Cortar dividendos: Pressão aumenta para as cotadas tomarem um amargo remédio anti-vírus

Menos receitas, menos lucros, menos dividendos. A relação não é linear, mas o impacto da Covid-19 já obrigou várias cotadas a cortar a remuneração acionista e a pressão está a aumentar para outras seguirem o exemplo. Bancos, seguradoras e empresas da aviação e do turismo são as mais pressionadas, enquanto energéticas e retalhistas deverão ser as mais relutantes.

Stringer/Reuters

O BCP cancelou o que tinha prometido, a EDP Renováveis manteve o anunciado, a Navigator cortou para metade face ao ano passado e a Semapa reduziu para um quarto. O surto do novo coronavírus e o espectro de uma grave crise económica chegaram a Portugal na ponta final da época de resultados das empresas do índice PSI 20, mas ainda a tempo de permitir aos boards cortarem os dividendos, uma opção para o qual vão estar cada vez mais pressionados.

“À medida que aumenta a percepção que esta pandemia irá demorar mais tempo a passar, aumenta a pressão para que as empresas diminuam ou adiem a distribuição de dividendos relativos a 2019”, afirmou Pedro Lino, presidente da corretora DiF Broker.

“Quase todas as empresas vão ter uma forte pressão sobre as receitas e, consequentemente, sobre os resultados de 2020. Iremos ter nas próximas semanas profit warnings, revisão em baixa de resultados por parte dos analistas, o que significa que as empresas com menos solidez financeira podem optar por cativar resultados para fazer face à incerteza da retoma”, adiantou.

Filipe Garcia, economista e presidente da consultora IMF- Informação de Mercados Financeiros, concorda que há pressão para que se distribua menos dividendos e salienta o objetivo de preservar liquidez para um futuro que se apresenta como particularmente incerto e desafiante.

“Boa parte das empresas irão deparar-se com condições de negócio menos favoráveis, provavelmente com redução na procura e com impacto direto na liquidez no curto e médio prazo”, vincou. “É verdade que os dividendos dizem normalmente respeito ao exercício anterior, mas neste contexto de incerteza será prudente não expor as empresas a dificuldades liquidez”.

Garcia lembrou que há casos em que as empresas se endividam para efetuar o pagamento de dividendos, “algo que parece ser contraproducente nesta altura”.

“No entanto, também poderá haver acionistas para quem os dividendos são importantes para manter as suas posições ou a quem falte liquidez, pelo que não descarto que em alguns casos a pressão possa ser precisamente a contrária – para pagar dividendos”, alertou.

Bancos suspendem e adiam

Pedro Lino recorda que o Banco Central Europeu (BCE) solicitou na sexta-feira passada aos bancos que não paguem dividendos até dia 1 de outubro de 2020 e suspendam a recompra de ações. A instituição liderada por Christine Lagarde fez esta recomendação aos 117 bancos que supervisiona pois considera crucial que possam continuar a cumprir o papel de financiar famílias, pequenas e médias empresas e corporações durante a pandemia.

“Para esse efeito, é essencial que instituições de crédito conservem capital para manter sua capacidade de apoiar a economia de maneira ambiente de maior incerteza causada pela Covid-19”, sublinhou o BCE.

O único banco no PSI 20, o Millennium bcp, tinha na véspera citado precisamente “os potenciais impactos e a incerteza associada à situação de pandemia” para explicar a decisão do Conselho de Administração de propor à Assembleia Geral a retenção dos restantes resultados relativos ao exercício de 2019.

O banco liderado por Miguel Maya quer com esta medida estar “mais preparado para fazer face ao presente contexto de incerteza, tendo o Conselho de Administração reiterado a determinação de, uma vez ultrapassada a crise e na medida em que o banco e a economia nacional iniciem a sua recuperação, retomar a política de dividendos aprovada”.

O BCP tinha previsto fazer uma proposta “conservadora” de pagamento de dividendos relativos ao lucro 302 milhões de euros. No ano passado, o BCP tinha voltado a pagar dividendos, depois de anos de abstinência por causa da crise financeira. O banco distribuiu em 2019, por conta dos lucros de 2018, um dividendo de 2 cêntimos por ação, num total de 30,2 milhões, correspondente a um dividend payout ratio de 10%, num caminho traçado para poder pagar até 40% dos lucros aos acionistas.

O CaixaBank, banco espanhol que é dono do BPI, na sexta-feira anunciou que num “exercício de prudência e responsabilidade social” decidiu reduzir o dividendo para o exercício de 2019 de 0,15 euros por ação para 0,07 euros por ação e modificar a política de dividendos que consistia na distribuição de um dividendo em dinheiro superior a 50% do lucro líquido reportado, passando agora para um rácio não superior a 30% do lucro.

Romain Boscher, global chief investment officer da área de ações da Fidelity International, escreveu numa nota de research na quinta-feira passada que é importante que os bancos façam “adiamentos pragmáticos” dos pagamentos de dividendos, de forma a criarem almofadas adicionais de capital para absorver choques financeiros.

“Sabemos que os dividendos desempenham um papel inestimável na economia, especialmente para quem poupa a longo prazo, e isso não deve ser subestimado. É importante enfatizar que não estamos defendendo o cancelamento de dividendos”, defendeu.

“O anúncio do Santander de consolidar pagamentos para o próximo ano é um bom exemplo”, adiantou, referindo-se à decisão do banco liderado por Ana Botín de não pagar um dividendo intercalar em novembro e rever o que irá pagar em relação ao exercício de 2020. “Assim que a situação se estabilizar ou o impacto de qualquer empréstimo com deterioração melhorar, os dividendos deverão ser pagos”.

Situação “muito delicada”

Para Pedro Lino, da DiF, os sectores que irão diminuir ou cortar os dividendos deverão ser os sectores segurador, do turismo, construtoras automóveis, aviação, e as instituições financeiras que estejam a ser penalizadas com menos negócio.

“Os bancos com mais exposição aos mercados de capitais, e menos a empréstimos às famílias e empresas, deverão registar fortes subidas nos resultados pelo que não devem propor cortar os seus dividendos”, explicou.

Segundo Lino, as empresas “que estarão mais relutantes serão o sector da energia, distribuição e as que estão menos endividadas”.

Os acionistas da EDP Renováveis na quinta-feira aprovaram o pagamento de um dividendo de 8 cêntimos por ação relativo a 2019. O Conselho de Administração da EDP Energias do Brasil, na qual a EDP Energias de Portugal tem 51%, anunciou no entanto na quarta-feira que “tendo em vista o atual cenário de disseminação da Covid-19 e dos impactos esperados para os negócios” vai agora propor à assembleia geral de dia 31 de março distribuir dividendos de 353,5 milhões de reais (perto de 64 milhões de euros), abaixo dos 604,8 milhões de reais (109 milhões de euros) anunciados antes.

No PSI 20, o board da Navigator propôs um dividendo por ação 0,1394 euros por ação, face aos 0,27943 euros pagos em 2019 sobre o exercício do ano anterior, enquanto a ‘casa mãe’ propões distribuir um dividendo de 0,125 euros por ação, face ao de 0,51 euros no ano passado.

Questionado sobre se cortes ou adiamentos de dividendos poderão levar os investidores a ‘fugir’ para títulos que mantêm a remuneração acionista, Pedro Lino respondeu que depende da duração da crise.

“Caso seja algo passageiro, ou seja se estivermos perante uma retoma da actividade nos próximos três meses, os investidores de longo prazo manter-se-ão, até porque neste momento não conseguem sair das suas posições a não ser com desvalorizações astronómicas”, disse.

O principal problema pode estar nos títulos da banca e sector de aviação, turismo e imobiliário, adiantou. Estes serão os sectores mais afectados e os investidores podem percepcionar que para além de não terem perspectiva de remuneração, podem ainda perder o seu capital, isto num momento no qual as pessoas privilegiam segurança e liquidez.

“É uma situação muito delicada, uma vez que a queda das cotações pode originar, neste tempo de desconfiança, uma maior pressão vendedora e perda de confiança dos próprios bancos que a financiam”, sublinhou.

Filipe Garcia, da IMF, sublinhou que o corte nos dividendos é uma má noticia para muitos investidores. “Há uma preferência generalizada por dividendos, mesmo que isso seja não seja financeiramente eficiente”.

“Nesta fase, todas as empresas estão a ser reavaliadas, num cenário de muito pouca visibilidade e o dividendo é mais uma má noticia, sobretudo se se tratarem de empresas que têm pago dividendos de forma consistente – não pagar dividendo será um sinal de alerta”, disse, concluindo que  “diminuir o dividendo será visto de forma menos negativa”.

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