Produção científica portuguesa é cada vez mais global

Desde Mariano Gago que Portugal se vem a afirmar na ciência. A despesa total em I&D aumentou nas empresas e o seu peso no PIB também, e o número de investigadores estrangeiros que escolhem os nossos laboratórios continua a crescer.

O sol apagou-se. Ficou apenas a luz das estrelas. Quando? Em maio, mais concretamente no dia 29 de maio de 1919. Deu-se aquilo a que chamamos um eclipse total do sol, fenómeno que mudou o curso da ciência e ligou para todo o sempre o seu nome ao mundo lusófono.

Foi na ilha do Príncipe, no oceano Atlântico, à época território português, e em Sobral, hoje uma cidade com 200 mil habitantes, no interior do estado do Ceará, Brasil, que os cientistas da Royal Astronomical Society – então a mais importante instituição científica – testemunharam o “apagão” do astro rei e fotografaram a luz das estrelas. O acontecimento permitiu a Arthur Eddington provar a veracidade da Teoria da Relatividade Geral, descrita quatro anos antes por Albert Einstein.

A efeméride foi assinalada no encontro Ciência 2019 que juntou cerca de quatro mil cientistas durante três dias no Centro de Congressos de Lisboa, tendo o Reino Unido como país convidado. “A ideia era provar que a luz das estrelas se encurvava por causa da força da gravidade do sol, dando a ideia que tinham uma posição diferente no céu”, pode ler-se na publicação “Encontro Ciência 2019” distribuída por ocasião do encontro.

Cem anos volvidos muito se avançou na ciência mundial. Portugal, que despertou para esta realidade, por assim dizer, quando o cientista Mariano Gago se tornou ministro da Ciência e Ensino Superior, continua a trilhar o seu caminho. “A ciência feita em Portugal é uma ciência internacional e os nossos investigadores contribuem para a produção científica global. A investigação portuguesa é, em algumas áreas, uma referência mundial”, afirmou Helena Pereira, presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), ela própria investigadora de renome mundial na área das florestas. “Será de realçar que há um número apreciável de investigadores estrangeiros que escolhem os laboratórios portugueses para investigar. Em todos os concursos que a FCT lança, sempre abertos a candidatos de qualquer nacionalidade, há cerca de 20% de estrangeiros”.

Manuel Heitor, que integrou a equipa de Mariano Gago como secretário de Estado, lidera a pasta há quatro anos. Aos cientistas e jovens amantes da ciência prestou contas. “A despesa total em Investigação e Desenvolvimento (I&D) pública e privada atingiu 1,4% do Produto Interno Bruto em 2018 e recuperou os níveis absolutos mais elevados de 2009 e 2010, tendo aumentado 519 milhões de euros entre 2015 e 2018”. Salientou depois que, neste período, o crescimento em I&D foi sobretudo expressivo nas empresas, 35%, e representa já mais de metade da despesa portuguesa nessa área. Revelou também um terceiro dado digno de registo: o número de empresas com atividades de I&D que beneficiam de apoios fiscais para contratar investigadores doutorados aumentou cerca de 37% desde 2015, incluindo cerca de 290 empresas em 2017. Foram também criados e estão em funcionamento 21 laboratórios colaborativos.

A pedra no sapato deste avanço tem sido o diferendo entre o Estado e os investigadores em relação aos vínculos laborais, como ficou patente no descontentamento demonstrado na sessão de abertura do encontro, no momento em que Manuel Heitor usou da palavra. Cerca de três dezenas de precários, envergando T-shirts negras, largaram balões cor de rosa que se esvaziaram no ar. O mesmo aconteceu minutos mais tarde quando o primeiro-ministro, António Costa, subiu ao palanque e admitiu que o Programa de Regularização Extraordinária de Vínculos à Administração Pública (PREVPAP) não deu resposta cabal ao problema, reconhecendo que é “preciso criar novos mecanismos e fazer mais e melhor”.

Num ano de importantes celebrações científicas – das observações da ilha do Príncipe, que confirmaram a Teoria Geral da Relatividade de Albert Einstein, à celebração dos 150 anos da Tabela Periódica passando pelos 50 anos da chegada do Homem à Lua –, o cientista e deputado pelo PS na atual legislatura, Alexandre Quintanilha revisitou o passado, apontando os olhos ao futuro. “Urge continuar a luta para que o conhecimento, em todos os domínios, esteja na base de decisões pessoais, sociais, ambientais e políticas”. Este é certamente, conforme sublinhou, um dos maiores desafios da atualidade: “Quando muitos líderes mundiais desvalorizam de forma ostensiva o conhecimento, é fundamental reforçarmos a visibilidade desse conhecimento”.

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