Marta Temido diz que é preciso profissionais “mais resilientes” no SNS. Reações não demoraram

Profissionais de saúde, desconhecidos, sindicatos e partidos levaram as suas reações às palavras proferidas por Marta Temido para o Twitter. A ministra da Saúde é um dos temas mais falados nesta quinta-feira na rede social.

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

A ministra da Saúde foi ontem ouvida no Parlamento e as suas declarações geraram alguma controvérsia entre os profissionais de sectores e, esta quinta-feira, Marta Temido está nos assuntos mais falados do Twitter.

A governante apontou que a “resiliência” deve ser um fator que se deve ter em conta aquando da contratação de profissionais de saúde, nomeadamente enquanto Portugal ainda enfrenta a pandemia de Covid-19. Marta Temido assegurou que a resiliência é um aspeto tão importante como “a competência técnica”.

As declarações de Marta Temido chegaram num momento em que a “CNN Portugal” fez saber que mais de 400 médicos deixaram o Serviço Nacional de Saúde desde que terminou o estado de emergência, uma média de dois médicos por dia. Entre as queixas da pandemia, os profissionais apontam as faltas de condições, falta de profissionais, excesso de horas extras e o fraco investimento em hospitais como as principais causas de saída.

Nas redes sociais, as reações não se fizeram esperar mas os sindicatos fizeram questão de comentar as palavras da ministra. Para o Sindicato Independente dos Médicos (SIM) as declarações de Marta Temido são uma “imperdoável ofensa” que os médicos “não mais perdoarão e esquecerão”.

Também o Bastonário da Ordem dos Médicos reagiu às palavras de Temido, considerando-as como uma “ofensa”. “Tentar justificar com isto a saída dos médicos da SNS é uma situação grave”, disse Miguel Guimarães à “CNN Portugal” na quarta-feira à noite.

“[Marta Temido] quer implementar em Portugal uma escravatura médica, à semelhança do que acontece em alguns países que não são democracias?”, questionou o bastonário, adiantando que “é importante que os portugueses saibam que os médicos estão a sair do SNS porque não estão a ser bem tratados”.

“Quem se surpreende com as declarações de Marta Temido certamente não tem estado atento. Está longe de ser a primeira vez que este Governo usa esta estratégia difamatória contra a classe médica, à semelhança do que já foi feito com outras profissionais (por exemplo professores)”, escreve a utilizadora Maria João Brito, que se identifica como médica.

“Em termos do que é a opinião pública, funciona muito bem. Todos os dias como médica dou a cara pelas insuficiências do SNS. Se me chamarem ‘cobarde’ e ‘pouco resiliente’ até pode ser que o cidadão acredite e me responsabilize a mim e não ao partido que depauperou o SNS”, acrescenta Maria João Brito.

Jorge Félix Cardoso, assessor parlamentar no Parlamento Europeu, escreve: “Marta Temido, ou não percebeu o estado do SNS e as condições de trabalho dos profissionais, ou acha que consegue ganhar a batalha da opinião pública contra os profissionais. Qualquer das opções é um enorme problema. Um SNS público e universal precisa de muito melhor liderança”. A opinião de Félix Cardoso conta neste momento com 307 likes e 36 retweets.

“A Marta Temido acho que tirar 19 e  20 no secundário, fazer um curso de seis anos, fazer o exame de saída, internato médico até seis anos, exame de internato e urgências atrás de urgências não é, só por si, demonstração de elevada resiliência”, acrescenta o tweet de André.

Numa outra publicação, o mesmo utilizador acrescenta que “os países ricos europeus estão a investir em médicos portugueses sem resiliência”.

Também a Iniciativa Liberal reagiu às declarações de Marta Temido. “A Iniciativa Liberal avalia como extremamente graves as declarações da ministra Marta Temido que parecem ter como objetivo culpar os profissionais do SNS por insuficiências de que é, com o primeiro-ministro, a principal responsável política”.

Rui Gomes, utilizador do Twitter que se assume como médico, também não conseguiu ignorar as palavras da governante. “Sou médico. Trabalho  mais de 60h/semana (apesar do meu contrato ser de 40). Faço urgências de 12-24h ininterruptas. Tenho dezenas de folgas por gozar que nunca solicitei. Gostava que a Sra. Marta Temido me disse na cara que os médicos do SNS não são resilientes”.

“A Marta Temido diz que temos de começar a contratar médicos e enfermeiros mais resilientes. Não Marta. Temos de perceber que há profissionais há dois anos sem férias praticamente e que são mal pagos. É por pessoas como a Marta que temos profissionais em burnout“, diz a utilizadora @acatabreu.

“A Marta Temido a dizer que falta resiliência aos profissionais de saúde é a coisa mais vergonhosa que algum ministro da saúde podia dizer, especialmente neste momento. Eu acho que a Sra Ministra devia meter os pés num hospital e ver realmente como as coisas são. Que vergonha”, acrescenta Diana Sousa no Twitter.

“Se o SNS aguentou durante estes dois anos, foi à custa dos seus profissionais que deram – e continuam a dar – bem mais do que aquilo que recebem. Incrível a falta de vergonha da Marta Temido em dizer que são necessários profissionais mais resilientes”, escreve o utilizador Ruben na sua opinião às palavras da ministra.

A socialista Inês João Rodrigues também decidiu dar a sua opinião após os meios de comunicação difundirem as palavras de Marta Temido. “Convém sermos rigorosos e não cairmos na tentação dos soundbites. A ministra da Saúde não disse o que vocês querem fazer parecer que disse. A honestidade é intemporal e toca a todos. Confio e confiarei na ministra da Saúde, Marta Temido”, escreveu a jovem da Juventude Socialista. A opinião de Inês João Rodrigues vem também acompanhada de uma fotografia de um texto que terá sido dito pela governante durante a sua intervenção na audição parlamentar.

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