Roberto Dias Duarte: “Portugal tem um potencial exportador gigantesco de serviços de contabilidade”

Roberto Dias Duarte diz que as firmas nacionais podem tornar-se as maiores fornecedoras de serviços contabilísticos da Europa. Mas existem obstáculos.

Os escritórios de contabilidade nacionais têm condições para se tornarem nos maiores fornecedores de serviços contabilísticos da Europa, mas questões de mindset e de crescimento interno das organizações constituem obstáculos que limitam o desenvolvimento desse potencial.

De Belo Horizonte, no Brasil, Roberto Dias Duarte falou com o Jornal Económico sobre o panorama do mercado português de contabilidade. Especialista na definição de estratégias de maximização do valor das empresas, tendo já realizado mais de mil palestras e sessões de formação em Portugal, no Brasil e nos Estados Unidos, Dias Duarte diz que “Portugal tem um potencial exportador gigantesco de serviços de contabilidade porque tem profissionais altamente qualificados e muitas vezes dominam várias línguas e tem um custo de operação menor do que outros países”.

À escala mundial, existe uma tendência que se prende com o que o especialista brasileiro denomina de “outsourcing do outsourcing”, isto é, firmas de contabilidade que contratam outras, por vezes de outros países, para desempenharem tarefas mais operacionais, como o cálculo de impostos ou processamento de salários. Os escritórios de contabilidade que contratam estes serviços a outras empresas tornam-se, pois, “mais focados em tarefas de alto valor”, como serviços de consultoria especializada. “Esta tendência, desconheço em Portugal”, observa Dias Duarte. “O mercado português não aproveita as oportunidades para exportar serviços”.

O especialista de Belo Horizonte assinala que isto se deve a um problema de “mindset” que, de resto, não se cinge apenas à profissão do contabilista, mas antes “às profissões intelectualizadas”, como médicos ou engenheiros, e é transversal ao mercado empresarial português. “O principal obstáculo ao desenvolvimento do potencial português, enquanto exportador de serviços de contabilidade, é o mindset, porque não é empreendedor”, diz Dias Duarte. “Os profissionais que têm profissões intelectuais, como o contabilista, normalmente são muito focados no seu trabalho core e interessam-se pouco por outros domínios, como por exemplo o marketing ou a gestão de pessoas. É um fator limitativo em tornar Portugal no maior fornecedor de serviços contabilísticos para toda a Europa. É preciso pensar como um empreendedor”, explica.

O caso torna-se ainda mais relevante quando se pensa no volume de negócios global do mercado de contabilidade.

“O mercado de serviços contabilísticos do mundo tem uma faturação anual de 570 mil milhões de dólares e tem crescido 6%. É um mercado em franca expansão”, vinca o especialista brasileiro.

Há, no entanto, outro fator que limita o crescimento das empresas de contabilidade portuguesas que, em última análise, é também um obstáculo à sua conquista de outros mercados, e que se prende com a dificuldade de captar e reter talento.

A nível mundial, o mercado de serviços contabilísticos “não cresce mais por alta de profissionais qualificados nas chamadas hard skills e soft skills”, explica Dias Duarte. “O antigo chairman da Disney, Michael Eisner, dizia que se a empresa não está a crescer, então está a morrer. Dizia isso porque os bons profissionais talentosos também querem crescer dentro das empresas. Se as empresas não crescem, não abrem oportunidades para os colaboradores. O que acontece é que eles mudam de emprego, de empresa ou de país”.

Para Dias Duarte, esta tendência está intimamente ligada à necessidade de mudança de mindset, que torna o trabalhador num profissional empreendedor. “Esta mudança de mindset de profissional para empreendedor é fundamental para a empresa reter o talento e exportar serviços para fora de Portugal. O escritório de contabilidade tem de investir em marketing, vendas e comunicação para crescer”.

Consolidação vai acontecer mais cedo ou mais tarde
O mercado de contabilidade português, como qualquer mercado, é dinâmico, havendo espaço para a sua consolidação. “Sem dúvida nenhuma”, vinca o consultor brasileiro. “É também uma tendência global que se aplica a Portugal. Tenho-a observado empiricamente com em Portugal porque falo frequentemente com contabilistas portugueses e quero fazer um estudo que a comprove cientificamente”, diz.

Dias Duarte explica que “existe uma teoria segundo a qual, mais cedo ou mais tarde, a consolidação acontece em qualquer mercado”. Acontecerá através de fusões ou aquisições, internacionais ou nacionais, que visam “ganhar escala, expandir geograficamente a operação ou adquirir especialização em segmentos do mercados”, afirma.

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