Mercados exigem ‘Super Mario’, mas Draghi enfrenta obstáculos no jogo final

A reunião do Banco Central Europeu esta quinta-feira vem no final do mandato do italiano e poderá ser uma das mais dramáticas. Os mercados pedem um pacote alargado de estímulos, mas Mario Draghi poderá desiludir, pois os ‘falcões’ não querem reabrir o programa de compra líquida de ativos.

Armando Babani/EPA/Lusa

“A questão não é se o BCE vai anunciar novas medidas, mas quanto é que irá entregar”, referiram os analistas do Danske Bank. A frase, numa nota com o título ‘Chega de conversa, chegou a hora de agir’,  resume de forma perfeita a incerteza que rodeia a reunião do banco central da zona euro desta quinta-feira.

Há meras semanas, a questão não parecia tão complexa. Mario Draghi, presidente do BCE, fez o percurso todo para sinalizar a inversão da política monetária, com a guerra comercial e o abrandamento da economia a obrigarem ao abandono da normalização.

Primeiro adoptou uma posição ‘paciente’, em junho admitiu que está pronto a lançar novos estímulos, e na reunião de política monetária de julho explicou que o BCE pode cortar taxas de juro e pediu aos comités para analisarem o relançar das compras líquidas de ativos, entre outros estímulos. As minutas da reunião aumentaram a expectativa sobre o timing dos estímulos: seria em ‘pacote’ e não a conta-gotas.

Os mercados gostaram e compraram dívida soberana da zona euro, com a taxa portuguesa a 10 anos a atingir um novo mínimo histórico de 0,09% no final de agosto.  Esse entusiasmo esfriou, no entanto, e até passou para um selloff de obrigações da zona euro, especialmente as da periferia, com a yield da dívida portuguesa a 10 anos, por exemplo, a subir para 0,281% esta terça-feira.

O que provocou esta desconfiança repentina?

“A economia certamente não melhorou,” afirmou Carsten Brezski, economista-chefe do ING Germany. “Mesmo que a zona euro não esteja perto de uma recessão severa, um período de estagnação irá fazer pouco para levar a inflação regressar para onde o BCE a quer”.

“Com revisões em baixa das estimativas para o crescimento e para inflação, e especialmente uma distância maior entre as projeções da inflação e a meta do BCE, o racional para novas ações do banco central é forte”, sublinhou. “Na ausência de sinais de aceleração da inflação em breve, fazer nada não é uma opção”.

Hann-Ju Ho, economista sénior do britânico Lloyds Bank, também acredita que o BCE irá baixar as projeções para a expansão económica (que em junho estavam em 1,2% para este ano e 1,4% em 2020 e 2021), mas explica que o foco está na visão do banco central para a inflação. Nas projeções de junho, o BCE via os preços a subirem 1,3% este ano, 1,4% em 2020 e 1,6% em 2021.  “O número-chave é o da inflação para 2021. Se for revisto em baixa, daria força para o BCE lançar um pacote mais forte de medidas de estímulo”, explicou.

“Há necessidade de mais estímulos, mas não parece haver unanimidade para um pacote grande de estímulos”, frisou Ho. Este é precisamente o fator que fez os investidores e analistas baixarem as expectativas sobre o que Draghi irá anunciar na quinta-feira – vários membros e ex-membros do Conselho de Governadores mostraram-se céticos sobre a necessidade de reiniciar o programa de compra líquida de ativos.

Segundo Ho, isso era expectável de ‘falcões’ como o alemão Jens Weidmann e o neerlandês  Klaas Knot, mas não de ‘pombas’ o francês François Villeroy de Galhau ou mesmo Vitor Constâncio, ex-vice de Draghi.

Corte na taxa de depósito “insuficiente”

O ‘mínimo’ que os analistas e os investidores esperam é um corte na taxa de depósito, que está atualmente nos -0,40%, com as estimativas entre uma descida de 10 ou 20 pontos base.

“Apesar da oposição dos ‘falcões’, é de duvidar que só um corte na taxa seja suficiente”, sublinhou Carsten Brezski do ING Germany. “Mesmo que o grupo que é cético em relação ao Quantitative Easing tenha crescido, ainda é uma minoria, enquanto uma vasta maioria está a favor de novos estímulos”.

Uma sondagem conduzida pela agência Bloomberg na semana passada revelou que a maioria dos analistas prevê que o BCE decida reiniciar o programa de compra líquida de ativos já em outubro, durante um ano e a um ritmo de 30 mil milhões de euros por mês.

Alguns analistas esperam que Draghi anuncie um QE ainda mais forte. O Danske Bank aponta para compras de 45 mil milhões de euros a 60 mil milhões por mês, porque a credibilidade do banco central está em jogo, pois sinalizou isso aos mercados e, em qualquer caso, será inevitável ter de lançar os estímulos mais tarde. Na mesma linha, o banco de investimento holandês ABN-Amro prevê um QE de 70 mil milhões por mês, simplesmente porque sem isso a inflação não irá chegar à meta do BCE, que é de perto mas abaixo de 2%.

Hann-Ju Ho, do Lloyds, alertou no entanto que Draghi poderá querer ter em conta os ‘falcões’ e anunciar um conjunto de medidas menos fortes ou até adiar os detalhes do QE para mais tarde.

“Uma escola de pensamento é que o novo programa pode ser adiado até Christine Lagarde tomar posse em novembro, o que arriscaria um atraso na implementação de um novo QE até ao final do ano ou mesmo 2020”, concluiu.

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