Saíram 190 colaboradores até março, e “no momento oportuno” o BCP anunciará o plano

Dois temas relevantes foram questionados ao presidente do BCP na apresentação de resultados. O primeiro sobre o plano de saída de pessoal que o mercado espera que seja anunciado e o segundo sobre o financiamento ao Fundo de Resolução para injetar no Novo Banco. No primeiro Miguel Maya prometeu anunciar “em momento oportuno”, no segundo disse que o BCP, que faz parte do sindicato bancário, “tem sido diligente” e que “não é o BCP que atrasa o que quer que seja”.

Miguel Maya
Miguel A. Lopes/Lusa

O tema está na ordem do dia por causa do corte de custos como caminho para aumentar a rentabilidade da banca, numa era de digitalização galopante. O contexto transformacional que todo o sector bancário a nível europeu e, necessariamente, também em Portugal, atravessará, neste e nos próximos exercícios, explica a redução de pessoal.

Por isso o presidente do BCP foi confrontado com um plano de redução de pessoal que “alegadamente” estaria a ser preparado. Miguel Maya desvalorizou os rumores e disse que entre março de 2020 e março de 2021 houve 190 saídas líquidas do quadro do banco, ou seja, o saldo entre saídas e recrutamentos (o banco recrutou 23 pessoas).

“O banco tem de se preparar para o futuro e a gestão dos recursos tem de ser dinâmica. No ano passado era intenção de banco fazer uma redução [de pessoal] maior do que fez, e não o fez por questões sociais relacionadas com a pandemia. Sobre este ano, o banco anunciará em momento oportuno o que fará sobre esta matéria”, disse Miguel Maya, na conferência de imprensa de apresentação de resultados do primeiro trimestre (57,8 milhões de euros).

O banco anunciou que os clientes digitais já representam 66% do total, sendo em número de 3.914 clientes. O caminho da digitalização é irreversível e os balcões tenderão a reduzir-se e com eles o quadro de pessoal. Os bancos espanhóis já arrancaram com fortes de redução de pessoal, mas em Portugal só o Banco Santander Totta apresentou um plano “ambicioso” de redução do quadro de pessoal.

Miguel Maya frisou “que não será o número de trabalhadores de outros bancos a determinar o número do BCP e que, apesar das saídas líquidas, também têm sido contratadas pessoas para áreas em que o BCP está mais necessitado (caso de áreas tecnológicas)”.

No BCP não há um número, segundo o banqueiro, que reconheceu que há já bastante tempo que vem dizendo que o banco tem de ser eficiente para ser competitivo no futuro e manter-se relevante e que tem a meta de ter um rácio de eficiência (custos sobre receitas) de 40% (o cost-to-income foi 43,9% no primeiro trimestre).

Recorde-se que o Santander Totta que anunciou um plano de redução de pessoal mais expressivo, reportou um rácio de eficiência a melhorar 7,4 pontos percentuais para 34,1% (ainda que justificado pelo impacto pontual de proveitos de natureza não recorrente da gestão da carteira de títulos).

“Para termos relevância de futuro, para crescermos, criarmos oportunidades de valorização profissional para os trabalhadores do banco, remunerarmos adequadamente os acionistas, termos uma presença determinante, dominante no apoio à economia, precisamos de ser um banco eficiente”, disse o CEO do Millennium BCP.

Lucros subiram 63,8% no primeiro trimestre

A redução de custos operacionais de 9,2% justificou a subida dos lucros no trimestre. O BCP divulgou esta segunda-feira lucros de 57,8 milhões de euros no primeiro trimestre, mais 63,8% do que os 35,3 milhões de euros registados nos mesmos três meses de 2020. Os resultados incorporam um reforço expressivo de imparidades e provisões de 242,8 milhões de euros (mais 20,3% face ao período homólogo). Recorde-se que o resultado do primeiro trimestre inclui 112,8 milhões de euros de provisões para riscos legais de créditos em francos suíços na operação do Millennium Bank da Polónia.

Olhando para a conta de resultados, no primeiro trimestre face ao mesmo trimestre de 2020, a margem financeira caiu 2,5% para 376 milhões de euros e as comissões recuaram 1% para 177,9 milhões de euros.

A redução de trabalhadores bancários e o fecho de balcões deverá marcar o futuro imediato do setor bancário. A iniciativa começou já no Santander Totta que anunciou que tinha chegado a acordo para a saída de 68 trabalhadores no primeiro trimestre deste ano, no âmbito da reestruturação do banco, e que prevê eliminar mais 100 a 150 postos de trabalho “cujas funções se tornaram redundantes”. Para além de ter um programa geral voluntário de saídas para trabalhadores com 55 ou mais anos de idade (Plano 55+) que pode abranger um universo de 950 trabalhadores. O Santander disse que este plano só termina em Junho e por só nessa altura será aprovado um plano de reestruturação no qual será possível ter números mais concretos quanto a saídas.

O BCP fechou março com 7.004 colaboradores em Portugal, menos nove do que em dezembro passado. Já em termos de sucursais, o banco contava no final de março com 476 balcões, menos dois do que no fim de 2020.

Empréstimo ao Fundo de Resolução evolui de forma “favorável”

Miguel Maya não quis avançar detalhes sobre o empréstimo que banca, num sindicato, irá fazer ao Fundo de Resolução para este injectar no Novo Banco, no âmbito do Acordo de Capitalização Contingente. “O dossiê do financiamento bancário ao Fundo de Resolução está a evoluir de forma favorável”, admitiu.

“Todas as questões que nós colocámos obtivemos respostas prontas e corretas e o BCP já tem as decisões tomadas nesta matéria, e como se trabalha num sindicato há decisões que têm de ser tomadas, e quando forem tomadas não é o banco que as deve comunicar. Temos sido diligentes. Não é o BCP que atrasa o que quer que seja”, disse o banqueiro.

Já Paulo Macedo, CEO da CGD, tinha respondido na semana passada que o contrato de financiamento ao Fundo de Resolução estava a ser ultimado.

Recorde-se que em cima da mesa está uma linha de 475 milhões de euros, dos quais será usado 430 milhões para injetar no Novo Banco por conta das perdas de 2020.

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