‘Reload’. Lagarde deverá recarregar hoje a ‘bazuca’ com arsenal de meio bilião de euros

O BCE tem estado a disparar as balas sem cerimónia e já gastou mais de 30% do ‘envelope’ de 750 mil milhões de euros no programa de emergência. A expetativa é que anuncie hoje um aumento para 1,25 biliões e um prolongar do programa até daqui a um ano, de forma a evitar especulação nos mercados. As novas projeções económicas também estarão sob foco.

“O mercado está à espera que o BCE avance com mais 500 mil milhões de euros” afirmou Miguel Gomes Silva, head of treasury and trading do Montepio, na edição desta semana do programa ‘Mercados em Ação’, da JE TV. “A não acontecer nada, isso seria visto de forma bastante negativa pelos mercados financeiros”.

O diretor de mercados do Montepio referia-se ao valor que a maioria dos analistas acredita que Christine Lagarde vai adicionar à ‘bazuca’ de 75o mil milhões de euros que lançou a 18 de março, o Pandemic Emergency Purchase Programme (PEPP), para combater os “riscos sérios” que o surto do novo coronavírus representa para a transmisssão da política monetária na zona euro.

Segundo uma sondagem conduzida pela “Reuters” em maio, 81% dos economistas consultados pela agência acreditam que o próximo passo do BCE será um aumento desse programa de Quantitative Easing.

Os analistas do Lloyds Bank alertam que não há certezas, e que o valor do aumento possa ser menor do que o esperado ou mesmo adiado para uma próxima reunião, mas acreditam que há várias razões para estar confiante num ‘suplemento’ de 500 mil milhões de euros.

A principal dessas razões é que o BCE arrancou o PEPP a todo o gás. Segundo os analistas do Danske Bank, tal como era esperado o banco central quis com isso conter a volatilidade e a fragmentação financeira em alguns países da zona euro. “No entanto, esse front-loading continuou por mais tempo do que esperado, pois o PEPP foi usado para pra lidar com o elevedo ritmo de emissões de dívidas nas últimas semana, com a oferta a exceder as compras”.

O BCE revelou esta terça-feira que até final de maio já tinha atingido mais de 31% dos 750 mil milhões no PEPP, tendo comprado 234.665 milhões de euros em dívida soberana e privada.

Para Carsten Brzeski, economista-chefe para a zona euro no ING, quanto mais se pensa no assunto, mais forte se tornam os argumentos para o BCE aumentar de forma significativa o PEPP.

“Claro que poderiam esperar até setembro, quando a forma real da retoma será mais visível” disse. “Mas o facto de que o PEPP estará esgotado até outubro, pelo menos ao ritmo atual, poderá levar a especulação indesejada nos mercados financeiros”, adiantou, salientando, tal como os analistas do Danske, que o BCE pode em complemento também estender a duração do programa até junho de 2021.

O economista do ING argumenta que a decisão do Tribunal Constitucional alemão de considerar ilegal partes do programa ‘convencional’ de compra de ativos (o APP, lançado em 2015) poderá até oferecer mais uma razão para aumentar o PEPP.

“A decisão do tribunal dá ao BCE liberdade em qualquer ação feita à medida ou relacionada a eventos, mas não tanto no sentido mais geral de ‘a economia ainda precisa de estímulo monetário'”, explicou Brzeski. “Consequentemente, a decisão do tribunal poderia realmente motivar o BCE a aumentar o tamanho do PEPP enquanto a zona euro ainda está no meio da pandemia, e não quando o pior já pode ter passado”.

Miguel Gomes Silva, do Montepio, sublinha que poderá have outra eventual medida em cima da mesa dos Governadores. “Pode ser que o BCE venha ajudar um pouco na parte corporate das empresas, a compra de dívida das chamadas fallen angels, ou seja da dívida que tinha rating elegível para o programa de compras até à Covid-19 e que fruto de downgrades perdeu essa elegibilidade”.

A reunião desta quinta-feira servirá também para o staff do BCE apresentar novas projeções macroeconómicas. Christine Largade disse na semana passada que a recessão na zona deverá ser de entre 8%, num cenário moderado, e 12% no cenário mais adverso, tendo o banco central deixado cair a hipótese de um contração de apenas 5%.

O ING acredita que a recessão atinja os 8%, enquanto o Danske Banke vê o BCE a adoptar como cenário base um contração de 9%. Ambos salientaram que, tendo em conta a natureza sem precedentes da crise atual, nenhum modelo, por mais sofisticado que seja, é capaz de captar tudo o que está a acontecer na economia e que Lagarde irá salientar o elemento de incerteza nas projeções.

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