O que queremos nós?

A lista de prioridades que aqui elenco exige novas fórmulas de governança, capazes de ultrapassar as lógicas partidárias e as negociações ‘orçamentais’, porque desligadas de uma visão e estratégia claras, com reflexos numa limitada capacidade transformacional.

No meio da turbulência política gerada pela discussão do Orçamento do Estado para 2022 e pelas diferentes interpretações quanto ao significado e valor da estabilidade, os cidadãos experimentam a sensação de apenas vislumbrar um nevoeiro cerrado.

Pouco se sabe quanto aos reais impactos, económico-financeiros, mas também sociais e reputacionais, desta crise e ainda menos se sabe sobre o que nos espera nas próximas eleições. Aliás, os resultados das sondagens nas últimas eleições autárquicas não deixaram ninguém indiferente. Foi como um mergulho numa piscina, mas sem água. Um estrondo.

Num outro registo, relembramos o choque que sentimos ao ver, há alguns anos atrás, o autocarro preparado por França para festejar a vitória no Campeonato da Europa… Pois, com as devidas cautelas na comparação feita, acabámos de sentir que passámos por algo semelhante. Se no exemplo ‘futebolístico’ nem sondagens ditavam a vitória, no caso das autárquicas esse poderoso instrumento revelou-se um flop…

Nos nossos simples dias, o que queremos?

Que a cultura possa recuperar o papel que deve ter numa sociedade desenvolvida, livre e inclusiva, indo além dos 0,25% previstos no Orçamento do Estado (excluindo a despesa com a RTP) e que mostra uma visão atarracada e frágil sobre a sua ligação com a sociedade. Talvez hoje, mais do que ontem, seja importante assistir a um concerto ou a um espetáculo de dança, visitar uma exposição, um monumento ou um museu, ir ao teatro, ao cinema, ao circo… Ganhar inspiração, libertar os sentidos e ousar criar, cocriar, inovar.

Que a educação, a todos os níveis, seja revalorizada, e com ela o papel dos educadores, dos professores e dos restantes agentes educativos. Recuperar o atraso do país nesta área continua a ser uma prioridade, pelos efeitos que tem na qualificação da população ou nas condições de competitividade.

Que os nossos jovens encontrem perspetivas de trabalho e de realização pessoal e profissional compatíveis com o seu mérito, talento e qualificações, gerando mais oportunidades de desenvolvimento das suas carreiras e com salários mais atrativos.

Que as nossas organizações, sejam empresas ou outras instituições, consigam travar os efeitos do tráfico de influências, da corrupção, da falta de qualidade de gestão e de ética.

Que o sistema nacional de saúde mantenha a sua vocação de público, universal e tendencialmente gratuito.

Que seja possível criar melhores condições de vida, travando a pobreza e as assimetrias.

Esta lista de prioridades exigiria novas fórmulas de governança, capazes de ultrapassar as lógicas partidárias e as negociações ‘orçamentais’, necessariamente parciais e pequenas, porque desligadas de uma visão e estratégia claras, com reflexos numa limitada capacidade transformacional.

E queremos mais coisas. Mas se podemos convergir mais facilmente quanto ao que queremos atingir, o modo como lá chegamos é que nos traz grandes divisões. A tudo isso soma-se a inércia de tantos que tolhe a possibilidade de concretização de iniciativas ou projetos e sobretudo fragiliza o exercício pleno de uma cidadania responsável e ao serviço do desenvolvimento de Portugal, o que inclui votar.

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