Moody’s: Diretiva comunitária PSD2 retira espaço de manobra aos bancos tradicionais

A agência de notação antecipa que a PSD2 poderá impor novos requisitos de liquidez aos bancos tradicionais e aumentar o seu custo de financiamento, uma vez que a diretiva comunitária facilita depósitos noutras entidades que não têm necessariamente de ser um banco. No curto-prazo, os bancos terão menos interação com os clientes. No médio-prazo, os bancos terão menos receitas com as comissões geradas com transações ‘online’. E, no longo-prazo, os bancos deverão perder terreno para as big tech.

A diretiva comunitária de serviços de pagamentos 2 (da sigla em inglês, PSD2) alterou o paradigma do sistema financeiro da União Europeia principalmente com a introdução da era da banca aberta – ou open banking. Com a diretiva comunitária, os bancos passaram a ter de partilhar a informação financeira que têm dos seus clientes com outras entidades, com a autorização dos clientes.

Num relatório publicado esta quarta-feira, intitulado “PSD2 will increase incumbent’s costs and liquidity requirements”, a Moody’s defende que o ecossistema aberto da banca europeia vai aumentar a concorrência não apenas entre os bancos tradicionais, mas também entre os bancos e novos agentes de mercado, conhecidos como fintech.

Neste novo paradigma, a agência de notação antecipa que a PSD2 poderá impor novos requisitos de liquidez aos bancos tradicionais e aumentar o seu custo de financiamento, uma vez que a diretiva comunitária facilita depósitos noutras entidades que não têm necessariamente de ser um banco.

Alessandro Roccati, vice-presidente da Moody’s disse que a “PSD2 obriga todos os bancos da UE a partilharem dados sobre os clientes com outras entidades, o que pode conduzir à desagregação de produtos bancários vendidos em pacote e à erosão das relações estabelecidas com os clientes”.

“A concorrência vem do digital, como as fintech ou as Big Tech. Ao longo do tempo, a partilha de informação de clientes vai reduzir as oportunidades de cross-selling dos bancos e, ao mesmo tempo, maior agitação entre os depositantes vai aumentar os seus custos de financiamento e necessidades de liquidez”, vincou Alessandro Roccati.

A diretiva comunitária criou dois tipos de serviços que poderão ser desempenhados por agentes de mercado estreantes na indústria financeira, que se tornarão numa ameaça para os bancos tradicionais em três níveis: no curto-prazo, no médio-prazo e no longo-prazo.

Por um lado, surgem os serviços de informação sobre conta. Com a autorização do cliente, uma entidade tecnológica – que não tem de ser um banco –  pode agregar informação sobre diferentes contas de um cliente numa app. Estes serviços poderão ser efetuados pelos account information service providers ou AISPs.

Por outro lado, aparecem os serviços de iniciação de pagamentos, que permitem às pessoas pagarem por um bem ou serviço sem saírem do site onde estão e sem necessitarem de introduzir os seus dados financeiros ou efetuar uma ordem de transferência. Estes serviços poderão ser efetuados por payment services providers ou PISPs.

A ameaça de curto-prazo: menos relação com clientes

Segundo a Moody’s, os AISPs são uma ameaça para os bancos no curto-prazo porque poderão prejudicar a relação entre os bancos e os clientes. As fintech que ofereçam serviços de informação sobre conta utilizam dados dos clientes dos bancos para lhes oferecer produtos personalizados às suas necessidades.

“É provável que estes serviços se tornem cada vez mais comuns à medida que os clientes se acomodam com o facto de que as entidades não-bancárias acedam aos seus dados bancários”, argumentou a Moody’s.

O preço praticado por estes serviços até pode ser idêntico ao que é praticado pelos bancos atualmente, mas a Moody’s salienta uma diferença crucial: “através da análise do rendimento e dos padrões de consumo, estas entidades vão aconselhar o melhor produto para o cliente, em vez de aconselharem apenas a opção mais barata”.

A ameaça de médio prazo: menos comissões na internet

No médio-prazo, a Moody’s considera que a maior ameaça para os bancos tradicionais advém dos PISPs, porque a agência de notação considera que estes novos players necessitam de tempo para ganharem a confiança dos clientes. “Não antevemos nenhuma ameaça concorrencial [neste domínio] nos próximos cinco anos”, reconheceu a Moody’s.

Mas a PSD2 incentiva o surgimento de cada vez mais entidades tecnológicas que prestem serviços de pagamento e terá impacto nas receitas que os bancos gerem com as comissões. Segundo a Moody’s, a concorrência nos serviços de pagamentos entre os bancos  e os novos agentes de mercado será mais acentuada na internet, uma vez que os PISPs apostam fortemente no comércio e nas transações online.

As Big Tech: a ameaça no longo-prazo

As entidades que combinem os serviços de informação sobre conta com os serviços de iniciação de pagamentos são a ameaça de longo-prazo para os bancos tradicionais porque vão permitir aos clientes trocarem entre diversos fornecedores destes serviços. Segundo a Moody’s, estes serviços serão desempenhados pelas grandes tecnológicas mundiais, como a Amazon, a Alphabet (dona da Google) a Alibaba ou a Apple.

“A combinação destes serviços cria uma riqueza de informação sobre os padrões de consumo dos clientes e da sua qualidade do seu crédito. Isto melhora a concessão de crédito e cria uma estratégia de preço mais adequada, ao mesmo tempo que permite aos AISPs oferecerem aos seus clientes produtos bancários mais diversificados”, sustenta a Moody’s.

A gigantes tecnológicas, por terem uma base de clientes alargada e já ganharam a confiança do mercado, estão na linha da frente para assumirem o protagonismo na oferta desta mescla de serviços. Além disso, já têm serviços de iniciação de pagamentos, como o Google Play, da Google, ou a Apple Pay, da Apple.

FinTech e banca juntos na era da internet

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