. Os apoios às companhias de aviação passam pela redução dos números de voos e pela participação ativa da aviação no esforço de contenção do CO2. Incontornável. O modelo de negócio do turismo não vai voltar ao que era. Precisa-se, urgente, de uma estratégia e conhecimento. É tempo para soluções inovadoras, onde risco, rendimento e impacto estejam presentes na avaliação de qualquer intervenção. Agustina Bessa Luís dizia com propriedade na biografia de Vieira da Silva que “Longos Dias tem Cem Anos”. Há que olhar em frente e aprofundar a discussão de um novo modelo, para apresentar a Madeira como lugar de Ecossistemas intactos; Património mundial; História e tradições; Identidade própria; Gastronomia e vinho único; Bom clima; Eventos e cultura; Hospitalidade. Por tudo isto, a Madeira será sempre o seu Destino Natural.

[1] “A operadora de turismo Tui considera alienações após acumular prejuízos no valor de € 2,3 bilhões”, Financial Times, Alice Hancock, em Londres, 13-ago-2020. https://www.ft.com/content/f1898c97-2479-4ced-bfa1-dc417945f919.

[2] https://estatistica.madeira.gov.pt/download-now/economica/conjuntura/indicador-regional-de-atividade-economica/serie-retrospetiva-irae/send/538-serie-retrospetiva-irae/12557-indicador-regional-de-atividade-economica-2006-2020-2.html

[3] coeficiente de correlação linear da regressão linear simples entre logaritmo neperiano do produto interno bruto per capita da Madeira e o logaritmo neperiano das receitas totais de Turismo, no período entre 2009-18.

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