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Mercado de trabalho sob pressão: 87% das empresas querem contratar, metade dos candidatos diz “não”

Escassez de talento, recusa de ofertas e falta de transparência salarial estão a transformar o recrutamento num risco estratégico para as empresas, revela o Guia Hays 2026.
@Pixabay
29 Janeiro 2026, 13h00

O mercado de trabalho qualificado em Portugal arranca 2026 com um dos desafios mais exigentes das últimas décadas. Segundo o Guia Hays 2026, 87% das empresas afirmam ter intenção de recrutar ao longo do próximo ano, mas apenas 67% dos profissionais admitem estar disponíveis para mudar de emprego. Um desfasamento de 20 pontos percentuais — o mais elevado desde 2011 — que está a redefinir as regras do recrutamento e a colocar pressão na capacidade de crescimento das organizações.

“Quando 87% das empresas querem recrutar e apenas dois terços dos profissionais estão disponíveis para mudar, contratar deixa de ser uma intenção e passa a ser um risco estratégico”, afirma Paula Baptista, Diretora-Geral da Hays Portugal. Segundo a responsável, este desequilíbrio estrutural está hoje no centro dos principais desafios de competitividade das empresas.

Contratar é cada vez mais difícil — e mais crítico

A intenção recorde de recrutamento reflete a confiança das empresas na evolução da atividade económica e na expansão dos negócios. No entanto, a escassez de talento disponível dificulta a concretização dessas ambições, sobretudo em setores como Indústria, Construção, Energia e em funções técnicas ligadas à engenharia, manutenção, automação e perfis híbridos com competências digitais.

As áreas com maior prioridade de recrutamento em 2026 são os perfis Comerciais (32%), Tecnologias de Informação (23%) e Engenharia (20%), seguidos de funções de Suporte Administrativo (15%). A dificuldade em preencher estas posições tem impacto direto na execução de projetos, no cumprimento de prazos e na sustentabilidade do crescimento.

Mais de metade dos profissionais em Portugal já recusou ofertas de emprego

O poder de decisão está, cada vez mais, do lado dos profissionais. Em 2025, 52% dos candidatos recusaram pelo menos uma oferta de emprego, o valor mais elevado desde que a Hays acompanha este indicador. O principal motivo continua a ser o salário, apontado por 62% dos profissionais, seguido de fatores como falta de interesse no projeto ou função (35%), localização (31%), condições contratuais (29%) e ausência de teletrabalho (22%).

Apesar de 56% das empresas preverem aumentos salariais em 2026, 43% dos profissionais não antecipa qualquer melhoria na remuneração, o que evidencia um desalinhamento entre expectativas e perceção de valor.

Transparência salarial deixa de ser opcional

A transparência salarial surge como um dos fatores mais críticos na atração de talento. Segundo o estudo, 85% dos profissionais sentem-se mais motivados a candidatar-se quando o salário é indicado no anúncio, mas apenas 26% afirma que o seu empregador divulga bandas salariais e só 25% refere existirem critérios claros para aumentos.

Este cenário ganha particular relevância à luz da Diretiva Europeia sobre Transparência Salarial (UE 2023/970), que obriga as empresas a maior clareza na divulgação de remunerações e critérios de progressão. Para os profissionais, a transparência deixou de ser um diferencial e passou a ser um fator essencial de confiança.

Formação é estratégica, mas continua desigual

Num mercado em que contratar é difícil, a formação assume um papel central. Embora a maioria das empresas afirme investir em desenvolvimento — através de programas internos, plataformas online, apoio financeiro ou mentoria — 31% dos profissionais dizem não receber qualquer tipo de apoio.

As empresas privilegiam competências técnicas específicas (60%) e competências digitais (53%), enquanto os profissionais reconhecem a necessidade de atualização contínua: 39% admitem precisar de reforçar competências e 27% já investem ativamente na sua formação. O apoio financeiro à formação externa e a existência de percursos claros de carreira são os fatores mais valorizados pelos candidatos.

Inteligência Artificial avança mais depressa do que a formação

A Inteligência Artificial já é utilizada por mais de 60% das empresas e profissionais em Portugal e apresenta benefícios claros em produtividade, análise de dados e criatividade. No entanto, a capacitação não acompanha o ritmo da adoção: 34% dos profissionais não recebeu qualquer formação em IA e 20% aprendeu de forma autodidata.

Apesar disso, os níveis de satisfação são elevados e confirmam o valor real da tecnologia no trabalho. Para a Hays, a IA pode ser uma alavanca decisiva para responder à escassez de talento, desde que acompanhada por formação estruturada, políticas claras e práticas responsáveis.

Um novo equilíbrio no mercado de trabalho

“O mercado de trabalho está estruturalmente diferente”, conclui Paula Baptista. “As empresas querem crescer e contratar como nunca, mas enfrentam uma escassez real de talento. Ao mesmo tempo, os profissionais estão mais seletivos e conscientes do seu valor. Em 2026, a competitividade vai depender da capacidade de alinhar salários, tecnologia e formação numa proposta de valor clara e credível.”


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