O retrocesso promovido pelos Estados Unidos sob a administração Trump não se limita à esfera ambiental, tendo implicações económicas e financeiras de alcance global. A saída da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, o recuo em limites às emissões e incentivos às energias limpas, bem como o enfraquecimento da Agência de Proteção Ambiental, colocam em causa décadas de previsibilidade regulatória. Estas decisões deslocam custos para o futuro, penalizando investidores, seguradoras e Estados, e aumentam o risco de perdas económicas associadas a investimentos inviabilizados e a fenómenos climáticos extremos.
Perante este vazio, a União Europeia mantém formalmente o compromisso com o Green Deal, mas fá-lo num quadro de contradições internas, adiamentos regulatórios e pressões industriais. Esta hesitação reduz a coerência das políticas europeias e fragiliza a sua capacidade de assumir um papel compensatório, num contexto em que a previsibilidade regulatória se tornou um ativo económico central.
Fora do eixo transatlântico, os desafios tornam-se mais evidentes. As economias emergentes enfrentam custos de financiamento mais elevados para projetos verdes, agravados pela diminuição do apoio político e financeiro internacional. A China continua a avançar em tecnologias limpas e cadeias de valor associadas, mas fá-lo de modo largamente unilateral, contribuindo para o aprofundamento de assimetrias e para a fragmentação da transição climática global.
Neste enquadramento, a transição energética assume contornos de uma corrida assimétrica: enquanto alguns países internalizam custos elevados de ajustamento e procuram integrar o risco climático nas suas decisões económicas, outros beneficiam, no curto prazo, da inação alheia. Este desalinhamento distorce incentivos e compromete a eficiência económica global.
A liderança climática tornou-se, assim, um fator determinante da estabilidade económica. Num mundo profundamente interligado, em que a política climática deixou de ser apenas uma questão ambiental, a ausência de coordenação, previsibilidade e padrões comuns faz com que o risco climático continue a ser incorporado de forma imperfeita pelos mercados, adiando investimentos e aumentando os custos de ajustamento.
Este impasse revela um problema ainda mais profundo. O negacionismo climático e, de forma mais ampla, o desprezo pela evidência científica. Isto não é apenas um fenómeno marginal, mas uma fragilidade estrutural associada à dificuldade coletiva em reconhecer limites físicos, ecológicos e institucionais.



