Presidente francês recebe hoje Vladimir Putin

A poucos dias da cimeira do G7, Emmanuel Macron continua a sua escalada diplomática até ao topo da União Europeia. Mas os críticos consideram que o presidente francês está movimentar-se em terreno perigoso.

Fabrizio Bensch/REUTERS

Emmanuel Macron recebe esta segunda-feira, na sua residência de verão, em Brégançon, o presidente russo, Vladimir Putin, tendo como pano de fundo, acima de tudo, a escalada que o presidente francês quer realizar até ao topo da diplomacia da União Europeia. Não é nenhuma novidade que Macron tem esse interesse em mira e o timing é quase perfeito: dentro de poucos dias tem início em Biarritz, também em França, a cimeira dos sete países mais ricos do mundo – onde a Rússia não cabe desde que anexou a Crimeia em 2014.

A Rússia é, no quadro do G7, uma ausência sempre presente, e a reunião de hoje entre Macron e Putin sinaliza sem margem para dúvidas que o presidente francês apoia o regresso da Rússia ao grupo dos mais ricos. Mas não só: o encontro de Brégançon – onde no ano passado recebeu uma na altura ainda esperançosa Theresa May – serve também para indicar a Moscovo que a União Europeia (pelo menos a União Europeia concebida por Macron) considera estratégico o entendimento entre as duas capitais.

“O objetivo, formulado várias vezes por Emmanuel Macron, é trazer a Rússia de volta à Europa e corrigir a inconsequente política ocidental dos últimos anos, que empurrou a Rússia para a China”, resume o ex-chanceler francês Hubert Védrine numa entrevista ao jornal ‘Le Figaro’. “Na época da URSS, havia conversas com a URSS e reuniões com os líderes soviéticos, talvez até em maior número que com os russos hoje – não é por termos diferenças com a Rússia que vamos deixar de lhe falar”, disse uma fonte do Palácio do Eliseu citada pelos jornais franceses.

Macron tem-se distinguido por introduzir na agenda dos encontros com os líderes internacionais mesmo os temas que podem ser polémicos – como ficou bem demonstrado quando o presidente da Turquia esteve em França em janeiro do ano passado – e o encontro de hoje não deverá ser diferente.

Os recentes desentendimentos entre o Kremlin e os líderes da oposição não deverão por isso faltar na agenda, como estarão também a Ucrânia, a Síria ou o Irão – e se neste último caso a França e a Rússia estão do mesmo lado da barricada, já no que diz respeito à Ucrânia não há entre ambos qualquer ponto de acordo. Mas o que importa a Macron é que a Rússia tem vindo a aumentar o seu poder de influência no Médio Oriente – uma região onde a diplomacia da União Europeia pura e simplesmente não ‘risca’ nada. Uma aproximação à Rússia pode também ser uma forma de tentar acabar com esta irrelevância numa geografia que implica diretamente com a vida na Europa.

Por outro lado, e como já se percebeu, a Rússia continua a ser – e não há nenhuma razão para se pensar que é uma situação passageira – um importante parceiro europeu em áreas fundamentais (como a energia).

O diálogo entre Macron e Putin nunca foi interrompido desde a primeira reunião em Versalhes, em maio de 2017, mas o presidente francês sabe que nem toda a gente consegue encontrar boas razões para o diálogo. Desde logo o presidente norte-americano, Donald Trump, que parece querer guardar para ele o monopólio dos contactos com Moscovo – e para quem os entendimentos que não passam pela Casa Branca (ainda por cima entre dois membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU) deixam sempre uma perceção de ‘ciume’.

Para muitos observadores, existe o risco de o presidente russo não resistir à tentação de instrumentalizar a reunião para se mostrar um líder acessível, dando por outro lado a impressão de que a Rússia encontrou na França uma forma de ‘espiar’ a reunião do G7.

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