Residências vão ser o centro das decisões para viver e trabalhar

Especialistas dizem que as pessoas vão “apreciar” ter a sua vida pessoal e profissional próximas uma da outra, mas dividem-se sobre se vai haver um maior afastamento do centro das grandes cidades.

Cristina Bernardo

“A casa vai ser o elemento central das decisões de muitas pessoas sobre como querem viver e trabalhar”. A afirmação é de Gilberto Jordan, CEO do Grupo André Jordan, em declarações ao Jornal Económico (JE).

A pandemia veio trazer o teletrabalho para a vida quotidiana dos portugueses e o empresário acredita que “estamos no início de um movimento que vai ganhando uma forma mais consolidada, seja por via de fatores reais ou expetativas”. Como tal, o CEO entende que tanto no mercado nacional, como a nível internacional, “existe uma maior valorização da casa enquanto lugar para viver”.

Por sua vez, José Cardoso Botelho, CEO da Vanguard Properties, diz ao JE que “trabalhar a partir de casa só poderá ser possível se a mesma tiver características que permitam separar claramente a vida pessoal da profissional”, ou então o que fará sentido para muitos é ter a possibilidade de ter um espaço de trabalho próximo da sua casa, mas não dentro dela. “É importante as pessoas poderem sair de casa, ainda que estejam no mesmo edifício. Dentro de Lisboa, sobretudo em edifícios mais antigos, não é fácil, porque como são muito baixos não existe essa hipótese. Mas nos empreendimentos novos certamente que isso será uma trend”, explica, dando o exemplo de um projeto da Vanguard Properties. “Estamos a trabalhar num projeto na Foz do Tejo, que é um empreendimento de alguma dimensão, onde as pessoas têm um espaço entre 9 a 18 metros quadrados fechado, onde podem trabalhar perto de casa, ao ponto de poderem deslocar-se a pé”, frisa.

O empresário acredita que, tendencialmente, as pessoas vão apreciar viver e trabalhar perto da sua área de residência, situação que terá repercussões em outros setores da sociedade. “Provavelmente isso vai ter efeitos na forma como se deslocam e na procura de emprego, porque quanto menor é a remuneração, mais longe as pessoas tendem a viver do local onde trabalham”, realça José Cardoso Botelho.

Também Gilberto Jordan partilha da opinião de que para se trabalhar em casa é preciso ter um espaço próprio, como uma biblioteca ou escritório. “No Belas Clube de Campo, em particular, temos visto isso. Tem havido muitas perguntas sobre se os apartamentos têm ou não escritórios. Todas as nossas casas têm um room office”, realça. Com a pandemia de coronavírus espalhada pelo mundo, o CEO salienta que haverá uma maior procura não de uma vida suburbana, mas fora do centro da cidade. “Muita densidade populacional assusta as pessoas e com esta pandemia ainda mais precauções elas vão ter”.

José Cardoso Botelho tem “algumas dúvidas” em relação ao afastamento dos grandes centros urbanos. “O que vai haver é uma tentativa de mais pessoas a trabalhar em casa, o que significa que em alguns casos pode haver pessoas que vão viver para mais longe do centro porque não têm de se deslocar de forma permanente”.

“Morte dos escritórios era manifestamente exagerada”
Poderá o teletrabalho levar a uma quebra nas empresas pelo mercado de escritórios? Adaptando a frase de Mark Twain, Gilberto Jordan acredita que “as notícias sobre a morte dos escritórios eram manifestamente exageradas”. Isto porque, no seu entendimento, o teletrabalho não consegue replicar, por ora, “o convívio, a interação e a troca de ideias” que existe e é necessária, por exemplo, nos departamentos criativos das empresas.

“Mesmo a criação de uma cultura de empresa e a transmissão dos seus valores é muito verbal. Claro que o teletrabalho vai evoluir e provavelmente de uma forma rápida”, sublinhando que já se fala na reconversão de escritórios para espaços de arrendamento acessível no centro das cidades, fazendo regressar as empresas de software e de áreas criativas.

Por sua vez, José Cardoso Botelho refere que “as empresas vão começar a pensar que há um conjunto de soluções que funcionam muitíssimo bem em regime de teletrabalho e isso vai ter como consequência uma menor necessidade em termos do espaço de escritórios”, dando o exemplo da cidade de Lisboa, onde se dizia que no futuro “a procura seria por espaços de 300 mil metros quadrados e vai certamente ser inferior”.

Gilberto Jordan olha ainda para o turismo nacional, acreditando que este “não vai morrer, mas vai voltar com uma maior precaução nas condições de higiene”.

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