A discussão sobre a energia nuclear regressou recentemente depois de Bruxelas ter anunciado 200 milhões de euros para desenvolver tecnologias inovadoras.
O tema em Portugal ficou marcado pela luta do povo de Ferrel em 1976 que conseguiu travar a central prevista para a vila do concelho de Peniche.
Em 2005, houve nova tentativa para construir uma central nuclear em Portugal, com um custo de 3,5 mil milhões de euros para construir 1.600 megawatts, mas o Governo de José Sócrates rejeitou o projeto.
Pode ser agora o momento certo para retomar a discussão? Bem, o Governo já chutou para canto o tema. “Para a energia nuclear é preciso um investimento inicial bastante elevado. Temos muito potencial renovável. A nossa aposta deverá ser nas renováveis”, disse a ministra do Ambiente Maria da Graça Carvalho na semana passada.
Mas quanto custaria uma central nuclear em Portugal? E qual a potência ideal para o país? O Jornal Económico entrevistou o professor Bruno Soares Gonçalves, especialista em energia nuclear que fez as contas tendo por base projeto nucleares mais recentes.
“Oito a nove mil milhões de euros para um reator de um gigawatt. Penso que precisaríamos de um a dois gigas. Tipicamente, os estudos de custos totais do sistema nos outros países têm apontando para qualquer coisa da ordem dos 20% [de potência] das necessidades do país para ser economicamente viável. Mas aqui tudo depende de qual é a perspetiva e como é que enquadramos isso no nosso portfólio [energético]. Não pode ser um valor tipo PNEC”, segundo Bruno Gonçalves, destacando que as contas são uma estimativa em bruto.
Olhando para exemplos lá fora, destaca os Emirados Árabes Unidos que “construíram quatro reatores de origem sul-coreana. O primeiro foi mais caro, mas foram reduzindo os custos de reator para reator. O custo total já com custos de capital rondou os 24 mil milhões de dólares”, começou por dizer o presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear (IPFN).
Já os “fornecedores chineses pensam que na Europa um reator da escala de um gigawatt poderia custar qualquer coisas entre sete a oito mil milhões de euros”.
“Mas não podemos esquecer que um reator nuclear pode ser licenciado incialmente para 40 anos e pode ser estendido para 60 a 80 anos”, destacou.
O professor do Instituto Superior Técnico (IST) destaca “um aspeto importante: isto não se faz contra a população. Há o contrato social com a população. Tem de haver uma discussão séria e científica. É preciso salientar que o nuclear foi um fator de desenvolvimento regional nas zonas onde foi instalado porque atrai trabalhadores especializados, que vêm com as suas famílias, e acaba por se criar um conjunto de serviços e muitas vezes vem associado um conjunto de indústrias. Isto tudo acaba por ser um fator de desenvolvimento”.
Bruno Soares Gonçalves pede assim “uma estratégia para o país” que passa por fazer o estudo dos custos totais do sistema elétrico.
“Muitas vezes é afirmado que o nuclear é caro, mas a eólica offshore flutuante que se tem discutido para Portugal está longe de ser barata”, acrescentou.
“O nuclear tem que ser aceite transversalmente [a nível político] porque estamos a falar de uma estratégia para o país, não estamos a falar de uma estratégia governativa para um ciclo eleitoral. O estudo tem de ser feito e a estratégia tem que assentar em resultados científicos. Pessoalmente, acho que o nuclear vai aparecer como uma opção natural”, defendeu.
Em Espanha, “os reatores funcionam 90% do tempo. Funcionam como um relógio. Por isso, o custo e o investimento é elevado. Mas temos que pensar a longo prazo o que é que queremos”.
Já no caso dos pequenos reatores modulares, até 300 megawatts de potência, os valores variam, destaca, apontando alguns exemplos de custo de produção de eletricidade. “Tenho visto números da ordem dos 75 a 80 euros por megawatt hora. Nos Estados Unidos, estão a apontar para valores nos 50-55 dólares por megawatt hora. Existem alguns projetos que neste momento falam em valores da ordem dos 30 euros por megawatt hora, que são verdadeiramente competitivos, mas ainda terão que o demonstrar”.
Sobre o anúncio da Comissão Europeia, destacou que o “aspeto mais notável da declaração de Ursula von der Leyen foi assumir que o não ter dado continuidade ao nuclear foi um erro estratégico. Os 200 milhões são um primeiro passo, em vista a depois haver investimentos futuros no próximo programa-quadro de investimentos. Tudo indica que a Comissão quer que sejam pequenos reatores modulares”.
“Aprendeu-se muito com Fukushima. E os reatores atuais beberam dos dados dos relatórios de Fukishima para corrigirem o que não estava certo”, sublinha.
Em termos de vítima, Chernobil provocou quatro mil vítimas, com Fukushima a provocar 475, não da radiação, mas sim devido ao processo de evacuação.
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