Carlos Moedas: “Portugueses devem ir buscar mil milhões aos apoios à inovação”

As candidaturas nacionais ao programa Horizonte 2020 devem obter mil milhões de euros de apoios, prevê o comissário europeu, que já propôs ao Parlamento Europeu um novo programa com 100 mil milhões de euros.

“Os projetos portugueses elegíveis no âmbito do Programa Horizonte 2020 devem ir buscar cerca de mil milhões de euros, o que é o dobro do que obtiveram anteriormente em apoios à investigação e inovação”, antecipou ao Jornal Económico o comissário Carlos Moedas. Ex-secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, no XIX Governo Constitucional, entre 2011 e 2014, Carlos Moedas é o comissário com a pasta da Investigação, Ciência e Inovação, responsável pelo maior programa-quadro de sempre de investigação e inovação da União Europeia – o Horizonte 2020, dotado com cerca de 80 mil milhões de euros entre 2014 e 2020. Para dar continuidade ao seu trabalho, solicitou ao Parlamento Europeu o prolongamento deste programa por mais sete anos e o reforço da sua futura dotação para 100 mil milhões de euros.

As verbas da Comissão Europeia destinadas a apoiar projetos de I&D candidatados ao Programa Horizonte 2020 – um bolo de 80 mil milhões de euros destinado à investigação e inovação – fizeram a diferença para Portugal? Foram catalizadoras da investigação científica, do desenvolvimento de projetos tecnológicos e da inovação portuguesas?
Sim, é verdade. Permitiram que Portugal desse um salto quantitativo e qualitativo considerável. Ao nível das universidades, da ciência, e da produção industrial, que incorpora agora alta tecnologia e é distinguida a nível internacional pelos produtos feitos em Portugal que estão entre o que de melhor se fabrica a nível mundial.

Que impactos concretos tiveram os fundos de I&D atribuídos aos projetos portugueses?
Tiveram dois impactos muito importantes. Junto dos cientistas portugueses – que valorizaram a ciência portuguesa e projetaram o seu trabalho no mundo, colocando-se entre os melhores dos melhores –, que, assim, tiveram portas abertas para trabalharem nos projetos científicos mais reputados a nível internacional, depois de terem recebido esse selo de excelência que é o financiamento da Comissão Europeia que atesta o mérito dos projetos candidatados ao Programa Horizonte 2020. E, também, junto das empresas, que podem apresentar a garantia de terem sido financiadas pela Comissão Europeia, o que por si só é relevante para obtenção de financiamentos privados complementares. Os casos de startups como a Feedzai – presidida por Nuno Sebastião –, são bons exemplos disso. Esta empresa de ciência de dados especializou-se na deteção de fraudes no comércio omnichannel através da investigação e desenvolvimento da tecnologia de machine learning, que analisa fluxos de big data que identificam transações fraudulentas, minimizando riscos no setor financeiro. A União Europeia mostra que consegue ser um catalizador de I&D no trabalho dos cientistas e das empresas que se distinguem pela inovação. Digamos que é uma Europa invisível que tem impactos concretos no desenvolvimento do conhecimento científico e na promoção de empresas de alta tecnologia. Portugal afirma-se neste quadro pelo mérito dos projetos candidatados.

Esses apoios públicos ajudaram a captar verbas privadas para os projetos de I&D?
Exatamente. Isso acontece quando o conhecimento científico é transformado em produtos de mercado. Os financiamentos públicos são mais vocacionados para apoiar a investigação científica. Mas quando as ideias da ciência chegam aos mercados promovem alianças entre os dinheiros públicos e os privados, porque os capitais privados estão vocacionados para financiar as soluções industriais que podem produzir produtos com potencialidade de serem comercializados.

Atendendo ao sucesso do Programa Horizonte 2020, é expectável que a Comissão e o Parlamento Europeu lancem uma nova edição, com reforço de dotações?
Tenho vindo a trabalhar nesse sentido, para obter o acordo do Parlamento Europeu em relação a um novo programa que possa vigorar por mais sete anos, com uma dotação que passe dos 80 mil para os 100 mil milhões de euros, cabimentado pelos próximos quadros financeiros plurianuais.

Além do reforço das verbas destinadas ao quadro Programa Horizonte 2020 dedicado à Investigação, Ciência e Inovação – conforme foi concebido pela presidência da Comissão Europeia ao tempo de Jean-Claude Juncker – este pelouro já foi alargado com novas valências…
O apoio à investigação, fundamental na área da ciência, beneficia do trabalho feito no âmbito do ERC – European Reseach Council, que será complementado pelo Conselho Europeu da Inovação e por uma nova forma de entender e divulgar a inovação enquanto marca única.

E Portugal mudou com as preocupações da Comissão em matéria de inovação?
Portugal registou uma evolução enorme nos últimos dez anos. O país já não centra os seus interesses exclusivamente nos fundos estruturais e nos fundos de coesão. Há questões muito relevantes que têm resposta nos fundos destinados a apoiar a Investigação & Desenvolvimento (I&D). Os empresários sabem que a inovação é decisiva para o sucesso dos produtos nos mercados e que os fundos disponíveis para apoiar a I&D são fundamentais para assegurar o futuro das empresas. Portugal contribuiu para dotar os fundos europeus com verbas destinadas à investigação e à inovação, e até 2014, os portugueses foram buscar cerca de 500 milhões de euros para este fim. Mas agora prevemos que possam chegar aos mil milhões de euros no Programa Horizonte 2020. Ou seja, podem ir buscar o dobro, o que comprova a importância dos apoios à inovação.

Qual é o maior cliente português destes apoios da Comissão?
Claramente a Universidade do Minho, pois tem uma ligação forte ao meio empresarial. Esta é a única estratégia possível para Portugal, onde inovação e tecnologia terão de compensar as limitações em recursos naturais, que são inferiores aos recursos existentes em outros países da UE. O exemplo de Israel é importante para Portugal, porque é um país que não tem petróleo, onde a paisagem dominante é o deserto, e que recorre à inovação e à tecnologia para afirmar os seus produtos nos mercados internacionais.

As universidades portuguesas já têm uma relação consolidada com o setor empresarial que garanta a transferência imediata da inovação do meio académico para a gestão que contacta com os consumidores?
Ao nível das Pequenas e Médias Empresas (PME) isso ainda não acontece de forma rotinada. Mas julgo que a tendência será para um maior contacto entre as PME e as universidades.

É relevante para Portugal o facto da Comissão com este pelouro ser presidida por um português?
Tenho orgulho de ter feito um trabalho que deu resultados evidentes, contribuindo para o aumento da Investigação, Tecnologia e Inovação nas empresas portuguesas. O desenvolvimento tecnológico de boa parte das indústrias portuguesas permitiu um avanço impressionante nos últimos anos, com casos de sucesso reconhecidos a nível mundial, sobretudo na indústria de componentes automóveis. Isso permitiu aumentar a contratação de mão de obra altamente qualificada. Atualmente, a engenharia nacional tem um nível de excelência que permitiu captar para Portugal projetos de alta tecnologia. É evidente que a economia portuguesa está muito mais desenvolvida, mais flexível e mais moderna. O trabalho e o esforço feito pelo país durante a crise – na intervenção da troika –, alteraram as estratégias das empresas. E a própria Web Summit também contribuiu para aumentar a importância da inovação nas empresas.

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