Pressão sobre preços da energia deverá manter-se no próximo ano

Instabilidade no mercado do gás natural condiciona evolução dos preços da energia na Europa. Participantes na mesa-redonda sobre “a descarbonização e os preços da energia”, realizada no âmbito da Portugal Smart Cities Summit, consideram que situação deverá manter-se em 2022.

A pressão sobre os preços de energia deverá manter-se, pelo menos durante 2022, devido à instabilidade que se verifica no mercado do gás natural, de acordo com os participantes na mesa-redonda sobre “a descarbonização e os preços da energia”, realizada no âmbito da Portugal Smart Cities Summit.

Na introdução do debate, Vítor Santos, professor do ISEG e ex-presidente da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), defendeu que “as condições que caracterizam o aprovisionamento do gás natural na Europa indicam que existe uma tendência estrutural para alguma instabilidade dos preços nos próximos anos”.

A ideia de instabilidade e pressão sobre os preços é corroborada por Pedro Neves Ferreira, diretor de Planeamento Energético da EDP – Energias de Portugal, mas no curto prazo, limitada a 2022, segundo a leitura que faz do mercado.

Pedro Neves Ferreira apontou a evolução recente do mercado de energia, neste caso o Mibel – Mercado Ibérico da Energia Eléctrica, em que o preço de venda horária de energia atingiu valores recorde, “fora do que que foi a envolvente na última década” e demonstrou grande volatilidade, tendo superado agora o valor máximo alguma vez atingido, quando há um ano “o recorde era em baixa”.

“Se olharmos para a frente e virmos os mercados a prazo, vemos que [os valores para] 2022 têm vindo a subir de forma consistente”, disse, indicando que os preços passaram de 50 euros por megawatt/hora para um máximo de 163 euros.

No entanto, Neves Ferreira considera que esta situação é temporária. “O mercado está a dizer-nos que esta situação é conjuntural; que terá um pico em 2022, mas depois estabiliza”, afirmou.

Inverno e Rússia definem tendências

O gás natural é considerado o principal culpado da instabilidade nos preços da energia, pelas contingências do seu mercado, tanto económicas, como naturais, como geopolíticas.

Vítor Santos justificou o crescimento dos preços da energia com os máximos históricos do gás e ao aumento do preço da tonelada de CO2. No caso do gás, identificou como problemas a “elevada dependência externa, o reduzido número de fornecedores e uma Rússia que é o fornecedor dominante no norte e centro da Europa e que usa o gás natural como arma geoestratégica”. Acresce que “alguns países europeus tendem em não assegurar níveis adequados de armazenagem”.

A armazenagem é importante no atual contexto, já que o inverno particularmente rigoroso na Europa este ano, que motivou o maior consumo dos últimos 10 anos, reduziu a armazenagem, segundo Pedro Neves Ferreira, que indica também a existência de instabilidade comercial no mercado como fator.

“Tivemos de competir com a Ásia, que também teve um inverno rigoroso”, disse, acrescentando que a Rússia “está a produzir em máximos históricos, mas a enviar mínimos para a Europa, só para cumprir contratos de longo prazo e não mais do que isso. Tiveram também um inverno rigoroso e têm um novo grande cliente, que é a China”.

Vítor Santos acrescentou, ainda, que existe algum grau de incerteza relativamente às decisões de investimento no gás natural, relativamente à Europa, seja na produção, seja na infraestrutura, devido a este ser um combustível de transição no quadro do caminho para a neutralidade carbónica.

O processo de transição energética é, também, segundo Neves Ferreira um dos contribuintes para a atual situação de pressão altista sobre os preços, com o aumento da tonelada de CO2, que “teve um aumento muito expressivo durante a primavera, início do verão deste ano”.

“Tem a ver com o aumento da ambição do pacote europeu [para a neutralidade carbónica], que aumentou os objetivos de redução e emissões”, disse.

A mesa-redonda sobre “a descarbonização e os preços da energia” contou também com a participação de Jorge Mendonça e Costa, diretor Executivo da Associação Portuguesa dos Industriais Grandes Consumidores de Energia Elétrica; e de Jorge Esteves, diretor de Infraestruturas e Redes da ERSE.

A Portugal Smart Cities Summit, que tem o Jornal Económico como media partner, decorre até quinta-feira, 18 de novembro, no Pavilhão 2 da Feira Internacional de Lisboa, no Parque das Nações.

Integra 12 sessões de debates, em que participam de mais de 100 oradores, nacionais e internacionais, e uma exposição com 80 participantes, de acordo com a organização, da responsabilidade da Fundação AIP.

O evento está aberto à presença de público mediante inscrição prévia online, em portugalsmartcities.fil.pt.

As sessões de debate são transmitidas através da plataforma JE TV, através do site (www.jornaleconomico.pt) e das redes sociais do Jornal Económico.

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