[weglot_switcher]

(Re)descobrir Wenders, o viajante que pinta imagens em movimento e não desiste da Humanidade

O cinema Nimas, em Lisboa, celebra oito décadas de vida de Wim Wenders com um ciclo que reúne seis dos filmes mais emblemáticos do cineasta alemão. Eterno viajante, pintor incansável dos estados de alma do mundo e dos humanos que o habitam. Para (re)ver de 14 de agosto a 1 de setembro.
© Maxime Jegat
13 Agosto 2025, 18h21

Para quem entrou no universo de Wim Wenders pelas “Asas do Desejo”, uma fábula sobre dois anjos, paixão e renúncia, nos céus de uma Berlim ainda dividida pelo Muro – à mistura com canções de Nick Cave –, difícil seria não seguir o trabalho deste cineasta. Até ao mais recente “Dias Perfeitos”, rodado em Tóquio, onde a repetição de gestos mundanos parece aliviar as feridas. Será mesmo assim? Difícil, mais uma vez, é não nos emocionarmos com o estoicismo japonês.

De Tóquio regressamos a Lisboa, para assinalar os 80 anos do cineasta alemão, quinta-feira, 14 de agosto, dia em que tem início uma mostra no cinema Nimas, que decorre até 1 de setembro, em homenagem àquele que é uma das figuras mais importantes do cinema alemão contemporâneo. Com a particularidade de manter com Portugal, e Lisboa em particular, uma longa relação de afeto.

O pintor de imagens em movimento

Wim Wenders nasceu em Dusseldorf a 14 de agosto de 1945, no estertor da Segunda Guerra Mundial. Estudou medicina e filosofia antes de se mudar para Paris, em 1966, para estudar pintura. E foi o que fez no estúdio do designer gráfico e gravador Johnny Friedlaender, mas o seu coração pendia para a imagem em movimento, que o colou à cadeira da Cinemateca Francesa a maior parte das tardes e serões. Resultado? Wenders começou a ver o cinema como uma “extensão da pintura por outros meios”, ao ponto de considerar esta espécie de curso intensivo como a fase mais importante da sua educação.

Regressa à Alemanha em 1967 e inscreve-se na recém-criada Universidade de Cinema e Televisão de Munique (HFF Munich). Exercita a veia de crítico de cinema entre 1967 e 1970, realiza várias curtas-metragens durante o curso e fecha este capítulo em 1971,  fundando com quinze outros realizadores e autores, a Filmverlag der Autoren, uma distribuidora de filmes para autores alemães. Começa aqui a vontade de trilhar um caminho fora do radar institucional.

Tem o seu momento filosófico em A Angústia do Guarda-Redes no Momento do Penalty, 1971, adaptação do romance homónimo de Peter Handke, a sua estreia nas longas-metragens. Segue-se uma trilogia de filmes de viagem, Alice nas Cidades (1973), Movimento em Falso (1974) e Ao Correr do Tempo (1975), na qual os protagonistas tentam encarar o seu desenraizamento na Alemanha pós-guerra.

A notoriedade vem com o ‘road movie’ Movimento em Falso (1975), receita que repetiria em Ao Correr do Tempo (1976). Com a ajuda de Samuel Fuller, Dennis Hopper e Nicholas Ray (que consideraria sempre como um mentor), realiza a sua primeira coprodução germano-americana: O Amigo Americano (1977), uma crítica velada à americanização dos costumes e modo de vida dos europeus. O reconhecimento internacional ganha fôlego e Wenders lança-se, no início da década de 80, a Estado das Coisas (1982), Leão de Ouro em Veneza, e Hammett, Detetive Privado (1982), este último produzido por Francis Ford Coppola.

Arrebata a Palma de Ouro do Festival de Cannes com Paris,Texas, esse filme de culto com o extraordinário Harry Dean Stanton e Nastassja Kinski, num papel absolutamente marcante. Um drama sobre um homem que, depois de vaguear durante quatro anos pelo mundo, regressa a casa e tenta reconquistar a mulher e o filho que nunca chegara a conhecer. Foi um êxito mundial e, quem sabe, talvez por isso, Wenders decidiu regressar a casa, à Alemanha, para se debruçar sobre o seu país.

Assim nasce As Asas do Desejo (1988), filme protagonizado pelo seu alter-ego Bruno Ganz, uma fábula sobre dois anjos que pairam sobre Berlim, até que um deles, apaixonado por uma trapezista, renuncia à sua espiritualidade para ir viver com ela. O filme valeu a Wenders novo prémio em Cannes, desta vez, o de Melhor Realizador, e muitos outros prémios, incluindo o de Melhor Fotografia pela Associação de Críticos de Cinema de Nova Iorque.

Chamar-lhe camaleão será abusivo, mas a capacidade que o cineasta tem de reinventar-se é notória. Nomeadamente filmando videoclips, como Night and Day (1990), para os U2, antes de rodar Até ao Fim do Mundo (1991), uma obra em episódios que contou com a participação de William Hurt e de Max von Sydow, falada em várias línguas e filmada em diversas cidades, São Francisco, Paris Veneza, Moscovo, Sidney, Tóquio e Berlim – e que o trouxe de volta a Lisboa, onde também filmou algumas sequências daquele que é um dos seus projetos mais ambiciosos.

Detalhe para todos os que apreciam a obra do cineasta alemão e também para quem o venha, agora, a descobrir, à boleia desta mostra no cinema Nimas: esta versão de Até ao Fim do Mundo não é a original que estreou em 1991, mas uma nova versão, alargada, onde Amália Rodrigues e Lisboa têm maior presença.

“Já tinha filmado duas vezes em Lisboa e achava-a uma cidade fascinante. Mas sentia-me culpado por nunca ter feito mais do que arranhar a superfície de um lugar que amava…”, disse Wenders a propósito de Lisbon Story – Viagem a Lisboa (1995) agora apresentada numa cópia restaurada em 4K, com música dos Madredeus.

Um legado ao mundo

Wenders colaborou com o lendário Michelangelo Antonioni na direção do filme Al di Là Delle Nuvole (Para Além das Nuvens, 1995), antes de se dedicar à sua faceta de documentarista em Buena Vista Social Club (1999), pondo a música cubana novamente nos ouvidos do mundo.

Pina (2011), filmado em 3D sobre a obra da bailarina e coreógrafa alemã Pina Bausch e O Sal da Terra (2014), sobre o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, são duas outras incursões, absolutamente marcantes, pelo território documental. Ou ainda o mais recente “Anselm – O Som do Tempo” (2023), filmado ao longo de dois anos em 3D como documentário-ensaio sobreo trabalho e processo criativo de um dos nomes maiores da arte contemporânea alemã, Anselm Kiefer.

Desafiamos a gravidade, ou melhor, a ordem cronológica para recuar no tempo e falar de outra faceta que vai além da realização e que se projeta no futuro. Falamos da Wim Wenders Siftung, projeto criado no outono de 2012, juntamente com a mulher Donata, na sua terra natal, Dusseldorf. Nesta fundação se reúne todo o trabalho cinematográfico, fotográfico, artístico e literário de Wenders, para que esteja permanentemente acessível ao público de todo o mundo. Todas as receitas do negócio de licenciamento são aplicadas ao propósito central da fundação, assente em dois eixos: a promoção das artes e da cultura, através do restauro, divulgação e preservação da obra do cineasta; e o apoio a jovens talentos no campo do cinema narrativo inovador.

Com os olhos no futuro, Wenders já fez saber que tem vários projetos na pipeline. “The Secrets of Places”, o documentário filmado em 3D sobre o arquiteto suíço Peter Zumthor, que Wenders considera ser “o arquiteto dos arquitetos”, com estreia prevista para 2026. Assim como a remontagem da retrospetiva que agora decorre em Bona, intitulada “W.I.M. The Art of Seeing”, numa abordagem conceptualmente distinta e que estará patente no Museu do Cinema em Frankfurt, de 10 de março a 9 de outubro de 2026.

Veja aqui o programa completo do ciclo “Wim Wenders – 80º Aniversário”.


Copyright © Jornal Económico. Todos os direitos reservados.