O poder é afrodisíaco e tem os seus “affaires”

Temos superávit orçamental e crescimento económico. Mas, persistem as carências de habitação. Milhares de idosos estão à espera de vaga em lares e milhares de doentes à espera de consultas e cirurgias.Não nos preocupemos com o Turismo… “O mercado autorregula-se”. Faltam as acessibilidades e assistimos aos sucessivos constrangimentos aéreos e marítimos.

Pensei escrever sobre o quão afrodisíaco era a Cultura, mas cansado sobre os “affaires” do poder em vésperas de eleições. Sobre o poder narra a história, sobre os “affaires” narro eu.

Vejamos: nunca a social democracia foi tão falada em vésperas de eleições, a direita política de súbito lembrou-se que afinal, era de esquerda e em sentido inverso até os Trotskistas lembraram-se que afinal, são mais moderados e também são sociais democratas.
Numa era pós-ideologica e numa sociedade de um “capitalismo da sedução”, para o eleitor como eu, que não tem “pachorra” de ser intelectual no ato (de votar), o sublime exercício da cidadania, tornou-se numa escolha de pessoas e de projetos políticos, muito mais do que nomenclaturas partidárias que há muito deixaram de resumir cartilhas ideológicas. Problema maior são os interesses económicos e agendas associadas a alguns desses partidos.
Quanto à proliferação de novos partidos e à ascensão dos “pequenos” desconfio, se em vez de servir o país não estarão a servirem-se a si próprios.

Porque votar é um direito adquirido, que deve prevalecer como garante das instituições democráticas, importa ainda assim, perante o temor ou o terror, votar em consciência, tentando não deixar-se levar por qualquer medo e muito menos deixar-se seduzir pelo alegórico.

Porque afinal, para quem votou há quatro anos, “Portugal à Frente” em dia de chuva, a “Geringonça” não foi assim tão má!

Mas, vamos divertir-nos agora com os “affaires” de verão:

1. Para que não digam que só estou a “bater” nos mesmos:
uma greve de camionistas, possibilitou ao governo do retângulo afirmar a sua costela da direita,
para agrado do centro que gosta de estabilidade e está farto das convenções da direita política do regime.

2. Parafraseando Santo Agostinho, “Na igualdade somos livres, na diferença nos respeitamos”.
Sobre a defesa da igualdade de direitos, uma questão de princípio que merecia um amplo consenso, tornou-se numa lei da casa de banho.

3. A direita política escolheu defender a classe média alta, em vez de escolher os pobres.

Sobre a opção preferencial pelos pobres (de que fala a Doutrina Social da Igreja) –  “démodé” no discurso político contemporâneo – esta direita política, já tinha ensinado como cozinhar arroz com atum em lata, num programa da televisão.
4. O papagaio-mor do reino qualquer ele que seja assobiou para o lado.

5.  Sobre um Museu para o Salazar, a direita política deixou cair a máscara do seu saudosismo ditatorial,
Mais uma vez, a direita política demitiu-se da defesa da democracia e da Liberdade e abstendo-se, colocou-se ao lado do Antigo Regime!

Já vimos isto, algures na história…

6. Os pregões da Autonomia das ilhas viram o seu futuro político decidido no Largo do Caldas e em São Caetano à Lapa.

Com tanto “affaire” assim tão afrodisíacos, a comunicação social e o discurso político preferiu assediar o eleitorado discutindo o acessório em vez do essencial ao país.
Talvez os protagonistas do palco político e mediático estejam a praticar a demagogia e a “escamotear a ansiedade fascista que Portugal contém” na expressão de Valter Hugo Mãe, publicada num recente artigo.
Étienne de la Boétie, no “Discurso sobre a Servidão Voluntária ” afirmava que “Atrair o pássaro com o apito ou o peixe com a isca do anzol é mais difícil que atrair o povo para a servidão, pois basta passar-lhes junto à boca um engodo insignificante.”

Já, pela ilha dos irredutíveis autonomistas, onde a fina-flor da sociedade aristocrata apelida o povo de idiota, este povo soberano escolheu, não renovar o absolutismo de uma maioria, que regeu os destinos da ilha nos últimos 4 anos.
A bem da verdade, reconhecendo o passado, é preciso dizer que a atual governação e aquela que se avizinha, dista dos êxitos das concretizações do desenvolvimento social e económico que a ilha vivenciou-se desde 1976 até 2015.

Os desígnios da autonomia de 1976 foram se concretizando gradualmente e cumpriam-se a maioria das promessas feitas ao povo.
Já nos últimos quatro anos, o regime em vésperas da sua primavera, norteou os fundamentos de toda a sua ação na simples propaganda, por sinal pouco original e tão próxima dos regimes totalitários. Já não se cumpre, anuncia-se visceralmente e eleva-se a cenoura à frente dos “idiotas”.

Diz que está tudo bem, mesmo tudo bem. Vejamos…
Temos o melhor sistema de saúde? O novo hospital público está já em funcionamento?
Não há pobreza nem fome na ilha, mas existem mais pessoas a viver na rua. Proliferam as instituições de solidariedade social e multiplicam-se os apoios às mesmas.

Temos superávit orçamental e crescimento económico. Mas, persistem as carências de habitação. Milhares de idosos estão à espera de vaga em lares e milhares de doentes à espera de consultas e cirurgias.
Não nos preocupemos com o Turismo… “O mercado autorregula-se”. Faltam as acessibilidades e assistimos aos sucessivos constrangimentos aéreos e marítimos.
A falência de companhias, de operadoras e agências e a diminuição do número de turistas, acompanham pela proliferação “Dantesca” de mais camas?

Não falemos da Cultura, pois anuncia-se sedutoramente mais museus, mais arte urbana… Mas deixam sem programação os (novos) centros culturais…

Se o poder é afrodisíaco, a Cultura também o é.

Parafraseando Boétie: “Os teatros, os jogos, as farsas, os espetáculos, as feras exóticas, as medalhas, os quadros e outras bugigangas eram para os povos antigos engodos da servidão, preço da liberdade, instrumentos da tirania.”

Tudo controlado. Perguntemos ao povo ou aos “idiotas”?
Este mesmo povo estoico e valente que passado 43 anos desde a conquista da Autonomia, talvez envolto num contentamento descontente, escolheu deixar de exercer a cidadania, contentando-se com simulacro de democracia.

Dos fundadores da Democracia ficam as palavras:
Francisco Sá Carneiro afirmou uma vez que “A política sem risco é uma chatice, mas sem ética é uma vergonha” e Mário Soares “Só é vencido quem desiste de lutar”.
São por estes ideais da Democracia, que sonho, para que não hajam mais gerações submissas.

Porque a minha consciência não tem cor e muito menos preço,
afrodisíaco só mesmo as vieiras.

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