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Quem era Charlie Kirk: de conservador secular a líder da direita cristã pró-Trump

Ativista millennial antes defendia separação entre igreja e Estado, até mudar de ideias. Nos púlpitos do evangelicalismo trumpista, influencer virou mártir, e a narrativa de perseguição tornou-se o seu legado póstumo.
11 Setembro 2025, 09h19

Durante a campanha presidencial americana de 2024, Charlie Kirk liderou uma formação política para pastores evangélicos em Dallas, no Texas. Diante do grupo, ele disse que estava farto de alguns deles, que na sua opinião, não faziam o suficiente para levar Donald Trump de volta à Casa Branca.

Simulou uma voz de alguém que reclama para imitar líderes evangélicos hesitantes com o republicano que, no fim, derrotaria a rival Kamala Harris naquela eleição. “Mas, Charlie, não acho que Trump seja um bom modelo para nossa igreja.”

Kirk disse então que não tinha paciência para pastores evangélicos que vinham com aquilo que considerava uma espécie de ladainha. “Estou cansado disso.”

O ativista de direita foi morto nesta quarta-feira (10), baleado no pescoço num atentado enquanto discursava numa universidade. Além de Trump, a sua morte mobilizou os chamados evangélicos brancos num país onde a divisão desse segmento também se compartimenta em gavetas raciais.

O millennial Kirk fundou em 2012, aos 18 anos, a Turning Point USA, organização conservadora forte nos campus universitários —é um motor de influência ideológica entre jovens que veem o ambiente estudantil como território a ser tomado da esquerda.

Não era propriamente religioso, pelo menos na sua projeção pública. Em 2016, ano em que Trump foi eleito presidente pela primeira vez, disse ter uma “visão de mundo secular”. Chegou a definir Jesus como acolhedor, torcendo o nariz para “uma abordagem moralista hipócrita” para temas que polarizam o país, como a comunidade LGBTQIA+.

Defendia na época uma América com separação entre igreja e Estado. Então mudou de ideias. Em 2022, invertendo os sinais do próprio discurso, declarou: “Não há separação entre igreja e Estado. […] É uma ficção. Não está na Constituição. Foi inventado por seculares humanistas”.

O seu moonwalking de opiniões caminhou junto com as guerras culturais que tomaram o mundo na última década. Na sua terra natal, o nacionalismo cristão deu decibéis religiosos a vozes conservadoras que costumavam sintonizar noutra frequência.

Kirk, que antes priorizava nos seus discursos tópicos como livre mercado e responsabilidade fiscal, virou referência na direita cristã nos últimos anos. Certa vez, descreveu Trump como “o presidente mais moral de que se tem registo”. Organizou eventos como o Pastors Summit e falou em “retomar o país” das mãos do “inimigo”.

Também marcou posição contra produtos que, para ele, empesteavam a cultura americana. Comentou que o trailer de “Barbie”, por exemplo, foi a “coisa mais nojenta que já viu” —a boneca que ama cor-de-rosa ganhou voltagem feminista na adaptação audiovisual.

Kirk inspirou-se em teologias como a da guerra espiritual, que pressupõe forças do bem (conservadores) contra espíritos malignos (progressistas), e a dos sete montes. Esta preconiza sete áreas de influência para cristãos dominarem: família, religião, educação, mídia, artes/entretenimento, negócios e governo. Para tanto, pastores deveriam sair da retaguarda e assumir a linha de frente dessa batalha de contornos proféticos.

Tim Alberta, autor de “The Kingdom, the Power and the Glory” (o reino, o poder e a glória), livro sobre o movimento evangélico pró-Trump, reproduz uma citação de Kirk num púlpito: “O que o inimigo mais quer ver é a igreja americana permanecer em silêncio”.

O seu assassinato, agora, transforma-o em algo maior do que apenas um ativista. Nos palanques e púlpitos do evangelicalismo trumpista, virou mártir —e a narrativa de perseguição, seu legado póstumo.

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