“Salvar as empresas e preservar o emprego”. Conheça as prioridades de António Costa Silva para recuperar a economia

O gestor, atualmente presidente da Partex, a quem o Primeiro Ministro pediu o plano de recuperação diz que tem de se evitar que a economia “entre em estado de coma”. António Costa Silva diz que o Estado vai ter de ser interventivo e que o novo modelo económico tem de estar assente no investimento nas infraestruturas (físicas e digitiais) e na reconversão industrial.

António Costa chamou um ‘quasi-homónimo’, António Costa Silva, presidente executivo da gestora de ativos petrolíferos Partex, para estudar o plano de recuperação da economia. Segundo, o “Expresso” o gestor vai analisar as necessidades estruturais do país com todos os ministros, os partidos e os parceiros sociais.

Aos 68 anos, o experiente gestor vai ter a complexa a tarefa de ajudar a desenhar um plano de recuperação para uma economia que, segundo o Orçamento Suplementar a ser apresentado pelo Governo na primeira quinzena de junho, deverá contrair 7% este ano devido à pandemia de Covid-19.

Quais serão as linhas estratégica que Costa Silva irá privilegiar? O Jornal Económico teve a oportunidade de ouvir as ideias do gestor num webinar organizado pela Ordem dos Engenheiros, a 18 de maio, sobre o tema “Pandemia Covid 19, impactes globais e mudança de paradigmas”.

“Nós temos que impedir que a nossa economia entre num estado de coma, temos de salvar o maior número de empresas possíveis e preservar o emprego”, explicou Costa Silva sobre as prioridades a curto prazo. “É crucial e decisivo”.

O gestor disse esperar que programas de recuperação a nível nacional, mas também a nível europeu, funcionem, pois isso vai ser decisivo para resgatar a economia.

“É por isso que o papel do Estado é fundamental e o Estado tem de repensar ao nível de todas as suas políticas públicas e aproveitar a crise para desenvolver um novo envelope, uma nova abordagem em relação ao futuro”, explicou Costa Silva no webinar.

Sublinou que Portugal “é um país extraordinário, a múltiplos níveis como se provou nesta crise” e que nos 46 anos de democracia “tivemos um desenvolvimento extraordinário ao nível da ciência, da educação, da tecnologia, da inovação”.  Alertou, contudo,  que “não avançamos muito em termos do desenvolvimento económico e social e esse é o grande desafio que está aqui”.

Um Estado mais interventivo

Qual vai ser o modelo económico e social do futuro? Para António Costa Silva, a resposta é um modelo que vai ter “um maior papel e valência do Estado, uma combinação virtuosa entre o Estado e o mercado, um Estado que vai ter muito mais funções que tinha, não só um Estado que regula, que assegura competitividade e transparência, mas também um Estado que vai ter de intervir para salvar as empresas que são competitivas e impedir que elas entrem em coma, portanto um Estado que vai intervir ao nível do capital das empresas”.

O gestor sublinhou que o Estado deve ter o mapeamento do recursos nacionais. “Vamos entrar numa era em que temos de reindustrializar o país, portanto remapear completamente os nossos recursos, e temos de ter um Estado que seja capaz de repensar todas as suas políticas públicas”.

Deu como exemplo a Noruega, que quando desenvolveu o ciclo de industrialização conseguiu captar investimento de grandes empresas internacionais, combinar esse investimento com a participação das empresas nacionais, definir o conteúdo local e depois a “endogenização” da tecnologia.

António Costa Silva vincou que se no imediato as prioridade é salvar as empresas e o emprego, Portugal tem também de ter uma visão estratégica para o futuro. “O primeiro pilar indispensável tem de ser o programa de infraestruturas físicas do país, pois precisamos de modernizar as infraestruturas”, disse.

“Uma das mais importantes é a ferrovia, é altura de ter uma ferrovia que seja competitiva, fazer uma ligação a Espanha e ao resto da Europa”, explicou. “O país tem de apostar ainda mais no seus portos. Tem ativos extraordinários como o Porto de Sines, o Porto de Leixões, tem a ver com os investimentos necessários nas platformas logísticas, nos equipamentos de manutenção de carga, na extensão de cais”.

Para o gestor é preciso completar as estradas que faltam, nomeadamente o que chama de missing links para o interior do país. “Tem de identificar as estruturas que são vitais para o futuro, os aeroportos que têm que estar colocados, porque o turismo vai retornar, provavelmente não com a intensidade que tinha, mas é ainda assim é vital”.

“Porquê as infraestruturas? Porque sabemos que  o setor da construção civil no país é vital”, acrescentou.

Digitalização e reconversão da indústria

O segundo ponto vital é o que António Costa Silva chama de infraestruras digitais: a fibra óptica e as competências digitais.

“Nós vimos a grande dificuldade, por exemplo, que o sistema nacional de educação teve, sobretudo as escolas nos interior, para se adaptar a esta nova fase do ensino digital”, referiu. “É muito importante haver um programa para as escolas, para a administração pública, e o Estado tem de por em pratica um programa de assistência para a digitalização as pequenas e médias empresas.

O terceio pilar crucial, na visão do gestor, é a reindustrialização. Os programas de relançamento da industrialização até à data falharam, disse, devido à “pouca inteligência das políticas públicas”.

“O país pode reindustrializar-se a um nível que esteja em consonância com as grandes tendências do mercado mundial, e sobretudo todas aquelas que são relacionadas com a transição energética, com a eletrónica de alta precisão com as ciencias da computação”, adiantou.

“Há a necessidade de reorganizar as cadeias logísticas, não podemos estar dependentes, em Portugal e na Europa, de equipamentos críticos que venham de outro lado, sobretudo em crises. Essa vulnerabilidade vai ser ultrapassada com o forte apoio da Europa, mas não podemos continuar a assistir à deslocalização das empresas e dos centros de competência nacionais e depois ter uma economia muito frágil”, concluiu.

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