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Mau tempo: Ovar teme “desastre ambiental” com aterro junto à Praia da Maceda

A situação do aterro sanitário, selado nos anos 1990, preocupa Domingos Silva, que explica, em entrevista à Lusa, que esta é a situação mais preocupante no concelho, o mais fustigado com a sucessão de tempestades que atingiram Portugal continental neste inverno.
Glenn Carstens-Peters on Unsplash
19 Março 2026, 12h04

O presidente da Câmara de Ovar alertou hoje para o risco ambiental na Praia da Maceda, com o mar a 550 metros de um aterro selado, exigindo medidas para evitar “um passivo ambiental” para gerações futuras.

A situação do aterro sanitário, selado nos anos 1990, preocupa Domingos Silva, que explica, em entrevista à Lusa, que esta é a situação mais preocupante no concelho, o mais fustigado com a sucessão de tempestades que atingiram Portugal continental neste inverno.

“Não tem havido nenhuma ação concreta relativamente à proteção do aterro. Eu estou a exigir, no bom sentido, essa proteção, neste momento. A alertar para a situação em que, de facto, podemos estar. Não é amanhã que o mar vai lá entrar, mas pode ser daqui por 50 ou 60 anos. E temos a obrigação, hoje, de evitar que isso venha a acontecer no futuro, porque, se não, é uma herança e um passivo ambiental muito, muito forte que deixamos às gerações futuras”, explica o autarca social-democrata.

Foi nesta Praia da Maceda que se registou um recuo na ordem dos 20 metros, o maior do continente face às intempéries dos últimos meses, o que o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), José Pimenta Machado, apelidou de “drama”.

“O aterro está a 550 metros do mar. É, de facto, um risco potencial que temos ali, de uma catástrofe ambiental que pode ocorrer caso o mar lá chegue. Obviamente, o ministério do Ambiente está desperto para isso, a APA também. (…) Isto é uma questão nacional, não só de Ovar. Termos de fazer tudo para que o mar não chegue”, avisa.

Esta praia está inserida numa lista de medidas a levar a cabo até ao início da época balnear, elencadas num relatório da APA divulgado já este mês, mas também a situação do Furadouro inspira cuidados.

As intervenções mais urgentes custarão valores a rondar os 350 mil euros, entre passadiços, a reposição de areias em cinco praias, acessos ao parque de estacionamento na Maceda, apoios de praia, reconstrução de acessos, e outros equipamentos, entre eles o muro de proteção no Furadouro.

Além disso, uma obra que estava a decorrer e devia estar pronta em maio foi afetada pela passagem das tempestades, danificando o que já tinha sido feito, “e portanto vai ter de ser refeito”, lamenta o autarca.

“Temos um acordo de princípio [na Maceda] para uma pequena obra de acesso à praia. (…) Depois, temos outras infraestruturas que foram danificadas, essas [a trabalhar] mais a longo prazo”, defende o edil.

Segundo Domingos Silva, serão necessários mais de 600 mil euros “em cima da obra que está” no Furadouro, entre outras zonas, o que eleva a 1,3 milhões de euros o valor completo das várias intervenções a levar a cabo, na zona litoral do concelho, até 2027.

Este trabalho visa não só garantir a época balnear como proteger e mitigar impactos naquela zona costeira, segundo a APA a mais fustigada nos últimos meses, pedindo o autarca que se ponha “urgentemente a ciência a trabalhar para o objetivo de uma integração integrada na costa”.

“Ainda que ela possa ser faseada em cada uma das zonas, Ovar terá de ser das primeiras, porque é, neste momento, aquela que está em piores condições”, defende.

Essa necessidade de intervenção vai da Maceda, onde o risco de um ‘desastre’ ambiental com o aterro é premente, num equipamento que é monitorizado por várias entidades, da ERSUC à própria câmara, passando pela CCDR-C, mas de forma “visual”, sem “ações concretas”.

No Furadouro, o problema é que este local se está a transformar lentamente “num cabo”, com a zona urbana “minimamente protegida”, mas a ameaça da ria, e de esta se juntar ao mar “daqui por uns anos”, pode fazer desaparecer “todo este território”.

Retirar dezenas de pessoas e realojá-las, como aconteceu em Esmoriz em 2015, ainda é exequível, se as medidas de proteção falharem, mas no Furadouro, afirma, moram 3.500 pessoas. “Como é que se desloca, e para onde, estas 3.500 pessoas?”, questiona.

Assim, o melhor mesmo é trabalhar para proteger a costa portuguesa, a começar por um “estudo integrado” mas, depois, trazer ações. “Costuma-se dizer que somos bons a fazer estudos, mas depois, a aplicar, já não tanto. Temos de passar a essa fase”, atira.

Domingos Silva alertou ainda para a necessidade de se pensar na matéria a nível nacional, das intervenções que, sendo feitas a Norte, “têm reflexos a Sul”, como as obras no Porto de Leixões, exemplifica, mas também o papel das barragens em retirar areia que chegaria ao mar por via fluvial em condições naturais.


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