Presença militar da China no Atlântico seria vista com “forte preocupação”, diz Gomes Cravinho

Questionado sobre uma possível presença militar da China no Atlântico, Gomes Cravinho disse não ver “de todo” qualquer necessidade de uma base militar chinesa neste oceano, acrescentando que não recebeu qualquer indicação nesse sentido.

Cristina Bernardo

O ministro da Defesa nacional considerou esta terça-feira desnecessária qualquer base militar chinesa no Oceano Atlântico, acrescentando que tal hipótese seria vista com “forte preocupação” e que “não é boa ideia” transformar esta região num cenário de “conflito geopolítico”.

O ministro João Gomes Cravinho participava num seminário, no âmbito da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia, em parceria com a German Marshall Fund, sob o lema “Desafios na segurança global e o futuro das relações transatlânticas”.

Questionado sobre uma possível presença militar da China no Atlântico, Gomes Cravinho disse não ver “de todo” qualquer necessidade de uma base militar chinesa neste oceano, acrescentando que não recebeu qualquer indicação nesse sentido.

Na opinião do governante, “os desafios do Oceano Atlântico não requerem que um país não Atlântico estabeleça uma base na região”.

“Francamente isto seria visto com forte preocupação, não pensamos que é necessário e trabalharíamos muito próximo com os nossos parceiros, com respeito pela sua soberania e decisões soberanas, para explicar que não é boa ideia fazer do Atlântico um cenário de conflito geopolítico”, apontou.

Gomes Cravinho considerou também importante “desmistificar a ideia” de que o objetivo da autonomia estratégica é o de “dissociar os Estados Unidos e a Europa”.

“Nós vemos a autonomia estratégica como o reconhecimento de que a União Europeia precisa de ter a capacidade de agir sozinha quando está sozinha, de agir sozinha quando não tem a possibilidade de agir em parceria com a NATO [Organização do Tratado do Atlântico Norte], com os Estados Unidos, com outros parceiros”, sustentou o governante.

Segundo o ministro, “qualquer tentativa hipotética de usar o conceito de autonomia estratégica para uma dissociação da NATO seria autodestrutivo” e “não teria o apoio dos estados-membros da União Europeia”.

Questionado sobre se as ambições de defesa da UE podem pôr em causa a NATO, Gomes Cravinho explicou que estas são duas instituições diferentes “que têm diferentes preocupações e ainda assim partilham 21 membros”.

“O que poderemos fazer melhor juntos como União Europeia […] vai fortalecer o pilar europeu da NATO, que é algo que vários presidentes americanos têm dito legitimamente que precisa de ser feito. E se tem de ser feito pelos europeus, isso não quer dizer necessariamente que os europeus individualmente conseguem fazê-lo melhor”, argumentou.

No que toca às relações entre os Estados Unidos e a China, Gomes Cravinho previu uma “competição geopolítica significativa” entre os dois países nas próximas décadas e sublinhou a relação de proximidade entre a Europa e os norte-americanos, mas também a disponibilidade para trabalhar com os chineses em determinadas áreas.

“Não prevejo que a competição geopolítica entre a China e os Estados Unidos leve inexoravelmente a qualquer tipo de conflito. Claro que há dinâmicas que nos podem levar nessa direção, mas recai sobre nós, penso, evitar absolutamente qualquer conflito. E podemos fazê-lo sendo muito claros com as áreas em que queremos colaborar com a China e as áreas em que não faz sentido”, sustentou.

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