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Moçambicanos em Portugal receiam mais violência porque os problemas são antigos

Sobre os protestos que têm percorrido as ruas de Moçambique, Adriano Malalane considerou natural, sobretudo “o descontentamento dos jovens”, que “são os que mais sofrem”.
Maputo, Moçambique
15 Janeiro 2025, 09h08

A comunidade moçambicana em Portugal segue apreensiva a situação em Moçambique e receia que a violência continue após a tomada de posse, hoje, de Daniel Chapo como Presidente, lembrando que os problemas são muitos e antigos.

“Estes problemas em Moçambique não surgiram de um dia para o outro. Há uma situação social e económica que se tem vindo a degradar nos últimos anos e a expectativa é que o novo Governo procure resolver estes problemas”, o que “não é fácil”, disse à agência Lusa o advogado moçambicano Adriano Malalane, a residir em Portugal desde 1983.

Malalane segue os acontecimentos “com muita apreensão”, dado que as notícias que vão chegando referem que “a integridade física dos cidadãos e o respeito pelo mínimo ético em relação aos bens e às próprias pessoas e a liberdade individual estão postas em causa”.

Sobre os protestos que têm percorrido as ruas de Moçambique, Adriano Malalane considerou natural, sobretudo “o descontentamento dos jovens”, que “são os que mais sofrem”.

Estes jovens, prosseguiu, “têm acesso à informação e termos de comparação, que são jovens da sua idade, em outras latitudes, que têm acesso à escola, ao trabalho, a uma vida em princípio muito mais cómoda do que aquela que eles têm em Moçambique”.

Para o advogado, “não é só um processo eleitoral que resolve os problemas de um país”.

“Independentemente de quem tivesse sido eleito, estes problemas iriam existir, são problemas estruturais, têm a ver com a sociedade moçambicana, com a economia moçambicana, com o povo de Moçambique, que luta por um futuro melhor e tem direito a ter esse futuro melhor”, disse.

Também o músico moçambicano Ildo Ferreira, em Portugal desde 1980, considera que foi o acumular de situações que deram origem ao que está a acontecer hoje em Moçambique.

“Quarenta e nove anos com o mesmo sistema que temos lá, e que não foi lá grande coisa, a coisa vem a partir daí. Não são coisas que aconteceram agora, são o acumular de situações”, disse à Lusa.

Para o artista, hoje a juventude “está muito mais esclarecida e não aceita determinadas situações do partido do poder”.

Sobre o que acontecerá após a tomada de posse de Daniel Chapo, Ildo Ferreira assume-se “muito cético”: “Não sei se haverá grandes mudanças com o Chapo, que vem de um sistema que já está viciado – a Frelimo”.

Recordando que o país africano tem muitos desafios pela frente – pois tem “um sistema deficitário na saúde, nos transportes, na educação” -, o músico defende “uma reviravolta”.

“A Frelimo devia-se reinventar e passar para a oposição, pelo menos durante um tempo, para dar oportunidade a outros. Há muita gente capaz em Moçambique e Venâncio é um deles”, observou.

E acrescentou: “Estou muito receoso que haja grandes mudanças nos próximos cinco anos. Se em 49 anos não conseguiram, não será em cinco anos”.

O investigador de arte africana Lívio de Morais, um dos representantes da comunidade moçambicana em Portugal, disse à Lusa que está a acompanhar a situação “com extrema preocupação” e afirmou que a mesma era previsível desde 09 de outubro, dia das eleições gerais em Moçambique.

“Quando um Governo é confundido com o partido, a situação torna-se muito complexa. O Governo de Moçambique é presidencialista, o Presidente da República escolhe os ministros, demite os ministros, preside às reuniões do conselho de ministros e é presidente do partido. Acaba por criar-se um ambiente de promiscuidade democrática, não há democracia, há sentido político”.

Lívio de Morais indicou que era da Frelimo, partido a que renunciou após “o crime de 25 balas para o advogado do Venâncio Mondlane”, porque é “contra a pena de morte”: “Aquilo não foi pena de morte, foi um crime”.

Acredita que a situação “vai piorar” e que, quando Daniel Chapo for empossado, Moçambique terá dois Presidentes da República: “Um, Venâncio Mondlane, eleito pelo povo, aclamado pelo povo moçambicano, e o Presidente da República Daniel Chapo, confirmado pelo Conselho Constitucional. É anómalo, é incrível que aconteça no mundo”.

Delmar Maia Gonçalves, escritor e presidente do círculo de escritores moçambicanos na diáspora, também está pessimista e acredita que a mudança “só pode passar pelas ruas”.

“O Governo até pode ser presidido pela Frelimo, mas vai ter de ceder, de ouvir a voz do povo em muitas questões prementes. Moçambique precisa mesmo de mudança, porque viveram-se largos anos em que havia uma elite encostada ao poder, agarrada ao poder e que não quer deixar e vão sendo descobertos recursos e parece-me a mim que os recursos acabaram por ser a maldição para Moçambique”, indicou à Lusa.

O escritor disse conhecer “muitos membros da Frelimo abertos à mudança”. Contudo, prosseguiu, “existe uma fração que parece profundamente radical, que quer manter o poder a todo o custo”.

“A única solução neste momento, como foi pedido pelos escritores, os médicos e quase todas as organizações da sociedade civil, é um Governo de unidade nacional”, afirmou, adiantando que “a Frelimo não quis saber disso para nada”.

“A solução vai ser de força, naturalmente. Vão continuar a morrer muitos moçambicanos, muitos jovens, mas não foram só os jovens que desta vez votaram na oposição. A maioria dos votantes foi no sentido da Frelimo ser retirada do poder”, disse.

A eleição de Chapo como sucessor de Filipe Nyusi tem sido contestada nas ruas e o anúncio do Conselho Constitucional aumentou o caos que o país vive desde outubro, com manifestantes pró-Mondlane em protestos que já resultarem em centenas de mortos.


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