Polémicas nacionais

As reações ao artigo da historiadora Fátima Bonifácio trouxeram uma certeza: criámos um ambiente social de tolerância, no qual o problema do racismo é levado a sério.

1. Parece ser moda dizer que existe racismo à solta em cada uma das esquinas das nossa vilas e aldeias. É isso e afirmar que os homossexuais são constantemente perseguidos e discriminados. E que, de uma forma geral, as diferenças em relação às opções dominantes, passando pela inevitável religião, não são toleradas em Portugal.

Pois pode ser moda, induzida por quem procura fascistas com a mesma lógica da caça aos pokémons – mas não é verdade.

Nunca conheci, nas minhas andanças pelo mundo, uma sociedade mais tolerante do que a nossa. Quem tiver viajado por África, pelos diferentes espaços asiáticos (excetuando Japão e Coreia do Sul) e pelos Estados Unidos saberá do que estou a falar. Os melhores exemplos estão todos na Europa, que lidera o mundo nas preocupações sociais de toda a ordem. E, mesmo nesta nossa Europa, há igual mas não há melhor, por muito que às vezes tenhamos a tentação de generalizar situações a partir de lamentáveis casos concretos, que sempre existirão como existirá o crime.

Podemos, e devemos, enquanto comunidade, ter orgulho na nossa realidade. A História construiu um Portugal multirracial. Temos um Estado laico. Vivemos numa sociedade que, de uma forma geral, cada vez lida melhor com as diferentes opções sexuais.

Aliás, a polémica em torno do artigo da historiadora Fátima Bonifácio trouxe essa certeza: criámos um ambiente social de tolerância, no qual o problema do racismo é levado a sério. Não vejo o negacionismo de que fala a ministra Francisca Van Dunem, com certeza com a melhor das intenções e certamente com mais conhecimento de causa do que eu. Mas só posso falar do que eu, homem branco, português, vejo.

E o que vejo, no dia a dia, fora da política e do espaço mediático, e em múltiplas situações, é a consciência de que, sobretudo a partir da escola, é necessário trabalhar permanentemente num país sempre mais inclusivo, baseado no mérito, na igualdade de oportunidades e sem preconceitos, de pele ou outros.

Só por isso, deixando a esquerda e a direita a jogarem o seu demagógico campeonato particular, às vezes muito tonto, valeu a pena a discussão sobre o texto que o “Público”, à luz do seu Estatuto Editorial, tinha razões de sobra para não publicar. Mas ainda bem que publicou.

2. As redes sociais sobressaltaram-se também com a ‘entrevista’ de Cristina Ferreira a Maria das Dores, uma mulher que está presa por ter mandado matar o marido. Aproveito para estabelecer as necessárias diferenças em relação à publicação do artigo de Fátima Bonifácio no “Público”.

Primeiro, Cristina Ferreira é uma comunicadora reconhecida, como as audiências comprovam, mas não é jornalista, não tem carteira profissional nem está sujeita a qualquer Estatuto Editorial específico nos seus programas de entretenimento. O contraditório, quando é ensaiado,  faz-se em ‘português suave’ e sem submissão a regras de deontologia profissional.

Do que tenho verdadeiramente pena é que nenhum jornalista se tenha lembrado de entrevistar Maria das Dores. É uma história, ponto. Digo, desde já, que veria, ou leria, uma entrevista com o criminoso norueguês Anders Breivik. Não teria qualquer receio de que ele me pudesse convencer da bondade da matança assassina de 77 pessoas, na maioria jovens, que protagonizou nas explosões de Oslo e no tiroteio da ilha de Utoya, em 2011.

Aliás, se alguma coisa fica de preocupante nestes dois casos que abalaram a santa calmaria da vida nacional, o principal, porventura, é a sensação de que há uma certa sociedade portuguesa pouco dada à pluralidade, a ouvir opiniões contrárias, e muito insegura nas suas ‘convicções’.

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