Mais de um terço do Executivo de Costa esteve nos governos de Sócrates

Dez dos atuais integrantes do Conselho de Ministros passaram pelos dois governos de Sócrates, tal como 15 secretários de Estado. Alguns foram chefes de gabinete, adjuntos e assessores nos seis anos em que o homem no centro da “Operação Marquês” governou Portugal.

José Sócrates e António Costa na Assembleia da República

Nota da direção: este artigo foi corrigido a 9 de abril, para esclarecer que André Aragão de Azevedo, agora secretário de Estado da Transição Digital, foi entre 2008 e 2011 chefe de gabinete do secretário de Estado da Saúde, Manuel Pizarro. Pelo lapso, o JE pede desculpa aos visados e aos leitores.

O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. é o único do XXII Governo Constitucional  que exerceu funções ministeriais nos dois governos de José Sócrates, primeiro na pasta dos Assuntos Parlamentares e depois na da Defesa Nacional, mas a verdade é que 25 dos 70 membros do elenco governamental liderado por António Costa, incluindo dez integrantes do Conselho de Ministros, exerceram cargos ou integraram gabinetes nos tempos em que o primeiro-ministro de Portugal era o homem que irá saber nesta sexta-feira se será levado a julgamento no âmbito da Operação Marquês.

O caso mais notório é o do próprio primeiro-ministro António Costa, que sem ser particularmente próximo de José Sócrates já tinha capital político suficiente para ser elevado a ministro de Estado e da Administração Interna em março de 2005, após a vitória do PS nas eleições legislativas (com a primeira e até hoje única maioria absoluta do partido) antecipadas pela dissolução da Assembleia da República decidida pelo Presidente da República Jorge Sampaio.

António Costa saiu dois anos mais tarde, para lançar a sua candidatura vitoriosa à Câmara de Lisboa, mas ao longo dos pouco mais de seis anos em que Sócrates foi primeiro-ministro os seus governos tiveram como secretários de Estado mais três dos atuais ministros. O titular da pasta da Administração Interna, Eduardo Cabrita, foi secretário de Estado Adjunto e da Administração Local no governo de maioria absoluta (2005-2009), enquanto o ministro da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho, foi secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação nos dois executivos de Sócrates, e o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, tutelou durante igual período as mesmas áreas enquanto secretário de Estado do já falecido ministro Mariano Gago.

Outros ministros de António Costa que estiveram nos executivos de José Sócrates incluem a detentora da pasta da Cultura, Graça Fonseca, então chefe de gabinete do atual primeiro-ministro no Ministério da Administração Interna; a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, que foi chefe de gabinete do secretário de Estado do Turismo, Bernardo Trindade, entre 2005 e 2009; e a ministra da Modernização do Estado, Alexandra Leitão, que foi consultora do Centro Jurídico da Presidência do Conselho de Ministros até 2009 e tornou-se diretora-adjunta desse organismo entre 2009 e 2011.

Bastante diferentes foram as experiências de outros dois ministros de Estado de António Costa nos executivos de José Sócrates. Para o ministro das Finanças, João Leão, tratou-se de uma passagem fugaz, entre 2009 e 2010, na qualidade de assessor do secretário de Estado Adjunto e da Indústria, Fernando Medina, enquanto a ministra da Presidência (e ex-secretária de Estado Adjunta do primeiro-ministro), Mariana Vieira da Silva, não só foi assessora de Maria de Lurdes Rodrigues, ministra da Educação no governo de maioria absoluta, ao longo de uma legislatura, como em 2009 transitou para adjunta do secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, Almeida Ribeiro.

Pela Presidência do Conselho de Ministros passaram nos seis anos em que Sócrates esteve no poder vários atuais secretários de Estado. Alguns ficaram pouco tempo, como o cada vez mais influente secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Duarte Cordeiro, que foi adjunto do secretário de Estado da Juventude e Desporto, Laurentino Dias, entre 2005 e 2006, mas o agora secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, Tiago Antunes, passou os seis anos de poder socrático na Gomes Teixeira, trabalhando nos gabinetes dos seus dois antecessores: primeiro como adjunto de Filipe Baptista, de 2005 e 2009, e depois enquanto chefe de gabinete de Almeida Ribeiro, de 2009 a 2011. Um homem de confiança de Sócrates que teve entre os seus adjuntos Hugo Santos Mendes (antes disso assessor de Maria de Lurdes Rodrigues no Ministério da Educação), que é agora secretário de Estado Adjunto e das Comunicações no Ministério das Infraestruturas.

Também chefe de gabinete, mas do primeiro secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, Filipe Baptista, foi o agora secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, Francisco André, enquanto a atual secretária de Estado da Educação, Inês Ramires, foi adjunta de Jorge Lacão quando este era secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, no XVII Governo Constitucional, tornando-se depois, nesse e no executivo seguinte, adjunta do secretário de Estado da Administração Pública, Gonçalo Castilho dos Santos. No gabinete desse governante trabalhou ainda a secretária de Estado da Justiça, Anabela Pedroso, adjunta entre 2009 e 2010.

Entre a equipa liderada por João Leão no Ministério das Finanças há pontos de contacto com os executivos de José Sócrates, pois o secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Fiscais, Mendonça Mendes, foi chefe de gabinete de Ana Paula Vitorino quando a ex-ministra do Mar de António Costa era secretária de Estado dos Transportes e ainda da ministra da Saúde Ana Jorge, tal como a secretária de Estado do Orçamento, Cláudia Joaquim, foi assessora e chefe de gabinete de Pedro Marques quando o ex-ministro do Planeamento e atual eurodeputado era secretário de Estado da Segurança Social.

No Ministério da Economia, apesar de Pedro Siza Vieira estar dedicado à advocacia durante o socratismo, o secretário de Estado Adjunto e da Economia, João Neves, foi entre 2005 e 2007 chefe de gabinete do titular da mesma pasta Manuel Pinho, e André Aragão de Azevedo, agora secretário de Estado da Transição Digital, foi entre 2008 e 2011 chefe de gabinete do secretário de Estado da Saúde, Manuel Pizarro.

Com Vieira da Silva, antes de o pai da atual ministra da Presidência passar para a pasta da Economia, estiveram dois dos secretários de Estado de Ana Mendes Godinho. O então ministro do Trabalho e Solidariedade tinha como chefe de gabinete Gabriel Bastos, que é agora secretário de Estado da Segurança Social, e um dos adjuntos era Miguel Cabrita, atual secretário de Estado Adjunto, do Trabalho e da Formação Profissional.

Essencialmente técnicas foram as funções da secretária de Estado das Pescas, Teresa Coelho, que foi adjunta de Eduardo Cabrita enquanto secretário de Estado da Administração Interna e Proteção Civil e de Ascenso Simões como secretário de Estado do Desenvolvimento Regional e das Florestas. O secretário de Estado da Conservação da Natureza, Florestas e Ordenamento do Território, João Catarino, foi adjunto do secretário de Estado do Desenvolvimento Rural, Rui Baleiras, e a secretária de Estado Adjunta e do Património Cultural, Ângela Ferreira, foi adjunta de Rui Sá Gomes, secretário de Estado da Administração Interna no primeiro governo de José Sócrates.

Sem integrar a lista de 25 atuais governantes que passaram pelos executivos liderados por José Sócrates encontra-se um dos socialistas que foram mais próximos do homem que está no centro da “Operação Marquês”. O secretário de Estado Adjunto e da Energia, João Galamba, enveredou pela Assembleia da República, sendo eleito deputado pela primeira vez em 2009. E a sua relação com Sócrates, a quem chegou a reencaminhar SMS a dar conta de “sururus” que viriam a caminho, esfriou depois de Galamba ter declarado publicamente que se sentia envergonhado por ver um ex-primeiro-ministro e ex-secretário-geral do PS acusado de corrupção e branqueamento de capitais.

Presentes em Estrasburgo, São Bento e não só

Entre os antigos ministros e secretários de Estado de José Sócrates há quatro eleitos pelo PS no Parlamento Europeu. A começar por Pedro Silva Pereira, ministro da Presidência nos dois executivos liderados pelo ex-primeiro-ministro, mas incluindo também a antiga secretária de Estado da Modernização Administrativa, Maria Manuel Leitão Marques, e o antigo secretário de Estado da Segurança Social, Pedro Marques – aos quais António Costa atribuiu as pastas ministeriais da Presidência e do Planeamento no seu primeiro governo -, tal como Manuel Pizarro, que foi secretário de Estado da Saúde, tendo como colega, enquanto secretário de Estado Adjunto da ministra Ana Jorge, o antigo coordenador da task force da vacinação contra a Covid-19, Francisco Ramos.

No grupo parlamentar do PS na Assembleia da República encontram-se outros ex-governantes socialistas, como o veterano José Magalhães (secretário de Estado Adjunto e da Administração Interna), Elza Pais (secretária de Estado da Igualdade), Marcos Perestrello (secretário de Estado da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar), Jorge Lacão (secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros) e Ascenso Simões (secretário de Estado do Desenvolvimento Rural e Pescas). E, mais perto do Tejo, à frente da Câmara de Lisboa, o antigo secretário de Estado do Emprego e Formação Profissional, Fernando Medina.

Nota da direção: este artigo foi corrigido a 9 de abril, para esclarecer que André Aragão de Azevedo, agora secretário de Estado da Transição Digital, foi entre 2008 e 2011 chefe de gabinete do secretário de Estado da Saúde, Manuel Pizarro. Pelo lapso, o JE pede desculpa aos visados e aos leitores.

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