Presidente da Antral desmente ter carros nas plataformas

O presidente da Antral vai-se recandidatar a um último mandato à frente da associação dos taxistas para concluir o projeto da Fundação Antral.

Cristina Bernardo

Na longa entrevista concedida por Florêncio de Almeida, presidente da Antral, ao Jornal Económico, o líder da organização que representa mais taxistas em Portugal, desmente categoricamente ser proprietário de viaturas descaracterizadas da plataforma Uber ou outra similar, um boato recorrente nos últimos anos.

Florêncio de Almeida fala dos seus negócios particulares e revela que se vai recandidatar a um último mandato à frente da Antral, para deixar acabado o seu mais recente sonho, a Fundação Antral. E reclama a criação do grupo empresarial da Antral e a consolidação do respetivo património.

Sobre a outra organização representativa dos taxistas, a FPT – Federação Portuguesa do Táxi, Florêncio de Almeida garante que não passa de um braço do PCP.

Quantos táxis gere, quantos empregados tem e quanto fatura?

Só com uma empresa faturo 1,2 milhões de euros. Eu tenho diversas empresas, desde uma agência de viagens, autocarros, animação turística, de transporte de crianças e tenho táxis. Na única empresa de táxis que tenho, há 18 táxis. Dois em Lisboa; seis descaracterizados (classe A) e os restantes na província.

O presidente da Antral detém viaturas em regime de TVDE?
Não, não. Quando refiro os descaracterizados, refiro-me aos táxis de classe A que não têm distintivo. Estes não fazem serviço de rua – é só a contrato.

Olhe, há sete anos que ganho um concurso internacional para o Porto de Lisboa, para transporte dos pilotos. É serviço de muita exigência e pontualidade, porque se um barco tiver de sair ali de Xabregas e o piloto chegar um quarto de hora depois é um balúrdio que o barco tem de pagar porque está lá encostado e empresa de transporte é que é responsabilizada.

É um concurso lançado pela APL?

Exatamente. Esse transporte pode ser feito por qualquer táxi. Se houver uma empresa no Porto ou em Bragança que lance um concurso público para transportar o seu pessoal em táxi, qualquer empresa do país pode concorrer. Em chego lá e faço a minha proposta ‘olhe cobro-lhe x por dia’, é-me adjudicado e eu ponho os meus carros a trabalhar. Está dentro da lei.

As suas empresas quantos colaboradores é que já tem…

Tenho cerca de 40.

Disse que uma das empresas fatura 1,2 milhões de euros. Quanto é que fatura o conjunto das suas empresas?

Não sei. As outras não faturam nada por aí além. Devem faturar 1,5 milhões de euros todas em conjunto.

Não é proprietário de carros em regime de TVDE?

Nunca. Nem ‘tuk-tuk’.

Os ‘tuk-tuk’ também foram mais uma machadada nos táxis?

Sim. Quando apareceram os ‘tuk-tuk’, que são atrações turísticas e tudo o que é legal, qualquer cidadão pode ter, seja ele quem for. Não tenho, mas se tivesse TVDE era legal, mas quando apareceram os ‘tuk-tuk’, os ‘tuk-tuk’ brancos eram meus. Depois, como o Florêncio não pegou, já eram da minha filha. Agora já não sei de quem são. Apareceram os TVDE, eu supostamente tinha 50, depois já tinha 100. Mas não tenho. A mim, condenam-me por ter carros de outros concelhos a trabalhar. Nunca neguei. Tenho e cumpro com a lei. Trabalham a contrato em qualquer parte do país. É a lei. Não estou a roubar nada a ninguém. Transportar clientes meus, com o taxímetro ligado. E eu vou buscá-los a qualquer lado com o taxímetro ligado, ao preço justo, que é o caso do Porto-Lisboa.

Além da Antral, existe a Federação Portuguesa do Táxi. Gostaria de lhe perguntar se não acha que o setor perde força por haver duas estruturas?

Naturalmente que perde. Perde sempre. Mas a Antral é uma associação completamente diferente da Federação Portuguesa do Táxi. É preciso ver que a Antral é uma federação apolítica e a Federação Portuguesa do Táxi é política, é o braço do PCP. A Federação apareceu porque sabe que no 25 de Abril foi dado 150 licenças à Autocoope por Vasco Gonçalves para criar postos de trabalho. Hoje, vendem-se postos de trabalho. Hoje, se quisermos ir trabalhar para a Autocoope, temos de pagar dois mil euros à cabeça e quando tiver qualquer problema, vai para a rua e não leva um chavo.

Na Retalis isso não existe?

A Retalis não é uma cooperativa de raiz. Presta serviços aos seus cooperantes. A Autocoope é mesmo uma cooperativa de raiz. Os carros são deles. A Retalis não tem carros, não tem táxis. São cooperantes. A Federação surgiu porque todos os carros eram obrigados a ser associados da Antral e cada carro tem de pagar a sua quota. Eles queriam ter um voto por cada carro e a instituição é um voto por cada número de sócio. Eu posso ter 20 carros numa firma, mas há só um número de sócio, que só tem direito a um voto. Tenha os carros que tiver, tem só um voto. E eles queriam 150 votos, o que lhes permitia minar uma Assembleia Geral. Eles ainda se inscreveram na Antral, mas nunca pagaram quotas e construíram então a Federação. Alguma vez viram um relatório publicado da Autocoope ou da Federação? Eu também não. Ninguém sabe para onde vai o dinheiro. O nosso relatório de contas vai ser aprovado em assembleia geral no dia 10 do mês que vem. É publicado todos os anos.

É publicado no ‘site’?

Todos os anos.

Portanto, o que me está a dizer é que uma fusão entre Federação Portuguesa do Táxi e a Antral está fora de equação?

As portas da Antral estão abertas para toda a gente. Temos a nossa estrutura e se eles um dia quiserem vir, que venham. Inscrevam-se, é tão simples quanto isso. Podem concorrer às eleições da Antral. É livre. Há que dar a cara. Eu já fui eleito oito vezes para mandatos de três anos. Vou fazer 24 anos este ano.

Vai-se recandidatar?

Há um projeto que quero ver concluído, que é a Fundação Antral. É aqui na Boa Hora, o primeiro centro de dia, e está quase concluído. Foi num prédio que era o antigo quartel dos bombeiros e onde vamos lá gastar 1,2 milhões. Quero também deixar a vertente social para este setor andar. Quando isso acontecer o Florêncio de Almeida vai deixar a Antral. À partida, ainda não será este ano.

Vai por isso recandidatar-se este ano?

Sim.

Esse centro de dia será só para os associados?

Não. A Antral trabalha para o setor do táxi e não apenas para os seus associados. É para motoristas, industriais e seus familiares. Quem trabalhou, quem trabalha e venha a trabalhar na indústria. As pessoas que trabalham na central de rádio também têm direito. Temos também a vertente de apoio domiciliário – nós não queremos tirar as pessoas do seu ambiente familiar e do seu ambiente de amigos – mas levar-lhes a comida a casa, fazer a limpeza, serviços de enfermagem. Isto é praticamente o que os hospitais estão hoje a fazer. Esta ideia já nasceu há 13 anos da minha parte, mas o Governo em muitas áreas já está a fazer nesse sentido. É um projeto que requer muito trabalho e alguns limites. Temos um posto de combustível que foi inaugurado a 29 de novembro de 2017, na Avenida General Spínola, que é uma fonte de receitas da Fundação Antral.

Que outras fontes de receita a Antral tem para financiar a Fundação Antral?

Ali não podemos ter. Vamos fazer inscrições para as pessoas se quiserem ter apoio no futuro. Como a quota é pequena, estamos a pensar em 20 euros por ano. Vamos ter também, em parceria com a Câmara Municipal de Viseu e outras câmaras do país, criar uma rede de postos de combustível, para que todos em conjunto possamos sustentar este empreendimento.

Mas este edifício na Boa Hora vai ser o quê mesmo?

Um centro de dia, com capacidade para 42 pessoas.

Vai estar operacional quando?

Era para ser em meados deste ano, mas é uma obra que demorou mais do que o esperado. O prédio estava todo a cair, de modo que pensámos que entre junho ou julho deste ano, o empreiteiro terminasse a obra, mas ele diz que antes do fim do ano não nos poderia entregar.

Será uma obra para inaugurar só lá para 2020?

Sim, seguramente. Mas está quase.

E essa rede de postos de combustível, que vai alimentar este projeto, deverá estar operacional quando?

Também lá para 2020.

E por isso vai recandidatar-se a um novo mandato?

Sem dúvida nenhuma.

Será o último mandato? E depois, reforma-se?

Já estou reformado há algum tempo. Há muitos industriais que me vão perguntando e me vão incentivando a continuar. ‘O senhor ainda está válido e ainda tem energia’. Mas eu tenho de gozar alguns anos. Já dei 24 anos da minha vida à Antral e eu sou uma pessoa que me posso deitar às cinco horas da manhã, mas às oito horas estou lá na Antral. Sou o primeiro a entrar na Antral. Não sou eu que abro as portas, mas quando abrem as portas já lá estou dentro. Nunca, nem por doença falto. Tenho feito exames no hospital da CUF e, quando saio do hospital, vou passar pela Antral. O meu maior prazer e orgulho quando sair da Antral é que podem-me contestar, mas ‘meia-dúzia de galinhas a cantar no capoeiro fazem mais barulho do que 900 e tal que piam mas não dizem nada’. Eu entrei para a Antral e o património era de 877 mil e 800 euros. Paguei a hipoteca de 60 mil contos que tinham das instalações de Faro e Évora e paguei 653 mil euros de impostos ao Estado, comprei um edifício em Lisboa, que custou 3,9 milhões de euros e que hoje já me dão 8,5 milhões por ele. Comprei instalações no Porto, Coimbra, Viseu e Castelo Branco e deixo 9,5 milhões de euros de património. Este é o meu maior orgulho. E digo mais: sabe quanto é que pagam os sócios para as despesas da Antral? 40%. E pergunta-me agora: então onde vão buscar o dinheiro?

Então, onde vão buscar o dinheiro?

Com protocolos e muito trabalho. Criei um grupo económico Antral, que tem hoje seis empresas. Psicotécnicos, seguros, formação. Eu constituí, em 14 anos, o grupo empresarial da Antral.

Qual é o volume de negócios que a Antral movimenta por ano?

A Antral, a nível de quotização, à volta de um milhão [de euros].

E as outras fontes de receita?

As outras fontes de receita são das empresas. A Protaxi deve gerar à volta também de um milhão.

A Protaxi é a que faz formação?

Faz formação e protocolos. Recebemos um cêntimo por combustível por cada litro.

Quantos associados tem a Antral?

À volta de uns seis mil. Tínhamos 7.800 sócios, mas não é porque tenha baixado. Antigamente, a política deste setor era cada firma ter um táxi e 75% eram individuais. Ou seja, cada um tinha um táxi em nome próprio. Em 1998, com a nova legislação, começou-se a fazer agrupamentos. A minha empresa tinha dois táxis, hoje tem vinte. Foram dezoito sócios que deixaram de existir, mas pagam a sua quota. Nós temos 10.800 viaturas, baixou o número de sócios, mas não baixamos na quantidade de viaturas que tínhamos a pagar as quotas. É fazer as contas. É pegarem no relatório da Antral, 30 euros para cada carro, o que se recebe…

 

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