Naufrágio quase geral

O caso Costa/Medina mostra bem o ponto a que chegou a ligação entre o pessoal dos partidos e os dirigentes dos clubes de futebol: ao ponto da mais perfeita irracionalidade

1 Sempre achei absolutamente infantil que muitos deputados tivessem criado núcleos de apoio aos chamados ‘três grandes’ do futebol. A ‘coisa’, extraordinária, inaugurada por Pinto da Costa, há mais de 20 anos, na sequência da afirmação internacional do FC Porto, teve depois resposta do Benfica e Sporting. Uma noite por ano, no restaurante do Parlamento (FC Porto e Sporting) ou num restaurante do Estádio da Luz (Benfica), os ilustres deputados da Nação habituaram-se a conviver de perto com ‘o presidente’, a sorverem-lhe as palavras, a cultivarem-se com as peripécias dos balneários confessadas em off the record e a sentirem-se parte importante da ação do clube. Esses núcleos, formados por deputados do PS, PSD, PCP e CDS, ganharam vida própria fora dos grupos parlamentares. Tornaram-se uma maçonaria de aventais mais garridos. Daí resultou a ascensão de políticos a programas televisivos sobre futebol. Tornou-se um hábito o convite para os camarotes dos estádios. Até a participação nas listas de órgãos dirigentes dessas suas paixões surgiu como o salto aparentemente lógico. Os convites para as viagens patrocinadas por grandes empresas vieram explorar a via aberta. Tudo ao molho e fé nos negócios.

Ao mesmo tempo, outros clubes, com menor ocupação do território nacional, especializaram-se em convívios mais discretos, e não menos intensos e profícuos, com juntas de freguesia, câmaras municipais e governos regionais.

2 O recente apoio de António Costa e Fernando Medina a Luis Filipe Vieira, nas eleições do Benfica, descende, por via direta, desse clima de tribalismo em que atores políticos, fascinados e sentindo-se ainda mais importantes, mergulharam na discussão dos mistérios da bola, e se sentiram parte dos triunfos das suas cores. Com telefones trocados em ambiente de alegria e exaltação colegial há sempre, depois, a oportunidade de dar uma opinião ou receber um conselho.Quem sabe, até, se não dar uma ‘ajudinha’ em casos de absoluta necessidade por parte desse grande amor das respetivas vidas.

Réplicas desse fenómeno deram-se entre titulares da ação governativa (os bilhetes pedidos por Centeno) – e, não com tanta formalidade e falta de senso visível, noutros sectores da vida social, nomeadamente na Justiça. Os exemplos são muitos, bem presentes, alguns até acabaram em processos judiciais. Dispenso-me de os nomear.

3 O caso Costa/Medina mostra bem o ponto a que chegou esta ligação – ao ponto dos protagonistas, homens experientes e inteligentes, não conseguirem antecipar as consequências daquele apoio na conjuntura presente.
O que relevo ainda mais neste caso são as reações oficiais envergonhadas de políticos de outros partidos, até do PCP e CDS. São fruto de tudo aquilo que se sabe. O silêncio retumbante de André Ventura, tolhido pelo caminho que durante anos trilhou como ‘representante do Benfica’, é ainda mais sintomático. Foi preciso uma semana para o líder do Chega arranjar uma saída: sem criticar António Costa, lá veio dizer que também teve convites para estar por dentro das eleições do Benfica e não aceitou.

Apenas os deputados do Bloco de Esquerda (que sempre se manteve à margem dos jantares de clube na Assembleia) e Rui Rio, com um passado que fala por si, pelas linhas vermelhas que traçou enquanto presidente da Câmara do Porto, tiveram capacidade para se colocar a salvo do naufrágio quase geral do pessoal político. Mais um. Não tenho a esperança que seja o último.

 

Esteve bem Luís Filipe Vieira ao retirar os nomes de todos os políticos das comissões de apoio à sua recandidatura. No meio desta estranha falta de senso geral, o presidente do Benfica acabou por ser o mais perspicaz.

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