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Nancy Pelosi: o descanso de uma guerreira 40 anos depois

Foi a única mulher presidente da Câmara dos Representantes e é indiscutivelmente uma referência do Partido Democrata – nem sempre alinhada com a direção do partido, nem sempre alinhada com as políticas da administração, sem incapaz de passar despercebida.
7 Novembro 2025, 11h04

No início de agosto de 2022, Nancy Pelosi, uma destacada membro da liderança do Partido Democrata, arribou a Taiwan para uma visita que, na altura, ninguém percebeu até que ponto seria ou deixaria de ser oficial. Na mala levava promessas de apoio à defesa por parte dos Estados Unidos a qualquer sede de aventura belicista do gigante vizinho, a China, e uma reticência pessoal: o presidente à data, o seu ‘camarada’ Joe Biden, desaconselhara vivamente a viagem. Mostrava assim, por um lado, a sua independia face à agenda federal – que não se importou de ostentar apesar de eventuais danos para a administração – e, por outro, a importância fundamental que atribuía à função do Congresso enquanto fonte de poder nos Estados Unidos.

É essa mulher desabridamente independente e que soube ascender como figura incontornável dos democratas que, depois de ter sido a primeira (e para já única) mulher a liderar a Câmara dos Representes do Congresso, acaba de anunciar que não vai voltar a candidatar-se, encerrando em janeiro de 2027 (quando os deputados eleitos em novembro de 2026 tomarem posse) uma longa carreira política.

Como evidencia a imprensa norte-americana, Pelosi tornou-se uma das mulheres mais poderosas da história norte-americana, depois de, chegada aos 85 anos, ter representado São Francisco no Congresso durante 39 anos. Os avatares internos e externos da política norte-americana resultaram, ao longo das últimas quatro décadas, numa mudança sistémica da sociedade norte-americana – mas não é sempre assim? – desde os estertores da crise do aparecimento da SIDA até à legalização do casamento homossexual, passando pela ascensão meteórica do setor de tecnologia e da extrema polarização do país.

Tendo chegado tardiamente à política, Pelosi destacou-se de imediato como uma das mais firmes defensoras do chamado Obamacare – a primeira aventura norte-americana no campo da segurança social ‘made in Europe’, que o atual presidente, Donald Trump, continua a torpedear sem ainda ter conseguido afundar na totalidade. Muitos outros temas de vários outros presidentes mereceram-lhe especial atenção – mas o destaque da sua atuação ficará sempre ligado ao suporte a uma mudança subtil do papel do Congresso. Que, por sua influência (que se acrescentava a outras), foi deixando de ser apenas uma espécie de caixa de ressonância da administração federal, para passar a ter vida própria.

“Com o coração agradecido, estou ansiosa pelo meu último ano de serviço como orgulhosa representante” de São Francisco, disse aos seus eleitores num vídeo de quase seis minutos postado nas redes sociais na manhã desta quinta-feira. “A minha mensagem para a cidade que amo é esta: São Francisco, entenda o poder que tem. Liderámos sempre o caminho e devemos continuar a fazê-lo, permanecendo participantes plenos da nossa democracia e lutando pelos ideais norte-americanos que prezamos”. A cidade, sobre a qual o cantor Scott McKenzie dizia que “if you going to San Francisco be sure to wear flowers in your hair”, agradece, reconhecida. Pelosi, que gosta de usar a frase “descansar é enferrujar”, liderou os democratas da Câmara durante 20 anos, oito dos quais como presidente – como também liderou (ou foi uma das líderes) de um importante segmento da política interna norte-americana, que os europeus continuam a considerar levemente esquisita: ao longo da sua carreira política, Nancy Pelosi angariou 1,3 mil milhão de dólares para as campanhas democratas, de acordo com os seus assessores, citados pela imprensa.

Entre os adversários

Estrela entre os democratas, a sua aura entre os republicanos é, não podia ser de outra forma, inversamente proporcional: é completamente detestada – tendo mesmo alguém chegado a dizer que Pelosi é a personificação assustadora dos valores liberais de São Francisco: sem flores no cabelo, mas com toda a afirmação política do direito à diferença.

Não será por isso de admirar que a deputada seja aquilo que a língua portuguesa na sua versão de há 50 anos diria ser “uma espinha cravada na garganta” dos republicanos mais empedernidos. Com Donald Trump em primeiro lugar, evidentemente, Nancy Pelosi invetivou ser piedade, sem meias palavras e sem olhar a danos reputacionais contra o que considerava ser um atentado ao ‘american way of life’ – de que o ‘make america great again’ é uma espécie de degenerescência cancerígena.

Como constata a imprensa norte-americana, Pelosi tem sido uma das principais causas de irritação do presidente Trump, a pontos de, numa entrevista, o ter apodado de ” criatura vil”. A esse se guindou depois de terpresidido, na Câmara, a dois votos de impeachment sobre Trump – que evidentemente não deram em nada, mas que levaram o presidente então no seu primeiro mandato a chamar-lhe ‘Nancy Louca’. Para os democratas, era o comtrário: Jackie Speier, uma democrata da Bay Area e deputada durante 15 anos, disse que Pelosi entraria para a história como “a oradora mais importante de todos os tempos. “Ela tem comando, tem presença. Todos os olhos se voltam para ela”.

Às vezes, por más razões: depois da retirada inglória de Joe Biden, Nancy Pelosi parecia ser mais umá dessas pessoas que teima em não perceber que as carreiras políticas só devem ser eternas enquanto durem. Aos 85 anos, e por muito que o seu legado seja perene, estava na hora. Até porque, recordam os críticos, a pesada derrota que os democratas sofreram no ano passado nas disputas para o Congresso e para a presidência provocou um exame de consciência dentro do partido que resultou, com propriedade, num apelo aos mais velhos para que soubessem renunciar com elevação. Biden não o soube fazer (com elevação), mas Pelosi, ao colocar um fim na sua carreira de deputada, está a saber.

Entretanto, e ainda segundo a imprensa norte-americana, os ‘jogos de sucessão’ já começaram: Scott Wiener, um senador estadual democrata de San Francisco, e Saikat Chakrabarti, que trabalhou como chefe de gabinete da deputada Alexandria Ocasio-Cortez, já anunciaram que vão concorrer à vaga – o que fariam mesmo que Pelosi quisesse continuar. Nos últimos meses, Pelosi recusou discutir em público os seus planos de carreira, insistindo que estava focada apenas na aprovação da Proposição 50 da Califórnia, uma medida eleitoral para aprovar distritos recém-desenhados na Câmara – na tentativa de consolidar a posição democrata naquele Estado. Ela trabalhou nos bastidores para ajudar o governador Gavin Newsom a elaborar a medida, que foi aprovada na terça-feira passada. Foi considerada uma das suas conquistas finais, um golpe para as pretensões de Donald Trump, que buscou encontrar forma de conseguir mais lugares republicanos na Câmara, mesmo que seja ‘na secretaria’.

Nascida em uma família politicamente poderosa de democratas em Baltimore – o seu pai e um irmão serviram como mayors da cidade – Pelosi seguiu o caminho mais tradicional para mulheres da sua idade: conheceu o seu marido, Paul Pelosi, na Universidade de Georgetown, e o casal mudou para a sua cidade natal, San Francisco, onde Nancy ficou em casa para criar os cinco filhos. Durante esse tempo, Pelosi desenvolveu uma carreira como consultora de risco. Como uma jovem mãe, encontrou uma forma de apoiar o Partido Democrata: abrindo a grande casa da família à arrecadação de fundos. Isso levou a amizades com uma série de democratas proeminentes de São Francisco nas décadas de 1970 e 1980, incluindo Willie Brown, Jerry Brown e Phil e John Burton.

Quando Phil Burton morreu, a sua mulher, Sala Burton, substituiu-o – mas, o diagnóstico de um cancro fê-la pedir a Nancy que concorresse à vaga. Pelosi, que havia ignorado outras sugestões para concorrer a um cargo eletivo, finalmente concordou. Aos 47 anos, em junho de 1987, Pelosi derrotou Harry Britt. Foi aí que tudo começou – o resto é história.

Agora, depois de quatro décadas de liderança política e tendo assumido que se retira, Nancy Pelosi conseguiu a ‘cereja no topo do bolo’ da carreira de um democrata com letra grande: o ódio de Trump. “A reforma de Nancy Pelosi é uma grande coisa para a América”, disse o presidente à inevitável Fox News. “Ela era má, corrupta e só se concentrava em coisas ruins para o nosso país”. Felizmente para a democrata, Trump não é versado em italiano: ‘Nancy Peluda’ teria sido bem mais corrosivo que ‘Nancy Louca’.


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