O debate sobre os veículos elétricos está a tornar-se mais ideológico do que técnico. E isso não ajuda nem a indústria, nem o consumidor, nem — sejamos claros — o planeta.
Vivemos tempos em que a radicalização das posições parece ter-se tornado o novo normal. A polarização — tão visível na política, nas redes sociais ou em temas que poderíamos considerar civilizacionais — alastrou-se a quase todas as esferas da vida pública.
Hoje, qualquer assunto parece condenado a ser abordado numa lógica binária, como se estivéssemos sempre perante um clássico Benfica vs. Sporting. E o setor automóvel, ao contrário do que muitos poderiam imaginar, não escapou a essa “futebolização” do debate.
Escrevo este artigo impulsionado por uma notícia recente: o governo alemão, através do seu chanceler Friedrich Merz, criticou de forma veemente uma proposta da Comissão Europeia, que pretende impor a eletrificação total das frotas de rent-a-car e grandes empresas até 2030.
Merz foi particularmente duro, classificando a medida como “desconectada das realidades económicas e práticas” e até como “estúpida”. A resposta nas redes sociais foi ainda mais ruidosa. Muitos opinion makers não hesitaram em ridicularizar o chanceler alemão, tratando qualquer crítica à mobilidade elétrica como se fosse um ato de heresia tecnológica e civilizacional.
Assistimos à formação de tribos digitais e ideológicas, mesmo num setor onde o pragmatismo e o realismo sempre foram caraterísticas fundamentais. Hoje, parece que só existem duas fações possíveis:
– Os fanáticos dos “popós” a combustão, que se agarram à nostalgia e à liberdade individual;
– E os crentes absolutos na causa elétrica, que veem qualquer resistência como ignorância ou atraso civilizacional.
Chegámos ao ponto de vermos surgir uma espécie de “Sofistas da Mobilidade Elétrica” — mestres da retórica ideológica — em confronto direto com os “Homens das Cavernas da Combustão”. A caricatura pode fazer sorrir — mas devia também fazer pensar. Porque, tal como na política, a transição energética e a mobilidade sustentável não se constroem com fanatismos nem com certezas absolutas. Precisam de equilíbrio, de análise racional, de escuta mútua e de espaço para os diferentes “tons de cinzento” entre o preto e o branco.”
E, nesse sentido, a “curva de adoção da inovação” é um conceito essencial: nenhuma tecnologia, por mais promissora que seja, se impõe de forma uniforme ou instantânea. Há sempre pioneiros e resistentes, entusiastas e céticos, condições favoráveis e obstáculos reais. Ignorar esta diversidade de ritmos e realidades não é apenas pouco sensato — é contraproducente. Porque insistir em forçar a unanimidade numa curva que, por natureza, é assimétrica, não é acelerar a transição — é comprometer a sua sustentabilidade.
No fim de contas, o que o setor automóvel precisa — e o que a sociedade como um todo ganharia — é que deixássemos de vestir camisolas ideológicas sempre que se fala de futuro. Porque esse futuro, se o quisermos fazer funcionar, terá inevitavelmente de ser construído em conjunto.


