ONG apela restauração a optar por loiça descartável à base de papel: “Não se trata de uma questão económica, mas ambiental”

Mais 177% em emissões de CO2 e um aumento de 267% no consumo de água doce. Estes são os principais valores avançados num estudo divulgado pela European Paper Packaging Association que apela à restauração rápida que opte por embalagens descartáveis à base de papel. “Favorecer loiça reutilizáveis na restauração rápida impactaria significativa e negativamente as alterações climáticas”, diz ao JE.

Um estudo divulgado pela European Paper Packaging Association (EPPA) revela que embalagens de utilização única (descartáveis) feitas à base de papel para alimentos e bebidas usadas em restaurantes de serviço rápido europeus têm menor impacto ambiental do que as soluções reutilizáveis que sejam, em materiais como o plástico, ou vidro ou cerâmica.

A conclusão surge no “Análise ao Ciclo de Vida”(LCA, Life Cycle Analysis, em inglês) realizada pela consultora ambiental dinamarquesa Ramboll que já tem assessorado a Comissão Europeia variados temas ambientais, nomeadamente, a diretiva de plásticos de uso único.

Através do estudo, a consultora concluiu que o consumo de energia envolvido na fase de utilização de plástico reutilizável e das loiças tradicionais, quer sejam de cerâmica ou plástico rígido, nomeadamente na lavagem e secagem no próprio estabelecimento, supera o impacto ambiental da utilização recorrente de recipientes de papel descartável.

Com isto, foi possível apurar que os recipientes reutilizáveis geraram mais 177% de emissões de dióxido de carbono (CO2), consumiram mais 267% de água doce, produziram mais 132% de partículas finas, aumentaram o esgotamento fóssil em 238% e a acidificação terrestre em 72%. do que recipientes de utilização única de papel e cartolina.

Em sentido contrário, o estudo realça que 100% dos recipientes descartáveis de papel existentes fabricados pelos membros da EPPA e utilizados na Europa são provenientes de florestas geridas de forma sustentável, sendo que este têm uma taxa de reciclagem de cerca de 86%, segundo os dados do Eurostat de 2017.

Ao Jornal Económico, Bruno Cocco, diretor de marketing e vendas da Seda Ibérica, uma das empresas fundadoras da EPPA, explica de que forma optar por soluções reutilizáveis em restaurantes de serviço rápido levaria a impactos negativos significativos nas alterações climáticas.

Como pretendem contrariar a tendência atual que promove o recurso às embalagens reutilizáveis?

Não queremos contrariar o reutilizável. O que defendemos é que para ocasião de consumo deverá existir a solução mais adequada, tendo em conta a perspetiva ambiental, de segurança alimentar, a económica e a de experiencia de consumo. Em concreto, na restauração rápida as embalagens mono-uso, conforme demonstra-se neste estudo,  são ambientalmente mais amigas do ambiente. Também defendemos que uma definição de qualquer orientação legislativa, nesta matéria, deverá ter em conta uma análise do impacto ambiental numa perspetiva integral, isto é desde a produção da embalagem até ao seu final de vida, passando nos casos em que é reutilizável pela lavagem e manipulação. Sentimos que neste momento se está a tentar forçar uma tendência através de um enquadramento legal muito genérico e nem sempre com base em factos científicos.

Este estudo foi partilhado com Governos e dirigentes dos principais sectores?

Sim, já iniciámos o processo de partilha deste estudo. Reforçámos que a LCA deve ser considerada um guia para tornar o processo de tomada de decisão uma ferramenta prática e útil para se alcançarem os objetivos do Plano Ecológico Europeu. A idealização por trás da realização da neutralidade de carbono deve ser seguida por uma visão pragmática que avalia as consequências práticas do processo decisório, tornando-o concreto. De uma forma  mais especifica, o Acordo Verde Europeu é um conjunto de iniciativas políticas da Comissão Europeia com o objetivo abrangente de tornar a Europa neutra em 2050.  A análise a da Ramboll fornece evidências significativas que os Governos devem usar para se construir uma estrutura sobre a mudança para um futuro neutro em carbono. O documento mostra que favorecer loiça reutilizáveis na restauração rápida impactaria significativa e negativamente as alterações climáticas, nomeadamente no consumo de água doce, no esgotamento fóssil, na formação de partículas finas e na acidificação terrestre ao nível da UE, em comparação com a solução de loiça renovável de uso único atualmente em uso.

Qual foi a reação?

Ainda não tivemos um reação formal. Acreditamos que, pela natureza do estudo, que o Governo terá em linha de conta os factos evidenciados no estudo para qualquer enquadramento legislativo neste matéria.

Uma aposta nas embalagens de papel de utilização única significa uma redução dos custos para o sector da restauração e comércio alimentar?

Tendo em conta a urgência ambiental em que necessitamos todos de estar, não se trata de uma questão meramente económica, mas sim primariamente ambiental. É claro que o económico tem peso, mas pense por exemplo num centro comercial e no espaço limitado que os operadores têm e as rendas subjacentes, e o que seria o passar de um modus operandi baseado em embalagens mono-uso, para embalagens reutilizáveis que necessitariam de ter um circuito fechado de manipulação, lavagem e nova manipulação. Embalagens que seriam ambientalmente, conforme demonstramos no estudo da Ramboll, que têm um impacto ambiental maior. A acrescer a este temos a questão da saúde publica, de facto, no contexto pandémico atual, deve-se dar prioridade às considerações ambientais, de higiene e segurança alimentar, minimizando os riscos decorrentes de contaminações cruzadas. As embalagens de uso único desempenharam e continuarão a desempenhar um papel crucial na contenção de riscos à saúde durante a pandemia Covid-19, como recentemente destacado também pela Agência Europeia do Meio Ambiente (EEA).

Que países apostam mais nas embalagens de papel de utilização única e que países dependem mais da loiça reutilizável? Qual é o cenário em Portugal?

Mais que uma questão geográfica é uma questão de ocasião e consumo. Isto é, na hotelaria e na restauração tradicional faz sentido o uso do reutilizável, pois tal está associado a uma experiencial de consumo própria, e todo o material utilizado está num circuito fechado supostamente com a máxima eficiência de lavagem, pois é neste processo de lavagem que o impacto ambiental tem mais peso. Já no conceito de restauração rápida, há uma experiência de consumo em ambiente descontraído entre famílias e amigos e/ou na conveniência  que assenta em embalagens mono-uso, com vantagens económicas, e conforme explica o estudo há uma clara vantagem ambiental em usar este tipo de embalagens. Adicionalmente, o uso do reutilizável no sector de restauração rápida iria gerar um impacto económico muito negativo, pela remodelação de espaços, pela necessidade de equipamentos de lavagem e pelos consumos elétricos e de agua associados.

Considera que a perceção atual às embalagens de utilização única deve ser corrigida?

Hoje há uma demonização do uso único das embalagens sem considerar o papel fundamental que desempenham. De facto, as embalagens desempenham um papel vital na preservação dos alimentos e na disponibilização, garantindo o armazenamento, a vida útil e a disponibilidade no transporte de longo curso, mesmo em países com escassez de alimentos. Globalmente, cerca de 14% dos alimentos produzidos são perdidos entre a colheita e a distribuição. A perda de alimentos e o desperdício equivalem a perdas significativas de recursos, incluindo água, terra, energia, trabalho e capital, levando às emissões de gases de efeito estufa, contribuindo para as mudanças climáticas. O desperdício de alimentos é responsável por cerca de 6% das emissões globais de gases de efeito estufa.

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