Retoma económica: Líderes das associações empresariais falam de recuperação “difícil”

O JE celebra o seu quarto aniversário no dia 16 de setembro. Para marcar a ocasião, pedimos a 33 lideres (das áreas da economia, política e sociedade) as receitas que podem ajudar o país a sair de uma crise inesperada. Leia aqui os textos de Pedro Amaral Jorge, presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), António Saraiva, presidente da CIP e João Almeida Lopes, presidente da APIFARMA.

Pedro Amaral Jorge, presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN)

Como é do conhecimento de todos, é extremamente difícil assegurar uma recuperação económica “per se” e mais difícil ainda que a recuperação seja rápida e robusta no sentido de ser sustentável a longo prazo com resultados socioeconómicos efetivos e determinantes como o crescimento do emprego e o aumento da receita fiscal por via do aumento do PIB. No entanto, é absolutamente necessário fornecer à economia as condições necessárias para que a mesma se possa desenvolver e crescer sustentadamente.

E nesse sentido, e de acordo com um estudo elaborado pela Deloitte no final de 2019, estima-se que a contribuição da produção de eletricidade a partir de fontes de energia renovável para o PIB Português represente cerca de 8 mil milhões de euros em 2025, e cerca de 11 mil milhões em 2030. Por isso, penso que é incontornável que um modelo socioeconómico de desenvolvimento rumo à descarbonização das atividades económicas, em linha com o acordo de Paris de 2015 e o Pacote de Energia Limpa para todos os Europeus definido em 2016 e com as primeiras implementações em 2019 e 2020.

Aliás, se observarmos as politicas definidas pela Comissão Europeia desde o último trimestre de 2019, concluímos que a visão da APREN está perfeitamente alinhada com a da Comissão Europeia, que tem vindo a a definir um conjunto de medidas, estratégias e politicas com o objetivo de acelerar a transição energética e digital. Apresentou em 2019 o European Green Deal e em 2020 a Lei Europeia do Clima, ambas com o objetivo juridicamente vinculativo de neutralidade climática até 2050. As instituições da UE e os Estados-membros são coletivamente obrigados a tomar as medidas necessárias, a nível nacional e da UE, para cumprir o objetivo.

As medidas passam pela criação de um plano de energia e clima integrado de todos os Estados-membros, e também pela publicação de outras estratégias-chave: a Estratégia Europeia para a Integração de Sistemas Energéticos e a Estratégia Europeia para o Hidrogénio (EEH2). Harmonicamente com as referidas Estratégias, a Comissão Europeia também apresentou a Estratégia da Industrialização da Europa e a revisão da Diretiva da Taxação da Energia.

E, por fim, o Plano de Recuperação Europeu apresentado em julho passado, tem como um dos principais pilares a Transição Energética, sendo que em Portugal as Renováveis, através da eletrificação direta e indireta via H2 Verde , são abordadas e defendidas também na Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030, do Professor António Costa Pinto, onde se encontram espelhados os eixos estratégicos para acompanhar os desígnios da Europa e cumprir, em pleno, a transição verde, digital e industrial.

Uma pequena nota para referir que EEH2 reúne muitas e necessárias componentes para a ação política, abrangendo toda a cadeia de valor do hidrogénio e tendo em conta as vertentes industrial, de mercado e de infraestrutura, complementando com a investigação e inovação, sempre numa ótica de dimensão internacional. É, por isso, necessário criar um ambiente favorável que permita obter economias de escala.

Termino referindo que a importância das energias renováveis não é, porém, apenas económica. Estando mais que comprovado o impacto que as alterações climáticas estão e vão ainda ter no planeta e na humanidade, as energias renováveis são o futuro em duas formas diferentes, mas que se complementam: na tão necessária recuperação da economia, e na ainda mais essencial subsistência do planeta e da espécie humana.

A recuperação rápida, robusta e sustentável da economia Europeia e Nacional, assentam incontornavelmente na implantação, até 2030, das metas definidas no PNEC 2030, na EN H2 e no RNC.

 

Cristina Bernardo

António Saraiva, presidente da CIP

A recuperação da atividade económica vai depender, em primeiro lugar, da confiança que os consumidores e os investidores tiverem na capacidade que temos para prosseguir com as nossas vidas e ultrapassarmos esta situação criada pela pandemia. Vai depender, também, da resiliência que as empresas consigam ter para manter operações e postos de trabalho, porque essa é a base para recuperarmos.

A CIP tem acompanhado todo o esforço de resposta à pandemia e tem procurado contribuir para que sejam adotadas melhores soluções, porque tem um contacto muito próximo com a realidade económica e desenvolveu ferramentas para auscultar, a cada momento, a situação das empresas face às políticas que estavam a ser desenvolvidas.

Defendo que o foco das medidas de apoio tem de ser a proteção do emprego e a ajuda à sobrevivência das empresas, exatamente para que possam ser mantidos postos de trabalho, especialmente quando os sinais que temos são de uma recuperação mais lenta do que o esperado. Este apoio pode ser concretizado pelo suporte para a qualificação e a requalificação do nosso capital humano, dando solução a um problema concreto sentido pelo mercado e permitindo às empresas serem mais competitivas na retoma e na capacidade de enfrentarem o mercado, no futuro.

Portugal vai ter acesso a fundos significativos e a sua gestão e aproveitamento serão determinantes. É necessário estimular o investimento privado, com a criação de instrumentos que acelerem o reforço de capitais das empresas, para potenciar o investimento, mas também relançar o investimento público em infraestruturas essenciais ao reforço da competitividade, assim como financiar reformas para facilitar mudanças estruturais que ajudem os trabalhadores a ajustar-se e melhorem o ambiente de negócios das empresas.

Tem de existir uma maior aposta no apoio direto à produtividade e competitividade das empresas, estimulando quer o investimento empresarial quer a qualificação dos ativos.

 

João Almeida Lopes, presidente da APIFARMA

Além do cumprimento da sua missão humanitária e social, essencial para combater a pandemia que atravessamos, a chave para a recuperação da economia e para o reequilíbrio do bem-estar social reside nos setores da Saúde, em Portugal e no Mundo.

Prova disso, o facto de a Comissão Europeia considerar a Saúde a grande prioridade da Europa, colocando em marcha um plano para alcançar esse grande desígnio, onde se incluem a reindustrialização da Europa e a criação de uma reserva estratégica de produtos de Saúde. Este é um objectivo só concretizável com o apoio e contributo das empresas farmacêuticas e biotecnológicas europeias que produzem medicamentos, vacinas, meios de diagnóstico, dispositivos médicos e demais tecnologias de saúde.

Portugal não pode ficar fora deste novo ciclo e, para isso, temos, desde já, de apoiar e investir na indústria nacional. As nossas empresas demonstraram estar preparadas, não só dando resposta às necessidades de saúde dos cidadãos, mas também ao reorientar as suas unidades produtivas para novos produtos de saúde.

Esta capacidade pode ser ainda mais expressiva caso as condições de atractividade do país favoreçam a captação de investimento externo. A título de exemplo, refira-se a investigação clínica, área na qual Portugal pode e deve ser mais competitivo, em que pode ter argumentos para convencer as biotecnológicas internacionais e captar mais ensaios clínicos, com ganhos para o doente, para o Estado e para os profissionais de saúde.

E para aqueles que consideram a Saúde uma despesa, importa reiterar que a indústria farmacêutica gera 2,1 euros por cada euro investido, um rácio acima da média de todos os setores em Portugal, como mostrou o estudo “O Valor do Medicamento em Portugal”.

Os números são por demais esclarecedores. A Saúde é um poderoso motor de sustentação e de crescimento económico. O relançamento de uma nova economia para Portugal, assente no conhecimento, na inovação, na biomedicina, nas ciências da vida e na investigação, é uma oportunidade real que permitiria crescer de forma sólida e estruturada, com impactos consistentes e significativos ao nível do emprego, das exportações e do investimento externo.

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