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O paraíso perdido

Independente em 1943, paraíso para férias e para guardar dinheiro ao longo de décadas, palco de uma guerra civil, o Líbano é uma imagem muito pálida do que chegou a ser: um país estável e pacífico entre vizinhos que tentavam por todos os meios matar-se uns aos outros.
20 Março 2026, 21h00

Em 2007, uma foto tirada em Beirute, capital do Líbano, venceu o prestigiado prémio World Press Photo of the Year. O fotógrafo Spencer Platt (norte-americano, da agência Getty Images), captou o momento em que um grupo de jovens libaneses, um homem e três mulheres vestidos como se se dirigissem a uma festa tropical, passeavam num vistoso descapotável vermelho por meio dos escombros recentes de uma batalha. A foto foi tirada a 15 de agosto de 2006, o primeiro dia do cessar-fogo de mais uma guerra entre Israel e o Hezbollah – uma organização dúplice, que é ao mesmo tempo um partido político com lugar no parlamento libanês e um grupo armado que, a soldo do xiismo iraniano, trata de infernizar sempre que pode – ou sempre que lhe mandam – a vida pouco motivadora das populações que vivem no norte de Israel.
Filha de imigrantes libaneses, Safaa Dib, nascida no Dubai, Emirados Árabes Unidos, é, entre outras coisas, escritora e cronista, vive em Portugal há várias décadas e tem dificuldade em entender o domínio que Hezbollah exerce sobre todo o país, sobre a sua política, sobre a sua sociedade, sobre a sua desgraça.
Nem sempre foi assim. Depois do fim do Império Otomano, na sequência da I Guerra (1914-18), o Líbano passou a ser um protetorado francês onde a diversidade religiosa – uma das suas caraterísticas mais improváveis numa região onde o fundamentalismo absurdo sai sempre vencedor de todos os embates com os moderados – impunha costumes brandos, ligeireza social, saias curtas e desprezo pela política. Era a ‘Riviera do Médio Oriente’. Mas era também a ‘Suíça do Médio Oriente’ e isso por razões diversas: num contexto em que o Médio Oriente era já uma região fortemente insegura e onde a tensão entre países nunca baixava de máximos, o Líbano era um porto seguro e amigável para alocar investimentos e parquear fortunas sem medo de impostos excessivos.
Para garantir eficiência, perenidade e paz social, o Líbano ‘inventou’ um dos sistemas políticos mais surpreendentes do mundo, concluído no sentido de garantir representatividade à diversidade religiosa e ‘pacificidade’ entre todas as sensibilidades – que, fora das fronteiras libanesas, se digladiavam de morte nas mais diversas geografias. Chamaram-lhe governo confessional: de acordo com a Constituição de 1926, reforçada pelo Pacto Nacional de 1943 (o ano da sua independência de França), o poder público é distribuído entre diferentes comunidades religiosas – e embora 18 delas sejam reconhecidas no país, apenas três monopolizam posições-chave; a presidência fica com cristãos maronitas, o primeiro-ministro é tradicionalmente um muçulmano sunita e a presidência da Câmara dos Deputados é reservada a um muçulmano xiita.
Estará aqui a raiz do desastre libanês? Safaa Dib acha que não: “o Líbano era uma espécie de paraíso onde todos iam passar férias e era um país muito conhecido pela sua diversidade cultural e religiosa, pela sua tolerância e pela sua liberdade de expressão. Era, portanto, um país à parte em relação a todos os outros países vizinho. O facto de ser um país composto por um mosaico de religiões muito diversas acabou também por fazer com que o país tivesse uma cultura mais aberta, uma mentalidade mais aberta e também muito mais ocidentalizada e europeizada”. “É evidente que nem todos estavam de acordo com o sistema confessional”, mas não foi por aí que o paraíso se perdeu.

Israel no horizonte
Onde foi, então? Foi nos seis dias mais radicais de todo o Médio Oriente. Entre 5 e 10 de junho de 1967, Israel e os países árabes – Síria, Egipto, Jordânia e Iraque apoiados pelo Kuwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão – envolveram-se num confronto que estilhaçou para sempre (até hoje) o Médio Oriente. O Líbano não faz parte do rol de implicados e essa terá sido a sua desgraça: para o país convergiram milhares de refugiados palestinianos, que alteraram profundamente o equilíbrio social e religioso e produziram a gérmen da radicalização. “Uns querem manter-se à parte do conflito, outros querem envolver-se mais e claro que a partir de uma certa altura é que chega a um conflito armado em 1975, em que milícias cristãs entram em conflito com palestinianos e fações pró-palestinianas e muçulmanas e então a partir daí há uma guerra civil, que só termina em 1990”. O paraíso tinha-se perdido, aparentemente para sempre: ”vários países árabes, incluindo o Egito, acabaram por reforçar a resistência palestiniana” a partir do Líbano, armaram-na e radicalizaram-na contra o sionismo, transformando a ‘Riviera francesa’ num alvo plausível da máquina militar israelita: era ali, nos campos de refugiados – e não na Cisjordânia ou em Gaza – que se encontrava a base da resistência armada palestiniana.
“Ora, isso cria tensões sociais muito fortes no país, porque se por um lado havia uma comunidade pró-palestiniana, muçulmana, a apoiar a resistência palestiniana, por outro tínhamos uma maioria cristã, que é bastante expressiva, que não apoiava de maneira nenhuma a resistência palestiniana”. “É uma guerra civil desastrosa, que destrói o país por completo, uma guerra terrível, muito à base do ‘olho por olho, dente por dente’, que só acaba com a intercessão de outros países como a Arábia Saudita e alguns países europeus, que conseguiram chegar a um acordo de paz”.


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