Novo Banco: uma questão de incentivos

Como qualquer agente económico, o Lone Star joga com as cartas que tem à disposição. Olhando para trás, é difícil não nos questionarmos se o interesse público não teria sido melhor defendido se o Novo Banco tivesse permanecido na esfera pública.

Um dos aspectos que mais surpreende nas periódicas indignações coletivas a respeito das somas fabulosas injetadas no Novo Banco é a indignação demonstrada por quem tinha obrigação de saber que o que está a acontecer é resultado da forma como a instituição foi resolvida e, posteriormente, vendida a uma entidade que, na gíria dos mercados, se pode considerar – sem ofensa – um fundo “abutre”. O qual, como qualquer outro agente económico, joga com as cartas que tem à disposição.

O Novo Banco é como uma casa antiga que o Estado vendeu a um privado, a desconto e com a promessa de lhe conceder um apoio a fundo perdido (financiado por uma taxa paga por toda a vizinhança) para fazer reparações, se fossem necessárias. O comprador já sabia, de antemão, que as paredes tinham infiltrações e que o telhado e o chão de madeira precisavam de ser substituídos. Mas como havia a promessa de uma linha a fundo perdido, avançou com a compra. De seguida, fez as reparações com o apoio do Estado e aproveitou até para substituir as caixilharias das janelas, que deixavam entrar frio, bem como para reparar as canalizações e desfazer a horrível marquise que desfeava o imóvel. Entretanto, para pagar a dívida que contraiu no banco para comprar a casa, o nosso investidor foi aos poucos vendendo o recheio. Até que, alguns anos depois, já com a casa restaurada, a conseguiu vender ao vizinho por bom preço.

Com as devidas diferenças, é isto que o Lone Star pretende fazer no Novo Banco. Pôr a casa em ordem e retirar o máximo proveito das condições que o Estado lhe assegurou, para poder vender com lucro. Veremos se terá sucesso (os tempos continuam desafiantes para a banca) e a auditoria ordenada pelo Governo dirá se foi, ou não, longe demais, como diz Rui Rio, mas só por ingenuidade se poderia esperar que um fundo não procurasse aproveitar ao máximo o dinheiro que lhe colocaram à disposição.

Olhando para trás, é difícil não nos questionarmos se não teria sido melhor manter o banco na esfera pública, reestruturá-lo e vendê-lo quando chegasse a altura certa (ou não). Em Portugal, gostamos muito de dizer que somos liberais, mas o verdadeiro liberalismo protege o interesse público, como vimos em Inglaterra com o Lloyds, sob a liderança de Horta Osório. Nove anos depois da nacionalização, o Tesouro já tinha recuperado os 24 mil milhões de libras que injetara neste banco. No caso do BES/Novo Banco, a factura já vai em sete mil milhões, com tendência para aumentar.

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