Precariedade laboral: vidas em suspenso, economia em suspenso

Esta generalização da instabilidade laboral, que afecta com toda a força as gerações mais jovens independentemente do seu passado académico, tem colocado em suspenso não só milhares de vidas, como toda uma economia nacional e regional.

No meu primeiro artigo de opinião para o Jornal Económico decidi que deveria falar num tema que fosse particularmente relevante para mim, para a minha geração, mas também para a economia. De entre todas as opções que me vieram à cabeça a precariedade laboral é o tema que considero que mais impacto tem tido na vida das gerações de que eu faço parte e que neste espaço vou tentar representar. Falar de emprego e precariedade laboral não é fácil, porque é um problema com múltiplas causas e múltiplas soluções de acordo com as nossas diferentes visões para o futuro. Porém se é verdade que não é um tema fácil, é também verdade que é um tema que dado o atraso na possibilidade de vida independente para milhares de jovens merece, no meu entender, um muito maior debate social e político. É nesse sentido que vou tentar fazer esta reflexão.

Apesar de todos nós facilmente identificarmos o que é precariedade laboral, talvez seja relevante apresentarmos uma definição simples do que é este conceito que estamos aqui a abordar. Precariedade laboral será então, de acordo com Martin Olsthoorn, as situações laborais que resultem na vulnerabilidade dos trabalhadores (por exemplo a sua dependência de terceiros: pais, companheiros, etc.) devido à instabilidade laboral (imprevisibilidade do tempo do contrato ou do salário) e/ou falta de protecção social em situações de risco. Para todos nós, é imediato pensarmos em alguém numa situação destas. Todos nós temos familiares, amigos ou conhecidos numa situação de precariedade laboral e é até bastante provável que vários dos leitores que estão agora a ler este texto possam estar numa situação no mínimo semelhante. Esta generalização da instabilidade laboral, que afecta com toda a força as gerações mais jovens independentemente do seu passado académico, tem colocado em suspenso não só milhares de vidas, como toda uma economia nacional e regional.

A primeira consequência destas vidas em suspenso é o atraso no início da vida independente dos jovens, que leva a um adiamento do nascimento do primeiro filho e que tem impacto directo no número de filhos que cada família terá e consequentemente põe em risco a sobrevivência do nosso sistema de segurança social como o conhecemos hoje! O envelhecimento da população Portuguesa deve-se, cada vez mais, à cada vez menor natalidade e essa falta de novas crianças, futuros contribuintes, coloca em causa todo o sistema económico, fiscal e contributivo.

Por outro lado, a instabilidade laboral também altera o perfil de consumidor dos jovens, quase sempre não por preferência, mas por falta de opção, como é o caso da possibilidade de aquisição de casa própria.

Muitas outras razões facilmente se acrescentariam aos factos que apresentei antes e que comprovam que a precariedade laboral está a alterar o estilo de vida dos jovens e consequentemente o nosso sistema económico. Os riscos desta precariedade laboral crescente são assim transversais a toda a sociedade e não apenas para quem sofre diariamente com esta instabilidade. É essa consciência social que, na minha opinião, importa reforçar! É importante que todos percebamos que esta realidade não afecta somente o nosso amigo ou familiar que anteriormente nos veio à cabeça enquanto líamos este artigo, mas sim todos nós elementos da sociedade que todos os dias, presentes e futuros, sofreremos, por exemplo, com o aumento da idade da reforma ou redução dos valores dessas reformas. Numa sociedade e economia como a nossa, quase sempre os problemas mais graves de uns, são também problemas para todos os outros!

*O autor deste texto escreve segundo o antigo acordo ortográfico da Língua Portuguesa.

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