Especial Vinhos 2018: Mercados externos valem 80% da faturação

Metade das empresas proporciona alojamento e restauração. O comércio a retalho (46%) e as atividades artísticas e culturais (18%) são outras valências geradas pelos agentes de enoturismo.

É uma das principais atrações turísticas de Portugal, sendo uma experiência que vai muito para lá de uma simples prova de vinhos. De acordo com um estudo do Banco de Portugal (BdP) de 2017, sobre a caracterização do setor do vinho no nosso país, 13% das empresas que operam em Portugal neste ramo de atividade encontram-se ligadas ao enoturismo, representando um volume total de negócios de 26% e uma taxa idêntica de empregabilidade.

Enquanto atividade, o enoturismo nacional proporciona em 50% dos casos alojamento e restauração. Uma percentagem quase idêntica (46%) das empresas do setor do vinho têm valências no enoturismo ao nível do comércio a retalho (lojas de vinho), enquanto 18% aproveitam este setor para atividades artísticas e culturais ou outros serviços (provas de vinhos, workshops, visitas guiadas a herdades/quintas ou a participarem na época das vindimas).

O enoturismo ultrapassa também o vinho enquanto agente exportador. Enquanto nas empresas do setor, em termos gerais, apenas 18% das empresas exportam, conseguindo com essa vertente externa 61% do respetivo volume de negócios, no segmento do enoturismo, a percentagem de empresas que exportam sobe para 27% e o peso dessa componente na faturação final dispara para 80%.

Esta é uma atividade que tem estado a crescer nos últimos anos, sendo um produto cujo volume de negócios é em quatro vezes superior à média nacional, com  o volume de negócios a crescer 18%, em média, no período entre 2011 e 2015. De resto, o ano de 2015 acabou por registar uma subida de 64% no volume de negócios das empresas envolvidas nesta atividade.

Os grupos com mais de 20 anos de experiência no ramo acabaram por ser aqueles a gerar um volume de negócios mais elevado (85%).

No que toca à rendibilidade dos capitais próprios, o enoturismo tem vindo a subir desde o ano de 2012, altura em que se situava nos 2%, tendo atingido os 6% no ano de 2015. Um valor acima dos 5% da atividade vinícola. O capital próprio corresponde a 49%  do ativo como a principal fonte de rendimento deste setor.

Se olharmos para estes números sob o ponto de vista dos distritos portugueses, os dados do Banco de Portugal demonstram que a maior ‘fatia’ na distribuição do volume de negócios pertence ao distrito do Porto, com 50%, seguido por Évora (15%) e Beja (12%). A tendência muda completamente em termos de distrito, mas também de valores, quando olhamos para a importância do volume de negócios deste  setor.

Nesta vertente, Évora lidera com 3%, seguida de Vila Real (1%) e do Porto, com 0,4%. Valores que acabam por não ser surpreendentes, já que as regiões do Douro e Alentejo são aquelas onde se concentram o maior número de espaços dedicados ao enoturismo. No entanto, esta é uma atividade que se vai espalhando um pouco por todo o país incluindo o Algarve, onde existem unidades de produção vinícola que recebem visitantes, quer para conhecer as vinhas, a adega ou mesmo provar os vinhos.

Um dos exemplos da predominância nortenha é o ‘17•56 Museu & Enoteca da Real Companhia Velha’, que foi inaugurado a 30 de agosto deste ano. Localizado à beira do rio Douro, no Cais de Gaia, este é um espaço com três mil metros quadrados, divididos em dois pisos, onde o vinho, a gastronomia e a história se complementam e onde o nome faz referência ao ano da criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, também denominada por Real Companhia Velha.

Um projeto com que o presidente da Real Companhia Velha, Pedro Reis, “sonhava há anos, senão décadas”, refere no comunicado emitido pelo grupo. “Naturalmente, vamos manter as nossas instalações e Caves de Vinho do Porto na Rua Azevedo de Magalhães, também em Vila Nova de Gaia, com um circuito de visitas e provas cada vez mais dinâmico, mas ter um centro de visitas à beira rio vai levar-nos para outro patamar de (re)conhecimento, nomeadamente junto dos visitantes estrangeiros, que são cada vez mais numerosos”, afirma Pedro Reis. Após um investimento de 2,6 milhões de euros, o presidente da Real Companhia Velha salienta que com este espaço “temos a ambição de ser uma referência no circuito internacional dos apreciadores de vinho”.

Também em Gaia, igualmente com vertente museológica, está a arrancar um ambicioso projeto de enoturismo a cargo da The Fladgate Partnership, que comercializa as marcas de vinhos do Porto  Taylor’s, Croft, Fonseca e Krohn, entre outras.  Está previsto um investimento de 100 milhões de euros nas antigas caves do grupo, com uma espaço de cerca de 30 mil metros quadrados, que vai englobar cinco museus, 12 restaurantes, uma loja de artesanato, uma escola de vinhos e uma área para exposições temporárias, estando previstas a sua inauguração para 2020.

A realidade do enoturismo do Douro, está a ser seguida, em maior ou menor grau, um pouco por todo o país, com destaque para as regiões do Alentejo e Lisboa. Nestes casos, a prova de vinhos é a principal atividade desenvolvida. Segundo o estudo da caracterização das unidades de enoturismo do Turismo de Portugal (TP), 97% das práticas dizem respeito a provas de vinho, às quais se juntam as visitas guiadas às instalações (93%) e às vinhas (79%). Outra nota de destaque é o facto destas unidades de enoturismo referirem que o custo das visitas (às vinhas ou às instalações) é, total ou parcialmente, dedutível na compra de vinho da propriedade.

Ao nível do alojamento, o mesmo estudo indica que somente 31% das propriedades de enoturismo possuem alojamento, sendo que dessas unidades, 76% têm até 10 quartos.

No que diz respeito a parcerias desenvolvidas, cerca de 57% das unidades de enoturismo dizem   estabelecê-las com outras empresas e entidades. Destaque para as parcerias com empresas de animação turística (30%) e agências de viagens (29%). Menos significativo é o número de unidades que estabelece parcerias com empreendimentos turísticos (14%).

Em Portugal, o conceito de enoturismo parece estar a ficar cada vez mais enraizado, fruto de uma oferta cada vez mais qualificada, que é de forma frequente associada ao turismo rural e a hotéis de charme em localizações privilegiadas, mas também aos vinhos. De acordo com o guia técnico de enoturismo do TP, existem atualmente 59 unidades identificadas, destacando-se as várias atividades associadas ao vinho, os espaços e serviços suscetíveis de serem utilizados para a realização de diversos eventos e iniciativas turísticas, bem como o alojamento próprio.

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