Reutilização de recursos em queda. Economia mundial é apenas 8,6% circular

A quantidade total de recursos que entra na economia global aumentou 8,4% em apenas dois anos. De acordo com o novo relatório da organização Circle Economy, que será apresentado em Davos, o consumo mundial de novos recursos traduz-se em 100 mil milhões de toneladas, um novo máximo histórico.

As potências económicas mundiais consumiram mais de 100 mil milhões de toneladas em materiais por ano, atingindo máximos históricos. Feitas as contas, se considerarmos todos os minerais, combustíveis fósseis, metais e biomassa que entram anualmente na economia mundial, apenas 8,6% foram reutilizados afastando ainda mais as metas ambientais.

As conclusões são da autoria da organização Circle Economy e serão apresentadas, esta terça-feira, no arranque do Fórum Económico Mundial, em Davos. Ao Jornal Económico, o CEO da instituição considera que a importância deste relatório vai em linha com as prioridades deste fórum, que se centram em torno das questões da sustentabilidade. “É encorajador que a agenda do Fórum Económico Mundial esteja mais focado na sustentabilidade este ano, mas o foco real deve estar em transformar essa conversa em ação e fazer com que governos e líderes empresariais se comprometam com agendas transformadoras de circularidade”, explica Marc de Wit, principal redator deste documento.

A análise denuncia que em dois anos, verificou-se um aumento de 8,4% de todos os recursos que entraram na rota da economia mundial, tendo crescido de 92,8 mil milhões de toneladas em 2015 para 100,6 mil milhões em 2017, o último ano em que foram feitos registos. No mesmo período, a quantidade de recursos extraídos aumentou em 9%, tendo o Circle Economy registado um crescimento de 84,4 para 92 mil milhões de toneladas. A organização conclui, portanto, que o total de materiais reutilizados no mundo cresceu apenas 3%, de 8,4 para 8,65 mil milhões de toneladas.

“Arriscamos-nos a um desastre global se continuarmos a tratar os recursos do planeta como se fossem ilimitados. Os governos devem adotar, urgentemente, soluções baseadas numa economia circular se quisermos garantir uma qualidade de vida a 10 mil milhões de pessoas sem desestabilizar os processos planetários críticos”, afirma Marc de Wit.

Governos devem agir “urgentemente”

O relatório argumenta que os países estão particularmente bem posicionados para lidar com o crescente défice de circularidade e exorta os governos a estabelecer roteiros nacionais para a circularidade. O JE questionou de Wit sobre se a resposta a estes avisos ambientais tem sido suficiente e se relatórios desta natureza têm influenciado, de alguma maneira, a posição das administrações nacionais.

“Os governos estão cada vez mais cientes do papel fundamental que desempenham na criação de uma economia circular”, explica o responsável ao JE, acrescentando que tem visto um movimento crescente dentro do espaço da economia circular. “Mas é preciso trabalhar mais para medir o progresso da agenda circular a nível nacional e internacional”.

O documento defende ainda que ao serem adotadas novas práticas, que isso pode tornar as suas economias mais competitivas, melhorar as condições de vida, ajudar a cumprir as metas de emissões de CO2 e evitar a desflorestação. Por isso, identifica diferentes estratégias para diferentes países com base nos padrões de vida de sua população e em sua pegada ecológica.

Aos olhos dos autores deste relatório, Portugal, juntamente com os restantes membros da União Europeia os Estados Unidos e o Japão, situam-se na categoria de “países de transição” (Shift country) consumindo 10 vezes mais recursos por pessoa do que os “países em construção” e produzindo volumes muito altos de resíduos, dado que maior parte do consumo é importado.

Para diminuir o consumo pouco sustentado, o Circle Economy apela para que se faça a transição para um consumo mais “verde”, que se ganhe mais noção sobre quais os impactos de importação e exportação de bens e que se acelere a transição para as energias renováveis de forma a descarbonizar as suas economias e criar sistemas de capacidade renovável abundantes, armazenamento e redes inteligentes.

“Portugal é classificado como um “Shift country” porque mostra níveis muito altos de desenvolvimento humano e uma pegada ecológica alta (4,1 hectares globais)”, explica Marc de Wit ao Jornal Económico. “Em termos de progresso do desenvolvimento em direção a um espaço seguro social e ecológico, isso coloca Portugal quase igualmente longe desse espaço seguro, juntamente com países como o Líbano ou o Gabão. Estes países têm níveis muito mais baixos de desenvolvimento humano, mas ficam mais próximos dos limites ecológicos do planeta.”

O relatório do Circle Economy vai ser apresentado na íntegra, esta terça-feira, no inicio do Fórum Mundial Económico, em Davos. A “crise climática” foi o tema escolhido para marcar os 50 anos da conferência que junta os principais líderes da política e economia mundial numa estância de esqui na Suíça. A organização do Fórum Económico Mundial quer ainda chamar a atenção para os “confrontos económicos” e a “polarização política doméstica”, apontados como os “riscos significativos” que o planeta enfrenta em 2020. A tensão entre EUA e Irão e a guerra comercial que opõe Washington a Pequim são temas que deverão provocar o aquecimento local.

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