As recentes negociações sobre tarifas entre a União Europeia e os Estados Unidos, encontram-se, algures, entre uma ópera-bufa e uma tragédia shakespeareana.

Desde logo, o local e o ambiente em que as supostas discussões finais se realizaram: uma estância de golfe nos arredores de Glasgow, propriedade de Donald Trump, onde a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, se deslocou solícita, ao encontro do presidente americano, de passagem num périplo por várias estâncias de sua propriedade.

Independentemente da manifestação de boa vontade e da procura das melhores condições diplomáticas para o desenvolvimento das negociações, é óbvio que se tratou de uma cedência por parte dos responsáveis europeus e de Ursula von der Leyen, em particular, aos caprichos do presidente americano, correndo, inclusive, o risco de sujeição às “metodologias de trabalho” adotadas na Casa Branca, nos últimos tempos, com dirigentes de vários países. O que, acabou por acontecer, talvez de forma mais delicada, face aos resultados assimétricos alcançados pelas duas partes: o “maior acordo, jamais feito”, no balanço final de Donald Trump; e “um bom resultado que vai trazer estabilidade e previsibilidade à nossa relação comercial”, nas palavras de Ursula von der Leyen.

Apesar da continuação das discussões técnicas, foi já acordado que as exportações da União Europeia para os Estados Unidos passam a estar sujeitas a uma taxa de 15%, quando antes andavam, à volta de uma taxa média de 1,5%. Por sua vez, e para júbilo do presidente americano, as exportações dos Estados Unidos passam a ter uma “taxa zero”, enquanto antes andavam à volta de uma taxa média de 1,2%. Mas, o mais impactante do acordo, e ainda segundo as palavras de Trump, é o compromisso assumido pela União Europeia de aumentar as importações dos Estados Unidos de energia em 750 mil milhões de dólares, até ao final do seu mandato, e um reforço do investimento europeu nos EUA de 600 mil milhões de euros por ano. E, cereja em cima do bolo, o compromisso de aquisição de material militar para a ajuda à Ucrânia e para os próprios países europeus, no contexto do reforço da NATO.

Apesar das tentativas de branqueamento dos resultados, através dos discursos sobre estabilidade e previsibilidade alcançadas, ou de justificações de natureza geopolítica, a realidade é outra bem diferente e os efeitos negativos sobre a Europa e o seu projeto de integração, dificilmente poderão ser evitados. A posição da França, expressa através do primeiro-ministro, François Bayrou, é clara e contundente a este respeito: “É um dia sombrio quando uma aliança de povos livres, reunidos para afirmar os seus valores comuns e defender os seus interesses comuns, se resigna à submissão”.

Entre duas tacadas de golfe, Donald Trump consegue reduzir a Europa à sua insignificância económica e política. E dar mais uma machadada na sua credibilidade como potência global.