Rio: populista ‘responsável’ e politico ‘antipolítico’

Rio é o líder da direita que diz não ser de direita, o político profissional que tenta parecer ‘antipolítico’ e o populista que demonstra sentido de Estado.

A vitória de Rui Rio nas eleições internas do PSD veio mais uma vez confirmar uma tendência no sentido de um divórcio crescente entre opinião pública e opinião publicada. Veio também demonstrar que é possível vencer eleições em Portugal sem as boas graças da comunicação social mainstream, fazendo um uso eficiente das redes sociais e de aplicações como o WhatsApp. Ao contrário de Rangel, que tentou apoiar-se na dita elite bem-pensante do partido, Rio comunicou de forma eficaz com as bases e abdicou do apoio dos “comentadores” e dos “notáveis”.

Rio venceu apesar de tudo isto ou, melhor dizendo, devido a isso, beneficiando do facto de ter características pessoais que são do agrado de uma boa parte dos portugueses, em especial do eleitorado tradicional do PSD, nomeadamente a reputação de “homem sério”, de boas contas, autoritário, de poucas falas, avesso às “politiquices” (não por acaso, uma palavra tão exclusivamente portuguesa como a célebre “saudade”) e que não faz cedências ao chamado politicamente correto. Tal como Salazar, Cavaco e Passos Coelho, Rio é um político profissional bem sucedido que nos tenta convencer a todos de que não é político, pelo menos não no sentido pejorativo que alguns atribuem à palavra.

Ao mesmo tempo, na medida em que procura comunicar diretamente com as massas sem se submeter à mediação jornalística, Rio é um populista competente q.b., embora sem o histrionismo e a ausência de sentido de Estado que vemos noutros políticos populistas. Esta será, de resto, uma entre várias características suas que o tornam um personagem paradoxal e que confundem os observadores.

Senão vejamos: ele é o líder da direita que diz não ser de direita, o político que tenta parecer o antipolítico, o populista a quem se reconhece sentido de Estado e o comunicador eficaz que parece estar a borrifar-se para a comunicação. Diria que esta forma de estar na vida pública produz resultados em Portugal porque toca numa ‘tecla’ que existe bem lá no fundo da nossa psique coletiva, fazendo reviver o mito do líder providencial que vem lá de onde os homens ainda não estão corrompidos pelos ares decadentes da capital, para meter o país na ordem. Com ou sem nevoeiro, o sebastianismo permanece vivo.

Resta saber se esta estratégia permitirá ao PSD de Rui Rio chegar ao poder. Não sendo profeta, diria que há hipóteses de isso acontecer, pela simples razão de que, ao contrário do que muitos têm defendido desde 2015, em Portugal as eleições ainda se vencem ao centro. Ao contrário de Rangel ou de outros políticos da direita, que no atual cenário de crescente polarização ideológica apenas conseguem convencer os que já estão convencidos, Rio consegue disputar algum do eleitorado que votou no PS nos últimos anos. Nos próximos meses veremos se isto será suficiente para vencer as eleições e conseguir formar Governo, ainda que minoritário.

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