Ana Santos Pinto: “Nem no médio prazo há alternativa a Assad na Síria”

Tanto os Estados Unidos como a União Europeia estão condenados a aceitar Bashar al-Assad como presidente da Síria. Esse é um dado adquirido, diz Ana Santos Pinto, no quadro mais geral – que é o que importa no Médio Oriente – de confrontação entre o Irão e a Arábia Saudita.

No meio da confusão generalizada que se vive na região, só parece haver um sinal favorável: apesar de tudo, a questão de Jerusalém permite concluir-se que o conflito israelo-palestiniano tem menos impacto do que o que já teve.

Para onde vai o Médio Oriente nesta fase pós-guerra contra o Daesh?
Tenho algumas dúvidas que a guerra contra o Daesh tenha acabado. Houve conquistas significativas por parte das forças que lutavam contra ele na Síria; a guerra foi dada como terminada, mas isso não significa que o Daesh ou os que lhe estão associados desapareceram. Nada indica que não continuem a realizar atividades, nomeadamente ataques terroristas, em todas as frentes. As causas que motivam as lutas destes movimentos não estão cumpridas. Tal como a Al Qaeda se transformou no Daesh, parece-me provável que o Daesh se transforme noutro movimento, mesmo que não tenha a mesma expansão territorial. Mesmo não tendo o mesmo formato, isso não implica que o conflito esteja resolvido. Será necessário esperarmos algum tempo para percebermos como é que o Daesh vai reorganizar-se ou se se vai subdividir, como aconteceu com a Al Qaeda. As causas permanecem, os objectivos políticos permanecem.

Com um upgrade de violência?
A verdade é que esse foi o motivo para a separação da Al Qaeda. Mas não tenha capacidade para perceber, para além destes indicadores, qual vai ser a transformação do Daesh.

Qual será o papel de Bashar al-Assad nesta fase – sabendo-se que o ocidente tem as maiores reticências em relação ao actual presidente da Síria?
Há duas questões essenciais. A primeira é que a fase em que Assad podia ser substituído já passou há muito. A existir agora uma liderança alternativa – que me parece muito difícil – ela seria alguém com um perfil muito semelhante. A posição externa, nomeadamente dos Estados Unidos, é a de diminuir a importância do regime de Assad e colocar a tónica na eficácia, essa tem sido a narrativa por parte dos países ocidentais. Mas tudo tem a ver com o Irão e a posição dos Estados Unidos é a de considerar Assad como um instrumento, ou seja o Irão é o foco da instabilidade. Por outro lado, a própria Rússia tem no regime de Assad um grande aliado – aliás, a vitória da Síria deve-se de uma forma muito significativa à intervenção direta da Rússia e isso viu-se ainda há poucas semanas no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Portanto, a continuidade de Assad não me parece estar em causa.

Apesar do desconforto demonstrado pelo presidente francês Emmanuel Macron ainda esta semana?
Esse desconforto arrasta-se desde 2012. Tendo a União Europeia uma política externa orientada por um conjunto de princípios e valores nos quais estão inscritos a igualdade, a participação e a liberdade, não pode apoiar um regime com as caraterísticas do sírio. A questão é que é que a União Europeia pode fazer. Macron ou qualquer outro dirigente europeu. Parece-me que a eficácia é muito reduzida. Além do mais, houve no caso do Iraque mas particularmente da Síria uma mistura muito grande entre o que cai sob a designação de ‘terroritas’ e o que são os movimentos contra Assad. No terreno, é muito difícil distinguir. A luta militar desenvolvida pelo regime de Assad, Irão e Rússia, foi não só uma luta contra o daesh, mas também contra os movimentos emergentes de oposição a Assad. Estes movimentos estão desestruturados, sem capacidade de resposta. É isso que me leva a dizer que no curto prazo, para não dizer no médio prazo, não há alternativa a Assad.

Portanto, mantém-se dois blocos, Irão por um lado, Arábia Saudita por outro.
Sim. Esse é o principal elemento do conflito no Médio Oriente: a oposição entre dois atores regionais de grande dimensão – o Irão e a Arábia Saudita. Isso é aquilo que neste momento e daqui para a frente criará a estrutura do Médio oriente. Mas, para além destes, não devemos esquecer a Turquia.

Uma espécie de terceira via.
A Turquia é um aliado da Aliança Atlântica. Portanto, o envolvimento da Turquia tem essa dimensão. A relação da Turquia com os Estados Unidos e com os parceiros europeus estão num contexto de pouca proximidade. Isto cria problemas de funcionamento da Aliança Atlântica e entre a Turquia e os Estados Unidos. A Turquia tem, do ponto de vista da dimensão económica, militar, dos interesses geo-políticos, uma dimensão que foi orientada para a Aliança Atlântica e que nos últimos cinco anos, para sermos modestos, teve de reorientar para o Médio Oriente. E aqui temos um conjunto de problemas, como é o caso da questão curda, como é o caso das relações entre a Turquia e Israel, como é o caso do Qatar, que afastam a Turquia, ora de um ora de outros centros do poder no Médio Oriente.

É aí que se inscreve o problema de Jerusalém?
O anúncio da decisão norte-americana vem inserir mais um elemento de instabilidade na região. Mas ao mesmo tempo mostra que o impacto do conflito israelo-palestiniano é hoje menor que o que acontecia há décadas. É um conflito mais circunscrito. Mas a questão vem levantar divisões entre o grupo de países que são tradicionalmente apoiantes dos Estados Unidos: a Arábia saudita, Israel e a Turquia. Esta divisão quer dizer que a questão vai estar em cima da mesa das negociações. Como os Estados Unidos já mostraram que não abrem mão da decisão, logo veremos como tudo isto acaba.

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