O realizador que ganha prémios a criar medo

Ricardo Leite é o único semifinalista português no “Berlin Student Film Festival”. Ganhou o prémio de melhor curta de janeiro no “ShortCutz” Lisboa e no de Viseu. Ainda vai estar em Faro e em Ovar, mas no estrangeiro também, em Cannes, e na Grécia.

Medo! Esta é a palavra de ordem dos últimos tempos e é, também, a palavra que inspirou Ricardo Leite a desenvolver uma história no grande ecrã.
“A Instalação do Medo” é uma curta-metragem de 14 minutos, inspirada no livro de Rui Zink com o mesmo título, que levou Ricardo Leite ao palco do Centro Cultural de Belém (CCB), onde ganhou mais um primeiro prémio, o Sophia Estudante. “Ganhar o prémio Sophia Estudante deu-nos uma sensação de dever cumprido. Era um dos nossos grandes objetivos. O mais curioso é que durante todo o processo era essa a nossa frase de motivação: ‘este filme é para ganhar os Sophia!’”, conta.

Tem 25 anos, nasceu no Porto, onde tirou o mestrado na Escola Superior de Media, Artes e Design, e desde muito pequeno se apercebeu de que gostava de contar histórias. “Muito por influência do meu tio”, diz. Quando chegou a altura de ser tomada a importante decisão, no final do secundário, Ricardo quis, num processo natural, ir para um curso de cinema.

Hoje, ainda se considera um realizador com um estilo “work in progress”. Admite que o que mais o satisfaz é contar boas histórias e que, para isso, junta os ingredientes de quem admira. “Dependendo do que estou a fazer no momento vou procurando inspiração a realizadores diferentes, mas há alguns que, se calhar, são transversais a qualquer projecto: Kubrick, Irmãos Coen, David Fincher”, conta.

A curta metragem, que envolveu na sua produção cerca de 30 pessoas, tem estado em exibição em vários festivais de cinema no país e no estrangeiro, como no “Berlin Student Film Festival”, na capital alemã, ou o “Short Film Corner”, na francesa Cannes, em maio. “A Instalação do Medo” conta apenas com três atores – Margarida Moreira, Nuno Janeiro, Cândido Ferreira – e uma casa. Um cenário intimista que desafiou a projecção das cenas.

“Pensar numa história que se passa só num espaço e dar-lhe um ambiente de tensão, claustrofóbico, e, ao mesmo tempo, interessante em todos os aspetos, foi um grande desafio, não só para mim como para todas as pessoas envolvidas”, diz. Ao ter características distópicas, tiveram de criar esse universo. A escolha do mobiliário, a pintura das divisões e até as paredes tiveram de ser levantadas, para que tudo ficasse “real”.

O filme estreou-se numa altura complicada na Europa, com os ataques terroristas estão cada vez mais presentes na mente das pessoas. “Uma das razões que me levou a querer adaptar o livro foi exactamente essa: vivemos numa época em que o medo está instalado; há um clima de desconfiança e instabilidade, o que faz com que cada vez mais a sociedade se feche para si mesma e, na Europa principalmente, em que temos países a querer fechar fronteiras, países a saírem da União Europeia, e há cada vez mais desunião”, aponta.

O nome do cinema português está mais difundido lá fora do que dentro de fronteiras. O realizador destaca a falta de oportunidades, principalmente para os mais jovens, que estão a tentar começar neste meio, sem financiamento.
“É um problema cultural. Não é só um problema do cinema português, mas em qualquer área os Portugueses tendem sempre a valorizar de outra forma o que é valorizado lá fora, parece que precisamos desse “carimbo de qualidade” para vermos e entendermos realmente o nosso valor”, acrescenta Ricardo Leite.

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