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Principais bancos europeus já perderam cerca de 216 mil milhões em capitalização bolsista desde o início da guerra

Subida dos preços da energia reacendeu os riscos inflacionistas na Europa que poderá agravar o custo do risco de crédito. Este enquadramento tem um impacto direto no valor em bolsa dos bancos europeus, incluindo britânicos. Numa análise à avaliação do market cap a 17 bancos europeus António José Duarte destaca a dimensão da perda de valor em bolsa que é equivalente “a ter desaparecido um Santander inteiro e um Commerzbank”.
23 Março 2026, 11h13

Os principais bancos europeus e britânicos já perderam 215,8 mil milhões de euros em capitalização bolsista desde o início do conflito no Médio Oriente, de acordo com a análise do economista António José Duarte para o Jornal Económico.

Numa análise à avaliação do market cap a 17 bancos europeus (incluindo britânicos), António José Duarte destaca a dimensão da perda de valor em bolsa que é equivalente “a ter desaparecido um Santander inteiro e um Commerzbank”.

No caso dos bancos da zona euro as perdas ascendem a 157 mil milhões e nos bancos britânicos a queda supera os 59 mil milhões de euros.

A maior queda coube ao UniCredit que anunciou uma oferta sobre o Commerzbank para ficar com mais de 30%.

Desde o início da guerra no Irão (iniciada em 28 de fevereiro deste ano), a evolução da capitalização bolsista dos principais bancos europeus sofreu um choque abrupto que interrompeu um dos melhores ciclos de valorização de sempre do setor. O principal fator explicativo é o impacto macro da guerra, nomeadamente a subida abrupta do preço do petróleo (acima de 100 dólares), o aumento das expectativas de inflação e a revisão em alta das taxas de juro esperadas criaram um enquadramento adverso para ativos de risco e, em particular, para o setor financeiro. Em paralelo, cresceram os receios de abrandamento económico ou mesmo estagflação, penalizando os bancos mais cíclicos e expostos ao crescimento europeu .

Dentro do universo analisado o comportamento foi relativamente homogéneo, mas com algumas nuances. Bancos mais sensíveis ao ciclo económico e com maior exposição doméstica — como UniCredit, BNP Paribas, Deutsche Bank, Société Générale, Intesa Sanpaolo ou Commerzbank — acompanharam a tendência negativa do setor, com quedas alinhadas com esse intervalo de cerca de -10%. Já instituições com maior diversificação geográfica ou perfil mais defensivo — como HSBC, UBS ou, em menor grau, Santander e BBVA — evidenciaram maior resiliência relativa, embora também tenham sido afetadas pela correção global.

Os bancos britânicos (Barclays, NatWest, Lloyds) registaram igualmente pressão, num contexto em que o mercado passou rapidamente de expectativas de descida para subida de taxas de juro, refletindo o choque inflacionista associado ao conflito. Este fator tem um efeito ambíguo: suporta margens financeiras no médio prazo, mas penaliza avaliações no curto prazo devido ao impacto sobre crescimento do risco de crédito.

Destaca António José Duarte que “a subida dos preços da energia, aliada à incerteza quanto à evolução do conflito, reacendeu os riscos inflacionistas na Europa” e que “os mercados antecipam agora uma inflação próxima de 3,6% nos próximos 12 meses, acima da meta do BCE, passando a prever entre três a quatro subidas de 25 pontos base este ano, com a primeira a poder ocorrer já em abril — um contraste claro com o cenário de há um mês, quando não se antecipava qualquer subida de taxas”. Conclusão: “taxas mais elevadas significam desde logo valorizações das empresas não financeiras inferiores”.

Assim, este enquadramento tem um impacto direto na banca através do aumento do risco de crédito: “O choque energético comprime as margens das empresas e, em conjunto com taxas de juro mais elevadas, agrava o custo da dívida e dificulta o refinanciamento”.

Neste contexto, “empresas mais alavancadas — nomeadamente em segmentos como private equity, tecnologia ou setores cíclicos — enfrentam maiores dificuldades em cumprir as suas obrigações, aumentando o risco de incumprimento”, sublinha.

Para os bancos, este cenário “deverá traduzir-se num aumento das imparidades nos próximos trimestres”, sendo que “este movimento já é visível nos mercados de crédito, com um alargamento dos spreads — em média, as empresas europeias mais endividadas pagam hoje mais cerca de 50 pontos base do que há um mês”.

Paralelamente, explica o economista António José Duarte, “surgem preocupações de contágio no universo de private credit americano, menos transparente e com menor liquidez, levantando dúvidas sobre a propagação de eventuais perdas ao sistema financeiro”.

Apesar da subida das yields implicar um aumento de perdas potenciais nas carteiras de obrigações de divida soberana este efeito permanece, para já, sobretudo contabilístico e secundário face ao agravamento do risco de crédito.

Neste contexto, o mercado está a antecipar “não só um aumento do custo do risco, mas também uma maior seletividade na concessão de crédito, elevando o risco de uma contração do financiamento à economia e penalizando as perspetivas de rentabilidade do setor”.

Embora os bancos apresentem rácios de capital robustos, “o endurecimento das condições financeiras pode traduzir-se num verdadeiro credit squeeze, com restrições mais significativas ao acesso a financiamento por parte de empresas e famílias, amplificando o abrandamento económico e criando um ciclo adverso entre crédito, investimento e crescimento na economia europeia”. Assim, “este triplo choque — inflação, taxas de juro e risco de crédito — está a penalizar a banca europeia.”

Em síntese, desde o início da guerra no Irão, a capitalização bolsista dos bancos europeus apresenta uma queda relevante, transversal e explicada sobretudo por fatores macro (energia, inflação e taxas), mais do que por fundamentos específicos do setor. Ainda assim, a correção deve ser enquadrada como um ajuste após um período de valorização extraordinária, e não (até ao momento) como um sinal de deterioração estrutural do sistema bancário europeu.

Em termos agregados, os bancos europeus registaram uma queda significativa e relativamente sincronizada, com os índices bancários a recuarem aproximadamente entre -9% e -13% desde o início do conflito. Esta correção ocorre após um rally excecional em 2025, ano em que o setor tinha acumulado ganhos históricos (com o índice europeu de bancos a subir cerca de 70%).

 

 


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