“Portugueses estão a começar a ficar menos conservadores na exposição ao risco”

Para obter retorno mais elevado, os portugueses estão dispostos a investir em ações, vinca João Pratas, presidente da Associação Portuguesa de Fundos de Investimento e Pensões e Patrimónios (APFIPP). Desempenho dos fundos no resto do ano depende muito da eventual segunda vaga da pandemia.

Como é que classifica o desempenho dos fundos de investimento disponíveis em Portugal, tanto em termos de retornos como de fluxos de subscrições? Que categorias de destacaria?
No que respeita aos retornos, o desempenho dos fundos de investimento está intimamente relacionado com os activos e os mercados em que investem, pelo que, naturalmente, o desempenho recente está negativamente afectado pela pandemia causada pela Covid-19 e pelo impacto que a mesma causou na economia e, naturalmente, nos mercados financeiros.

Houve uma queda muito acentuada no mês de março, mas, desde então, temos assistido a uma recuperação, em linha com que se tem observado nos principais mercados. De facto, considerando os três meses terminados em 30 de junho, existem vários fundos com rendibilidade efectiva superior a 10%, ainda que, no período desde o final de 2019, a maioria ainda apresente uma rendibilidade negativa.

São sobretudo os Fundos com maior exposição ao segmento acionista que foram mais afectados, quer na redução de rendibilidade observada no mês de março quer, posteriormente, na recuperação que se tem verificado desde então.
No que respeita aos fluxos de subscrições, e numa altura em que ainda aguardamos pelos resultados de junho, o saldo neste ano é negativo em 86 milhões de euros, influenciado por um maior volume de resgates observados em março deste ano, quando se verificou um saldo negativo de quase 600 milhões de euros de subscrições líquidas.
Os meses de janeiro e, em especial, fevereiro deste ano foram particularmente positivos, com subscrições líquidas de 172 milhões de euros e de 367 milhões de euros, respectivamente. Maio voltou a ser um mês positivo, com entradas líquidas de 38 milhões de euros.

Notamos, desde 2019, um aumento da procura por PPR e, também, por fundos multi-activos, as categorias mais procuradas pelos aforradores nacionais, correspondendo, igualmente, às categorias com maior volume de ativos sob gestão. Ou seja, parece começar a inverter-se o padrão de elevado conservadorismo nas aplicações dos portugueses que, em busca de um retorno mais elevado, estão dispostos a investir em produtos com alguma exposição ao mercado acionista.

 

Como é que a pandemia de Covid-19 e as respostas das autoridades (políticas e monetárias) afectaram o desempenho?
A Covid-19 provocou um abrandamento repentino e significativo na economia mundial, com um impacto muito relevante ao nível dos rendimentos esperados das empresas, cuja real dimensão, não apenas até ao momento presente, como nos próximos meses, ainda está por apurar. O confinamento decretado em muitos países, um pouco por todo o mundo, levou ao encerramento temporário de muitas empresas e os mercados reagiram imediatamente, nos meses de fevereiro e março, com uma queda significativa dos preços o que, obviamente, se repercutiu no desempenho dos fundos.

Conforme referido os meses seguintes trouxeram recuperações significativas dessas perdas iniciais mas admite-se que no actual quadro, seja ainda cedo para determinar qual vai ser o sentido de evolução nos tempos próximos.
São três, pelo menos, os factores que serão determinantes, embora o respectivo peso seja ainda desconhecido. Primeiro, as reaberturas das economias mundiais. Segundo, as ajudas públicas à economia a nível mundial (as autoridades quer da UE quer dos EUA apresentaram planos muito significativos de apoio que terão, nesta fase, dado alguma confiança aos mercados). Em terceiro, o interesse dos investidores em comprar ações de empresas que, em princípio, terão quedas nos seus resultados face ao passado recente em contraposição à dívida que indicativamente terá uma remuneração ainda mais baixa do que tem tido.

Relativamente à resposta política, tem sido muito diferente a nível mundial. Em Portugal, penso que a forma de enfrentar um problema que se desconhecia (1918 aconteceu há muito tempo), foi bastante boa a todos os níveis designadamente porque os vários órgãos de soberania (Presidência, Governo e oposição) foram em termos gerais cooperantes com as opções tomadas. As autoridades foram céleres em implementar medidas mitigadoras dos efeitos negativos da pandemia, designadamente, instituindo maiores apoios sociais, simplificando o regime de lay-off e expandindo o sistema das moratórias.

A nível europeu, a Comissão Europeia aprovou um plano de apoio às economias que é muito significativo e robusto, esperando-se que o Conselho Europeu chegue a acordo sobre o mesmo, em reunião agendada para a próxima semana.

Naturalmente que estas medidas, sustentaram, de algum modo, os rendimentos das famílias nesta fase, evitando um impacto ainda mais negativo na economia e no desempenho das empresas mas, infelizmente, o problema não acabou e a gestão rigorosa terá que continuar. Agora num equilíbrio complexo de abertura (necessária) da economia e no controlo da doença.

 

Como é que estes e outros fatores poderão influenciar o desempenho dos fundos no segundo semestre?
A evolução da Covid-19 irá, seguramente, continuar a condicionar os mercados financeiros e, por essa via, o desempenho dos Fundos de Investimento, não apenas os que investem em valores mobiliários, mas, também, os Fundos Imobiliários. Se a descoberta de uma cura eficaz e/ou de uma vacina nos próximos meses, poderá significar uma recuperação económica mais célere, uma eventual segunda vaga poderá ter efeitos muito negativos nos cidadãos e na economia.

Por outro lado, o real impacto da Covid-19 para as empresas ainda está por apurar. Muitas estão a sofrer com a contração económica e as restrições à circulação de pessoas e bens. Os lucros vão seguramente ser afectados e muitas empresas terão de entrar ou já entraram em processos de restruturação ou mesmo encerrar.

A forma como as empresas se adaptarem a esta nova realidade será vital para a sua sobrevivência. A economia digital sairá, seguramente, reforçada desta crise e serão as empresas mais avançadas nesta vertente que estão melhor apetrechadas, não apenas para conseguir vencer a crise como a sair mais reforçadas.

No que se refere à gestão de ativos, compete aos gestores, como sempre, tentar identificar, na actual conjuntura, os sectores e as empresas que reúnem as melhores condições de sucesso.

 

Como é que vê o outlook para o índice PSI 20? Acha que as ações nesse índice e outros ativos portugueses podem ser boas apostas para os fundos?
Um dos sectores que tem apresentado maior dinamismo, nos últimos anos, na economia nacional é o turismo, sector que tem sido dos mais afectados pela pandemia Covid-19. A recente não inclusão de Portugal nos corredores aéreos que estão a ser abertos por alguns países europeus contribui, ainda mais, para agudizar a crise com que todos os agentes directamente relacionados com este sector se têm confrontado nos últimos meses.

Apesar de, no PSI-20, não existirem empresas que se dedicam, em exclusivo, ao sector do turismo, não deixarão de ser afectadas pela quebra de um sector que tem um papel preponderante na criação de riqueza e no emprego. Neste aspecto, a velocidade com que Portugal consiga estar presente na lista de corredores aéreos será preponderante.
Adicionalmente, Portugal é uma economia aberta, inteiramente aberta no mercado europeu, pelo que o desempenho das empresas nacionais e, bem assim, das que se encontram cotadas no PSI-20 dependerá, ainda, em larga medida, do que venha a ser o comportamento económico e o desempenho dos mercados financeiros nos restantes países da União Europeia.

 

Como é que os portugueses estão a reagir às consequências económicas da pandemia do ponto de vista da gestão das poupanças e do investimento?
O Eurostat divulgou recentemente os dados da evolução da poupança das famílias da zona euro, no primeiro trimestre deste ano, evidenciando um máximo de 5 anos, com uma taxa de poupança de 16,90%.

As famílias portuguesas acompanharam esta tendência, tendo a taxa de poupança atingido os 8,79%, um pouco mais de metade da média dos nossos parceiros europeus. Esta subida já vem sendo notada desde o primeiro trimestre de 2019, em que este indicador apresentava um valor de 5,87%, mas estamos ainda longe da média europeia e, tendo o impacto da pandemia sido mais evidenciado a partir de março, creio que este aumento da poupança não estará ligado com a actual crise.

Ainda assim, a teoria económica e os dados históricos demonstram que, em épocas de crise e de maior incerteza há uma maior preocupação com a poupança. É certo, porém, que uma eventual diminuição do rendimento disponível (resultado do lay-off ou mesmo de situações de desemprego provocados pela Covid-19) se traduz, necessariamente, numa menor capacidade de poupar, já que há bens essenciais dos quais não é possível prescindir. Temos, pois, que aguardar por mais dados para compreender qual o impacto desta pandemia, também ao nível da poupança das famílias.

No que diz respeito, em particular, à poupança aplicada em fundos de investimento e, muito particularmente, em fundos nacionais, também ainda é cedo para retirar conclusões. Por um lado, como referi anteriormente, no mês de março, em que a pandemia atingiu Portugal e foi decretado o estado de emergência, tivemos um volume muito elevado de resgates. O mês de abril, apesar de negativo, já denotava uma maior tranquilidade por parte dos investidores e maio voltou a ser positivo, em termos de subscrições líquidas.

Os fundos de investimento, pelas suas características, designadamente, gestão profissional e diligente, supervisão atenta e elevada transparência e liquidez, possuem as características ideais para aplicação das poupanças. O facto de, em Portugal, ao contrário de outras jurisdições, não se ter assistido ao encerramento de subscrições em fundos nem ao cancelamento de resgates reforça a confiança que deve ser depositada nos fundos nacionais.

 

O que é que a APFIPP gostaria de ver melhorado na regulação e da fiscalidade dos fundos de investimento em Portugal?
A regulação da actividade de gestão de ativos e, particularmente, de fundos de investimento, deriva, em grande medida de legislação emanada pelas instituições da União Europeia (directivas e regulamentos) que tem aplicação em todos os países da UE.

Na medida em que essa mesma legislação permite, posteriormente, que os fundos domiciliados num qualquer estado-membro, possam ser livremente comercializados nos restantes, o que temos vindo a pedir, há muito tempo a esta parte, às autoridades competentes (governo e reguladores) é que não sejam impostos aos fundos e gestores nacionais requisitos mais exigentes do que os que vigoram noutras jurisdições porque tal tem um impacto prejudicial na nossa capacidade de competir concorrencialmente com os fundos e gestores dessas jurisdições.

Devo notar, contudo que verificamos, com agrado, que tem havido uma preocupação das autoridades competentes em eliminar esse gold-plating.

No que diz respeito à fiscalidade, houve uma reforma significativa em 2015, que mudou o paradigma vigente de tributação na esfera do fundo para uma tributação à saída, na esfera dos investidores, o que veio permitir, a esse nível, que os fundos nacionais concorram em pé de igualdade com os milhares de fundos estrangeiros que são comercializados no nosso território.

Há, ainda assim, duas situações que carecem de ser revistas: em primeiro lugar, a adopção de uma fiscalidade equivalente à de outros instrumentos de aforro. Para evitar arbitragens fiscais, ou seja, a escolha de determinados produtos de investimento motivada, apenas, pelo regime de tributação mais favorável e não porque estes se adequem melhor às características do aforrador, é absolutamente fundamental que o enquadramento tributário seja equitativo e que os participantes em fundos de investimento beneficiem da mesma redução da base de tributação que se verifica nesses outros produtos, quando o investimento seja detido por mais de 5 e 8 anos.

Noutra vertente, o investidor não deverá ser tributado quando altera a sua alocação entre diferentes fundos, pelo que deveria ser implementado um mecanismo, à semelhança do que sucede em Espanha, em que a tributação ocorresse apenas quando existe um efectivo resgate pelos Participantes, permitindo que não incidisse tributação nas transferências entre Fundos.

 

Como é que a APFIPP vê e antevê a crescente importância dos critérios ESG no mercado, tanto a nível europeu e internacional?
A temática do investimento sustentável não é, no entender da APFIPP, uma moda passageira. É uma tendência que veio para ficar e ainda bem que assim é.

As matérias ambientais, sociais e de governação são importantes para garantir a sustentabilidade de longo prazo das empresas, do meio ambiente e das pessoas.

Os mercados incluem-se num ecossistema mais vasto e não podem manter-se à parte desta problemática, devendo, pelo contrário, ser parte da solução, contribuindo para que sejam canalizados os recursos económicos indispensáveis para as empresas e projectos que mais contribuem para este verdadeiro desígnio global que é o de garantir o bem estar social e económico de todos os que habitam neste planeta. A nível regulatório vai contudo, ter implicações significativas para toda a indústria, porque é uma matéria muito complexa. A incorporação de factores ESG na gestão de fundos e pensões é imposta pela regulamentação europeia que, em breve, entrará em vigor, mas será uma exigência crescente por parte dos investidores, impelindo os gestores a ser cada vez mais exigentes nestes domínios. A APFIPP e a sua direção, por considerar o investimento sustentável como uma das suas prioridades – e face à complexidade do tema – promoveu já este ano, duas formações para as associadas sobre esta matéria.

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