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Nexperia corta fornecimento de chips a fábrica chinesa

Aumentam as interrupções na cadeia de fornecimentos do ‘precioso’ produto. As consequências alastram – como fica evidente pelo exemplo da unidade bracarense do grupo de origem germânica Bosch.
31 Outubro 2025, 10h22

A fabricante neerlandesa de chips Nexperia suspendeu o fornecimento de wafers para a sua fábrica de montagem na China, de acordo com uma carta endereçada aos seus clientes a que a agência Reuters teve acesso. A consequência será inevitavelmente o aumento das dificuldades no abastecimento do produto – que já está a ter um impacto significativo no mundo industrial, nomeadamente ao nível da indústria automóvel.

A carta, datada de 29 de outubro e assinada pelo CEO interino da Nexperia, Stefan Tilger, adianta que a empresa impôs a suspensão do fornecimento da sua fábrica situada em Dongguan, na província de Guangdong, no sul da China, com impacto a partir de 26 de outubro. É “uma consequência direta da recente falha da administração local em cumprir os termos de pagamento contratuais acordados”, refere a missiva.

Desde o início deste mês, a Nexperia está envolvida numa guerra com a unidade chinesa depois de o governo neerlandês ter assumido o controlo da Nexperia das mãos da sua proprietária, a chinesa Wingtech Technology, a 30 de setembro. A operação resultou também na dispensa do CEO chinês. No cerno da questão está, diz o governo neerlandês, uma preocupação com a segurança nacional: a Wingtech estaria a apropriar-se da tecnologia da empresa para a introduzir na indústria de chips do Império do Meio.

As mudanças na Nexperia ocorreram depois de a unidade chinesa da fabricante neerlandesa de chips retomar o fornecimento de semicondutores a clientes locais, com a obrigação de todas as vendas serem liquidadas usando o yuan, a moeda chinesa e já não em moeda estrangeira como o dólar norte-americano.

A empresa produz grandes volumes de chips nos Países Baixos, amplamente utilizados nas indústrias automóvel e na de eletrónicos de consumo. Cerca de 70% dos chips produzidos no país europeu são embalados na China e vendidos principalmente a distribuidores.

“Embora tenhamos mantido as remessas pelo maior tempo comercialmente viável, continuar o fluxo atual de fornecimento do nossos front-end não é mais justificável”, dizia a carta. “A menos que essas obrigações contratuais sejam totalmente satisfeitas, não podemos retomar o fornecimento de wafer. A Nexperia está a desenvolver soluções alternativas para garantir que o fornecimento continue.”

A Nexperia acrescentava que a decisão não refletiu a intenção de se retirar de Dongguan ou do mercado chinês como um todo, acrescentando que continua comprometida em encontrar uma solução para o problema. E explicava que a Nexperia é financeiramente independente da Wingtech e não levanta capital chinês.

O embate entre o governo neerlandês e a empresa chinesa ocorreu quando a pressão dos Estados Unidos sobre a Nexperia – uma de várias empresas que a sofreram – aumentou depois de a Wingtech ter sido colocada numa ‘lista negra’ restritiva da exportação, embora as autoridades dos Países Baixos digam que as deficiências de governança foram a causa da intervenção – algo em que não é fácil de acreditar, segundo os analistas. Como resposta, a 4 de outubro, o Ministério do Comércio da China bloqueou a exportação de chips da China a partir da Nexperia.

Conglomerados da indústria fizeram soar os alarmes de imediato sobre o possível impacto na produção. A Stellantis disse esta quinta-feira que montou um ‘gabinete de crise’ para monitorizar a situação. Também os japoneses da Nissan disseram que tinham chips suficientes apenas até à primeira semana de novembro sem terem de proceder a interrupções na produção.

Um dos resultados desta ‘guerra’ foi o aumento dos preços: alguns produtos da Nexperia passaram, nas últimas duas semanas, a custar mais 10 vezes que o custo original. O recente encontro de Donald Trump com o seu homólogo chinês, Xi Jinping, na Coreia do Sul, pode vir a desbloquear o problema e a normalizar a produção e venda de chips – mas os analistas afirmam que o primeiro impacto já está assimilado e que os clientes já não podem subtrair-se às suas consequências.

Precisamente um dos clientes da Nexperia é a Bosch, que anunciou esta terça-feira, 28 de outubro, que a sua fábrica de Braga vai entrar em ‘lay-off’ na próxima semana, por pelo menos seis meses. “Devido à escassez de componentes para peças eletrónicas e as recorrentes interrupções na produção, o mecanismo de ‘lay-off’ estabelecido no Código de Trabalho entra em vigor a partir do início de novembro até, presumivelmente, ao final de abril de 2026”, adianta a empresa em comunicado. “Neste sentido, cerca de 2.500 colaboradores serão afetados pela suspensão dos contratos de trabalho e/ou redução de horas de trabalho”.

“Assim que este problema for resolvido, a produção em Braga deverá regressar à normalidade, permitindo-nos fabricar para servir os nossos clientes”, refere o grupo de origem alemã. A escassez de chips deve-se diretamente aos problemas na Nexperia.

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