Novo Banco: “Sou o presidente mais mal pago” da história do banco

O CEO salientou ainda que a sua remuneração é 50% da média da remuneração dos presidentes dos outros bancos em Portugal.

António Ramalho | Cristina Bernardo

Em resposta à deputada do PAN, Inês de Sousa Real, na audição que está a correr no âmbito da Comissão de Orçamento e Finanças, António Ramalho explicou a notícia que os administradores do Novo Banco receberam prémios diferidos de 1,997 milhões de euros, em 2019.

O banco dispensou o Fundo de Resolução desse montante, revelou o gestor. Recorde-se que o Novo Banco recebeu 1.035 milhões de euros, este ano por conta das perdas de 2019, do Fundo de Resolução ao abrigo do mecanismo de capitalização contingente, menos 2 milhões do que o previsto inicialmente.

O CEO do banco lembrou que está limitado pelo acordo da DG Comp com o Estado português, de receber mais de 10 vezes o salário médio do banco. Mas que “se o quadro de reestruturação estiver a ser seguido e se no próximo ano estiver a começar a ter resultados positivos, esta limitação cairá a meio do próximo ano”. Perante a execução dos objetivos “foi decidido que [o montante potencial de bónus pós reestruturação] deveria ser provisionado. Estamos a discutir o que não recebemos”, disse Ramalho.

O CEO do Novo Banco acrescentou que a remuneração dos órgãos sociais executivos é decidida com base em critérios objetivos pela comissão de remunerações. Com a condicionante de o CEO não poder receber mais do que o teto de 10 vezes o salário médio. A remuneração variável não está autorizada até ao fim da reestruturação que será concluída em 2021.

“A remuneração variável não foi paga”, disse.

Ramalho explicou a execução dos objetivos de que depende a atribuição de bónus após a reestruturação do Novo Banco. “Há 60% dos meus incentivos que são objetivos estipulados pela DG Comp e pelo Estado; 30% são objetivos estipulados pelo banco e 10% são objetivos de boa liderança e gestão integrada. É neste quadro de objetivos que sou avaliado todos os anos”.

O CEO salientou ainda que a sua remuneração é 50% da média da remuneração dos presidentes dos outros bancos em Portugal.

“Sou também o presidente do Novo Banco mais mal pago de todos os anteriores”, disse António Ramalho, referindo-se a Vítor Bento e a Eduardo Stock da Cunha.

Até ao processo de reestruturação estar concluído vai ser assim. Antes da Lone Star o CEO do Novo Banco recebia mensalmente 10.175 euros (dezembro de 2016). Depois da venda recebeu 10.523 euros (em 2017). Passou para 11.255 euros em 2018 e 10.145 euros em 2019, porque desceu o salário médio do banco.

“Os meus colegas prescindiram da remuneração variável e prescindiram dos seus bónus, porque eles podem receber eu é que não”, disse ainda.

Sobre a questão apontada pela Deloitte, de falta de incentivo que devia ser aplicada aos colaboradores que fazem a recuperação dos ativos, o banqueiro disse que “o banco não atribuiu incentivos e por isso também não atribuiu à recuperação de créditos. Em 2019 introduziram esses incentivos a todo o banco. “O Fundo de Resolução chamou a atenção que gostava de ter incentivos específicos conforme está no contrato [de servicing] e que agora estão até a discutir ajustamentos dos incentivos para 2020”.

O CEO do banco voltou a rejeitar qualquer conflito de interesse pelo facto de o Chairman Byron Haynes ter trabalhado num banco que era da Cerberus. “O Cerberus é um comprador regular destas operações na Península Ibérica”, disse e ironizou com a frase “também podia ter trabalhado na Staples que é também do Cerberus”.

Ramalho está a responder numa longa audição, onde o ponto mais alto da tensão foi quando disse à deputada Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda, que tinham um acordo de ele nunca contribuir para a eleição dela e ela não contribuir para a dele.

Ler mais
Recomendadas

Deutsche Bank estima que PIB mundial volte a níveis pré-Covid em meados de 2021

Apesar do tom otimista, o banco alemão também mostra receios sobre as segundas vagas do coronavírus nos Estados Unidos e na Europa, que estão a aumentar a incerteza sobre as perspetivas económicas.
Braga de Macedo, Nuno Cassola

Jorge Braga de Macedo e Nuno Cassola: “Alimentou-se a ilusão que o sistema bancário era sólido”

“Por onde vai a banca em Portugal?” é o novo livro de Jorge Braga de Macedo, Nuno Cassola e Samuel da Rocha Lopes, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos . Os dois primeiros falaram ao Jornal Económico, em entrevista, sobre o passado, a gestão, a supervisão e o futuro do setor.

Grandes bancos continuam a facilitar branqueamento de capitais

“Os lucros das guerras mortíferas da droga, as fortunas desviadas de países em desenvolvimento e as economias duramente ganhas e roubadas através do esquema de pirâmide Ponzi têm sido capazes de entrar e sair das instituições financeiras, apesar dos avisos dos próprios funcionários dos bancos”, detalha a investigação realizada por 108 media internacionais, de 88 países.
Comentários