Foi no primeiro ano deste século que um grupo de empreendedores da região do Baixo Ave se juntou para criar uma estrutura capaz de apoiar e representar as empresas e os empresários locais e, simultaneamente, promover o desenvolvimento sustentável da região. Nasceu, assim, a Associação Empresarial do Baixo Ave que, entre outras iniciativas para assinalar o seu 25.º aniversário, lançou o Prémio Inovação AEBA 25 anos. O período de candidaturas terminou em setembro e, nesta entrevista, José Manuel Mendonça, Diretor do INESC TEC, professor emérito da Universidade do Porto e membro do júri fala-nos de inovação, de como as empresas do Baixo Ave evoluíram e da relevância do Prémio Inovação AEBA 25 anos.
Qual é o impacto de um prémio como o da AEBA?
Enquanto o impacto da ciência é global, o impacto da inovação pode, em muitos casos, ter um forte âmbito territorial. O Prémio Inovação AEBA 25 Anos quer colocar a inovação no centro da agenda, desafiando as empresas do território a mostrar a sua capacidade em inovar em produtos, processos, serviços e modelos de negócio para, através dessa inovação, entrarem ou reforçarem a sua posição nas cadeias de valor globais.
Quais são os critérios de avaliação mais valorizados?
Todos os critérios e subcritérios que compõem a grelha de avaliação do Prémio são relevantes, sendo atribuído a cada um desses critérios e sub-critérios um determinado peso. Isso permite-nos obter um indicador global de mérito e torna possível fazer uma avaliação comparativa de candidaturas muito diversas.
Como comenta a evolução do tecido empresarial da região?
O Baixo Ave é marcado pela presença de empresas exportadoras e até líderes em diversos setores, nos quais são determinantes a ciência e a inovação. A partir de 2000, o país fez um esforço muito grande para aumentar o financiamento, público e privado, da investigação, que passou de 0,8% do PIB em 2000 para 1,6% em 2009. Depois de uma queda para 1,3%, na sequência da crise financeira, esse valor aumentou de novo para cerca de 1,75% em 2024. É muito relevante sublinhar que o investimento das empresas é superior ao investimento público e que, na última década, o número de investigadores nas empresas quase triplicou.
O impacto deste desenvolvimento em ciência e inovação nos setores de maior complexidade económica do país, quase todos exportadores, ajudou a que as exportações de bens e serviços passassem de uns estagnados 27%, entre 1996 e 2005, para quase 50% em 2022, um sonho há muito almejado. A evidência desse impacto na balança tecnológica, isto é a diferença entre exportações e importações de produtos e serviços com conteúdo tecnológico, é clara: passou de negativa em 550 M€ em 1998 para equilibrada em 2016 e positiva em quase 2.700 M€ em 2024.
Como muitas regiões em Portugal com forte componente industrial, o Baixo Ave cresceu em tecnologia e inovação, aumentando a complexidade e sofisticação dos produtos e serviços e, consequentemente, a sua capacidade exportadora.
Qual é a importância da ligação entre as empresas e a academia?
É crucial que o conhecimento científico saia dos muros da universidade, para ser assimilado e endogeneizado nas empresas, suportando diferentes tipos de inovação e, desta forma, ajudar a manter ou aumentar a sua capacidade competitiva.
A parte do ecossistema de ensino, investigação e inovação referida por “academia” articula-se, coopera e interage com as empresas através de vários tipos de instituições ditas de interface, como centros tecnológicos e de inovação, laboratórios colaborativos e incubadoras.
Como vê o investimento em ciência no nosso País?
A modernização das empresas é levada a cabo pelos empresários, pelos gestores, por todos que nelas trabalham, no trabalho do dia a dia e seguindo uma visão, uma estratégia sonhada e levada a cabo por quem assume a liderança. Quem está de fora – governo, autarquias, universidade, politécnico, etc. – pode contribuir para melhorar o contexto transacional e o ecossistema no território em que as empresas vivem. Cada um tem as suas tarefas e a orquestração é um processo complexo, certamente conduzido por uma visão do que se quer para o território. Correndo o risco de ser simplista, posso referir unicamente três medidas de política pública, muito faladas, mas sempre adiadas: a drástica diminuição da burocracia, a melhoria do acesso ao capital e ao investimento e o forte estímulo à atração e retenção de talento jovem e qualificado. Isto é válido para qualquer região e para todo o país, com modulação da aplicação prática em função dos territórios específicos. O Baixo Ave não é, certamente, exceção.
Se a modernização das empresas da região do Ave fosse sua responsabilidade, o que faria de imediato?
E das empresas a nível nacional?
Correndo o risco de ser simplista, posso referir unicamente três medidas de política pública, muito faladas, mas sempre adiadas: a drástica diminuição da burocracia, a melhoria do acesso ao capital e ao investimento e o forte estímulo à atração e retenção de talento jovem e qualificado. Isto é válido para qualquer região e para todo o país, com modulação da aplicação prática em função dos territórios específicos. O Baixo Ave não é, certamente, exceção.
Este artigo foi produzido em parceria com a AEBA
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