Milo Djukanovic regressa ao poder no Montenegro

Pró-europeísta, o líder histórico do pequeno país ganhou ao candidato ligado aos interesses russos. Nesse quadro, é também uma vitória de Bruxelas, apesar do seu passado, que acumulou várias zonas negras.

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O líder histórico de Montenegro, Milo Djukanovic, ganhou novamente as eleições presidenciais realizadas naquele país no passado domingo – ele que é ex-primeiro-ministro, ex-presidente e atual líder do Partido Democrático dos Socialistas (PDS), no poder. Djukanovic atingiu desta vez os 54,15% dos votos. Milo Djukanovic arrisca-se a ser o único político que ganha eleições no país – independente desde junho de 2006: foi primeiro-ministro de três governos entre 1991 e 1998, presidente da república de 1998 a 2002, novamente primeiro-ministro de 2003 a 2006, de 2008 a 2010 e de 2012 a 2016 – sendo também líder do seu partido há longos anos, desde a altura em que o PDS não era mais que o braço montenegrino do Partido Comunista da Jugoslávia.

Djukanovic ficou à frente de Mladen Bojanic (que conseguiu um pouco mais de 30%), um empresário apoiado por uma aliança de partidos onde se incluem os que preferem que o país se aproxime da Rússia em vez de entrar na União Europeia. Num quadro em que a Bulgária, que lidera a presidência do Conselho da União Europeia, fez regressar a entrada dos estados dos Balcãs no grupo à primeira linha da agenda política, as eleições eram observadas como uma espécie de confronto entre as duas forças dominantes: os europeístas e os russófilos.

O resultado de Djukanovic não deixa margem para dúvidas: os montenegrinos querem mesmo entrar na União Europeia – continuando uma rota de aproximação com a Europa que teve como um dos seus pontos mais altos a entrada do país na NATO, que sucedeu em junho do ano passado. Montenegro não se livrou, nessa altura, dos comentários vindos da Rússia – país pouco apto a aceitar que os territórios que lhe são próximos ou vizinhos decidam entrar naquela organização.

Dos cinco países dos Balcãs que estão em ‘fila de espera’ para entrarem na União Europeia – Sérvia, Macedónia, Albânia e Bósnia, para além de Montenegro – o país dirigido há longos anos por Djukanovic é, juntamente com os sérvios, um dos que está mais apto a entrar na União Europeia, o que poderá acontecer em 2025.

O caderno de encargos da União – que tem algumas cláusulas próprias para cada Estado – pretende genericamente que cada um deles insista na implantação de um estado de direito democrático, no estabelecimento de relações diplomáticas entre todos (o que pode vir a ser o ponto mais difícil), o reforço da cooperação em matérias como a segurança das fronteiras e as regras de acolhimento de imigrantes, e o controlo dos principais indicadores macro.

Zona tradicionalmente de grande conflitualidade – pelo menos desde que o imperador Constantino (272-337) dividiu o Império Romano pelos seus dois filhos com fronteira nos Balcãs – os países do alargamento têm sido um dos alvos de ‘aliciamento’ por parte não só da Rússia, mas também, nos tempos mais recentes, da Turquia, interessada em ter uma palavra a dizer na sociedade e na economia dos países que, do lado europeu, lhe estão próximos (e que chegaram a fazer parte do Império Otomano, desaparecido em 1918).

Montenegro é um pequeno país de 620 mil habitantes, na maioria eslavos e ortodoxos, mas com forte presença de muçulmanos, cristãos e ciganos.

Milo Djukanovic era inicialmente um aliado próximo de Slobodan Milosevic, mas acabou por incompatibilizar-se com ele e abandonar a tradicional visão conjunta sérvia e montenegrina, para enveredar pelo favorecimento de um Montenegro independente. Esteve presente a quando da conversão da República Federal da Jugoslávia na União Estatal da Sérvia e Montenegro e liderou o movimento que acabaria por resultar no referendo à independência de maio de 2006, ganho pelos que lhe eram favoráveis.

O montenegrino é ‘suspeito’ de ser um dos políticos mais ricos do mundo, com uma fortuna cuja proveniência é questionada por várias fontes. Chegou a ser perseguido pela Justiça italiana, a partir de 2003, que o acusava de ligações à Máfia napolitana. Mais tarde, em 2015, uma organização internacional de jornalistas escreveu vários artigos que novamente o ligavam ao crime organizado e à prática de corrupção – o que levou inclusivamente à sua demissão.

 

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