Para quem entrou no universo de Wim Wenders pelas “Asas do Desejo”, uma fábula sobre dois anjos, paixão e renúncia, nos céus de uma Berlim ainda dividida pelo Muro – à mistura com canções de Nick Cave –, difícil seria não seguir o trabalho deste cineasta. Até ao mais recente “Dias Perfeitos”, rodado em Tóquio, onde a repetição de gestos mundanos parece aliviar as feridas. Será mesmo assim? Difícil, mais uma vez, é não nos emocionarmos com o estoicismo japonês.
De Tóquio regressamos a Lisboa, para assinalar os 80 anos do cineasta alemão, quinta-feira, 14 de agosto, dia em que tem início uma mostra no cinema Nimas, que decorre até 1 de setembro, em homenagem àquele que é uma das figuras mais importantes do cinema alemão contemporâneo. Com a particularidade de manter com Portugal, e Lisboa em particular, uma longa relação de afeto.
O pintor de imagens em movimento
Wim Wenders nasceu em Dusseldorf a 14 de agosto de 1945, no estertor da Segunda Guerra Mundial. Estudou medicina e filosofia antes de se mudar para Paris, em 1966, para estudar pintura. E foi o que fez no estúdio do designer gráfico e gravador Johnny Friedlaender, mas o seu coração pendia para a imagem em movimento, que o colou à cadeira da Cinemateca Francesa a maior parte das tardes e serões. Resultado? Wenders começou a ver o cinema como uma “extensão da pintura por outros meios”, ao ponto de considerar esta espécie de curso intensivo como a fase mais importante da sua educação.
Regressa à Alemanha em 1967 e inscreve-se na recém-criada Universidade de Cinema e Televisão de Munique (HFF Munich). Exercita a veia de crítico de cinema entre 1967 e 1970, realiza várias curtas-metragens durante o curso e fecha este capítulo em 1971, fundando com quinze outros realizadores e autores, a Filmverlag der Autoren, uma distribuidora de filmes para autores alemães. Começa aqui a vontade de trilhar um caminho fora do radar institucional.
Tem o seu momento filosófico em A Angústia do Guarda-Redes no Momento do Penalty, 1971, adaptação do romance homónimo de Peter Handke, a sua estreia nas longas-metragens. Segue-se uma trilogia de filmes de viagem, Alice nas Cidades (1973), Movimento em Falso (1974) e Ao Correr do Tempo (1975), na qual os protagonistas tentam encarar o seu desenraizamento na Alemanha pós-guerra.
A notoriedade vem com o ‘road movie’ Movimento em Falso (1975), receita que repetiria em Ao Correr do Tempo (1976). Com a ajuda de Samuel Fuller, Dennis Hopper e Nicholas Ray (que consideraria sempre como um mentor), realiza a sua primeira coprodução germano-americana: O Amigo Americano (1977), uma crítica velada à americanização dos costumes e modo de vida dos europeus. O reconhecimento internacional ganha fôlego e Wenders lança-se, no início da década de 80, a Estado das Coisas (1982), Leão de Ouro em Veneza, e Hammett, Detetive Privado (1982), este último produzido por Francis Ford Coppola.
Arrebata a Palma de Ouro do Festival de Cannes com Paris,Texas, esse filme de culto com o extraordinário Harry Dean Stanton e Nastassja Kinski, num papel absolutamente marcante. Um drama sobre um homem que, depois de vaguear durante quatro anos pelo mundo, regressa a casa e tenta reconquistar a mulher e o filho que nunca chegara a conhecer. Foi um êxito mundial e, quem sabe, talvez por isso, Wenders decidiu regressar a casa, à Alemanha, para se debruçar sobre o seu país.
Assim nasce As Asas do Desejo (1988), filme protagonizado pelo seu alter-ego Bruno Ganz, uma fábula sobre dois anjos que pairam sobre Berlim, até que um deles, apaixonado por uma trapezista, renuncia à sua espiritualidade para ir viver com ela. O filme valeu a Wenders novo prémio em Cannes, desta vez, o de Melhor Realizador, e muitos outros prémios, incluindo o de Melhor Fotografia pela Associação de Críticos de Cinema de Nova Iorque.
Chamar-lhe camaleão será abusivo, mas a capacidade que o cineasta tem de reinventar-se é notória. Nomeadamente filmando videoclips, como Night and Day (1990), para os U2, antes de rodar Até ao Fim do Mundo (1991), uma obra em episódios que contou com a participação de William Hurt e de Max von Sydow, falada em várias línguas e filmada em diversas cidades, São Francisco, Paris Veneza, Moscovo, Sidney, Tóquio e Berlim – e que o trouxe de volta a Lisboa, onde também filmou algumas sequências daquele que é um dos seus projetos mais ambiciosos.
Detalhe para todos os que apreciam a obra do cineasta alemão e também para quem o venha, agora, a descobrir, à boleia desta mostra no cinema Nimas: esta versão de Até ao Fim do Mundo não é a original que estreou em 1991, mas uma nova versão, alargada, onde Amália Rodrigues e Lisboa têm maior presença.
“Já tinha filmado duas vezes em Lisboa e achava-a uma cidade fascinante. Mas sentia-me culpado por nunca ter feito mais do que arranhar a superfície de um lugar que amava…”, disse Wenders a propósito de Lisbon Story – Viagem a Lisboa (1995) agora apresentada numa cópia restaurada em 4K, com música dos Madredeus.
Um legado ao mundo
Wenders colaborou com o lendário Michelangelo Antonioni na direção do filme Al di Là Delle Nuvole (Para Além das Nuvens, 1995), antes de se dedicar à sua faceta de documentarista em Buena Vista Social Club (1999), pondo a música cubana novamente nos ouvidos do mundo.
Pina (2011), filmado em 3D sobre a obra da bailarina e coreógrafa alemã Pina Bausch e O Sal da Terra (2014), sobre o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, são duas outras incursões, absolutamente marcantes, pelo território documental. Ou ainda o mais recente “Anselm – O Som do Tempo” (2023), filmado ao longo de dois anos em 3D como documentário-ensaio sobreo trabalho e processo criativo de um dos nomes maiores da arte contemporânea alemã, Anselm Kiefer.
Desafiamos a gravidade, ou melhor, a ordem cronológica para recuar no tempo e falar de outra faceta que vai além da realização e que se projeta no futuro. Falamos da Wim Wenders Siftung, projeto criado no outono de 2012, juntamente com a mulher Donata, na sua terra natal, Dusseldorf. Nesta fundação se reúne todo o trabalho cinematográfico, fotográfico, artístico e literário de Wenders, para que esteja permanentemente acessível ao público de todo o mundo. Todas as receitas do negócio de licenciamento são aplicadas ao propósito central da fundação, assente em dois eixos: a promoção das artes e da cultura, através do restauro, divulgação e preservação da obra do cineasta; e o apoio a jovens talentos no campo do cinema narrativo inovador.
Com os olhos no futuro, Wenders já fez saber que tem vários projetos na pipeline. “The Secrets of Places”, o documentário filmado em 3D sobre o arquiteto suíço Peter Zumthor, que Wenders considera ser “o arquiteto dos arquitetos”, com estreia prevista para 2026. Assim como a remontagem da retrospetiva que agora decorre em Bona, intitulada “W.I.M. The Art of Seeing”, numa abordagem conceptualmente distinta e que estará patente no Museu do Cinema em Frankfurt, de 10 de março a 9 de outubro de 2026.
Veja aqui o programa completo do ciclo “Wim Wenders – 80º Aniversário”.
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