O australiano que quer transformar as casas em hortas

O ano de 2050 está longe mas pode ser difícil encontrar soluções que permitam a reduzir partículas e emissões invisíveis. Michael Parkes, António Santos e Paulo Pereira criaram a Bios e prometem uma relação entre carbono e alimentação.

O Roteiro para a Neutralidade Carbónica é um plano ambicioso para 2050 e já se sabe que vai ser necessário um investimento superior a 480 mil milhões de euros até 2050 para o cumprimentos das metas propostas pelo Governo português.

Os edifícios são geradores de muito desperdício invisível e isso pode ser um entrave para alcançar a neutralidade em carbono. No entanto, Michael Parkes quer alterar este desperdício que não se vê, o carbono.

Depois de Portugal o ter aceite, com a entrada no Instituto Superior Técnico, Michael encontrou no doutoramento o desafio ideal. Em conjunto com dois portugueses, António Santos e Paulo Pereira, os três colegas conseguiram pegar nesse desperdício energético e produzir comida. O projeto Bios nasceu para aproveitar o carbono e a energia desperdiçada de habitações para a transformar em algo necessário, pensando então em agricultura interior.

“Para nós, a comida é relativa”, sustentou Michael Parkes. “Nós queremos as medições de carbono, para mostrar que o edifício consegue aproveitar a energia e carbono desperdiçados e transformá-los para fazer crescer alimentos”, afirmou o australiano ao Jornal Económico.
Com o trabalho focado num espaço fechado, assemelhando-se a uma estufa, de ambiente controlado e aproveitando a energia depositada, “os sensores de software otimizam-na para que haja o suficiente para criar as condições perfeitas para as plantas”.

O desenvolvimento deste projeto passa por “retirar entre 95% e 100% dos custos energéticos” que a estufa apresenta, uma vez que estes gastos podem ser explorados no edifício. “Queremos oferecer aos edifícios sistemas operativos integrados, e este é o futuro”, sustentou na conversa com o JE.

Apesar do projeto ainda se encontrar em fase de análise e protótipos, os três colegas já conseguiram conversas interessantes, e potenciais parceiros, com a Universidade Nova, Banco Atlântico e a José de Mello Saúde, e sublinha a vontade de trabalhar com empresas que apostem em sustentabilidade. “Estamos em conversas ativas com estas empresas, a definir o seu perfil, a construir um modelo virtual e a testar”, garantiu.

Com diversos estudos próprios em relação à viabilidade do projeto, Michael assume vão analisar as empresas e em janeiro assinar contrato, sendo que apenas no mês de junho avançam com a construção do projeto em escala física e nas instalações da empresa. “Esperamos que em junho já seja possível mostrar o primeiro edifício com zero impacto por causa da tecnologia Bios”, afirmou Michael Parkes.

Em Portugal desde 2017, o australiano garante que foi o país que o escolheu, uma vez que desde que chegou lhe têm sido abertas muitas portas, estando a trabalhar paralelamente em outro projeto. “O nosso sistema de apoio tem sido ótimo. A Fundação Calouste Gulbenkian desinvestiu no petróleo e carvão e agora vai apoiar a Bios para desenvolver uma tecnologia de redução de carbono para edifícios”. Michael Parkes garantiu ainda que a SingularityU tem sido um apoio na divulgação do projeto, pois dá-lhe a possibilidade de abordar mais empresas e fornecer soluções mais sustentáveis, uma vez que a SinguralityU é a primeira organização no país que visa capacitar pessoas e organizações para a utilização de tecnologias emergentes.

Apesar de ser um produto secundário, Michael afirma que é importante a tecnologia funcionar nas cidades, pois não é necessário lavar antes de consumir, não existem resíduos plásticos ou gastos com transportes. “Estamos a oferecer comida grátis, uma vez que é produzida no local”, sublinha Michael.

“A questão é que estes edifícios gastam tanto em eletricidade, todo o dinheiro vai para a eletricidade e existe desperdício energético”, diz. Na verdade, este desperdício acaba por ser debitado nas contas e os três colegas apostam numa solução que poupa algum dinheiro aos portugueses. “Se conseguirmos reduzir as emissões de carbono e apoiar a educação, podemos tornar mais interesse e apelativo” ter uma pequena horta dentro dos edifícios onde vivemos.

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