Apesar de representarem a maioria do talento altamente qualificado em Portugal, as mulheres continuam longe dos lugares de decisão nas empresas. Apenas 15,7% dos cargos de CEO e executivos nas maiores empresas do país são ocupados por mulheres, revelando um desfasamento significativo entre qualificação e acesso à liderança.
As conclusões constam de uma análise recente da Randstad Research sobre “o talento feminino no mercado de trabalho”, divulgada no âmbito do Dia Internacional da Mulher.
Segundo o estudo, 59,1% dos trabalhadores com ensino superior completo em Portugal são mulheres, enquanto os homens representam 40,9%. Este valor coloca o país como o terceiro da Europa com maior percentagem de mulheres no emprego qualificado, apenas atrás da Estónia e da Letónia. Ainda assim, essa vantagem académica não se traduz em igualdade na progressão profissional.
Liderança continua dominada por homens
Apesar do peso das mulheres entre os profissionais qualificados, o acesso aos cargos de topo continua limitado. Nas maiores empresas portuguesas, menos de duas em cada dez posições de liderança executiva são ocupadas por mulheres.
Para a Randstad Research, esta discrepância evidencia que barreiras estruturais e culturais continuam a travar a progressão feminina, mesmo num contexto em que a qualificação académica já não é um fator diferenciador.
“Estes dados comprovam que ainda existe um longo caminho a percorrer. Apesar de se ter feito um percurso próspero no Índice Global de Igualdade de Género e de termos uma fatia tão grande de talento altamente qualificado, a falha na progressão para lugares de topo, aliada à disparidade salarial e ao impacto dos cuidados familiares, deixa-nos o alerta de que a paridade real no mercado de trabalho ainda não se alcançou”, sublinha Isabel Roseiro, diretora de marketing da Randstad Portugal.
Segregação de género nos stores de atividade
O estudo revela também uma divisão clara entre setores dominados por mulheres e por homens, refletindo padrões profissionais que permanecem relativamente estáveis ao longo das últimas décadas.
O talento feminino concentra-se sobretudo em áreas associadas aos cuidados e serviços. As mulheres representam 16,5% do emprego no setor da saúde e apoio social e 12,9% na educação. Já os homens continuam a predominar em setores com maior peso industrial e produtivo. Na indústria, os homens representam 21,2% dos trabalhadores, enquanto 12,6% estão na construção.
Esta segmentação do mercado de trabalho, refere o estudo, demonstra que estereótipos e barreiras persistem na orientação profissional, canalizando homens e mulheres para áreas distintas.
Fosso salarial mantém-se elevado
As diferenças de rendimento continuam a ser um dos sinais mais visíveis da desigualdade de género no mercado de trabalho português.
De acordo com a Randstad Research, o diferencial de rendimento médio mensal líquido é de 17,3%. Em termos absolutos, os homens recebem em média 1.388 euros líquidos por mês, enquanto as mulheres auferem 1.183 euros, o que corresponde a uma diferença de 205 euros mensais.
Em alguns setores, o fosso salarial é ainda mais acentuado. Na área da saúde e apoio social, o gender pay gap atinge os 29,6%, o valor mais elevado registado desde 2011.
Ainda mais expressiva é a disparidade nas atividades artísticas, de espetáculos, desportivas e recreativas, onde a diferença salarial chega aos 48,5% a favor dos homens, constituindo o maior desequilíbrio identificado no estudo.
Exceções em setores dominados por homens
Em contrapartida, existem alguns setores onde a diferença salarial favorece as mulheres, sobretudo onde estas são uma minoria.
Na construção, por exemplo, o estudo identifica um gap salarial negativo de -14,7%, o que significa que as mulheres recebem, em média, mais do que os homens. A explicação, aponta a análise, prende-se com o facto de muitas das mulheres presentes no setor ocuparem funções técnicas ou de gestão, enquanto a maioria dos homens se encontra em funções operacionais.
Trabalho a tempo parcial continua a recair sobre mulheres
Outra dimensão relevante apontada pela investigação diz respeito à organização do tempo de trabalho e à conciliação com responsabilidades familiares.
As mulheres representam 62,9% dos trabalhadores em regime de part-time. Entre os trabalhadores a tempo parcial com crianças no agregado familiar, 8,5% são mulheres, mais do dobro dos 3,2% registados entre os homens.
As razões invocadas para este regime também diferem entre géneros. Enquanto as mulheres apontam sobretudo cuidados a crianças ou adultos com deficiência, os homens referem com maior frequência motivos ligados à educação ou formação.
Paridade ainda longe de ser alcançada
Apesar dos avanços registados nos indicadores internacionais de igualdade de género, os dados da Randstad Research mostram que o talento feminino continua subaproveitado no mercado de trabalho português.
A elevada qualificação das mulheres contrasta com a sua representação reduzida na liderança empresarial, com disparidades salariais persistentes e com uma maior carga de responsabilidades familiares — fatores que continuam a marcar o percurso profissional feminino em Portugal.
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